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Vício em smartphone podem piorar depressão em idosos

Análise com machine learning mostra que o vício em smartphone é uma condição necessária para a depressão em idosos, mas os caminhos variam da exclusão estrutural ao isolamento de quem tem mais recursos.

Idoso com expressão triste segurando um smartphone, ilustrando a relação entre vício em smartphone e depressão em idosos.
Idoso com expressão triste segurando um smartphone, ilustrando a relação entre vício em smartphone e depressão em idosos.

Se você acha que ter um bom salário e escolaridade alta são sempre fatores de proteção para a saúde mental na terceira idade, um novo estudo pode fazer você repensar essa ideia. Uma pesquisa com mais de 2,5 mil idosos chineses revelou que o vício em smartphone é uma condição quase obrigatória para a depressão nessa faixa etária. Mas a história não é tão simples quanto “usar muito o celular causa tristeza”.

O que os pesquisadores encontraram foi um cenário de caminhos múltiplos: o uso problemático do celular se mostrou uma base comum a todos os perfis depressivos, mas ele se combinou de formas diferentes com fatores como renda, escolaridade, estado civil e preferências de uso dos aplicativos. Os dados, analisados por inteligência artificial, mostram que a tecnologia pode tanto reforçar a exclusão de quem já está à margem quanto criar um vazio silencioso entre quem tem todos os recursos materiais, mas pouca conexão humana de verdade.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Escola de Administração Pública da Universidade de Estudos Estrangeiros de Guangdong, na China, e publicado em 2025. Os dados vieram de questionários aplicados presencialmente em 87 centros comunitários de cinco distritos de Guangzhou, entre outubro e novembro de 2024, com 2.585 idosos respondendo de forma válida, um índice de resposta de 99%.

O que significa, exatamente, um vício em smartphone?

Antes de avançar, vale esclarecer o que o estudo chama de “vício em smartphone”, ou smartphone addiction. Não se trata simplesmente de passar horas no celular. A definição usada pelos pesquisadores, e medida por uma escala de 17 perguntas chamada Mobile Phone Addiction Index, descreve um comportamento compulsivo e excessivo que chega a atrapalhar a rotina diária da pessoa e está ligado a consequências psicológicas negativas. É quando o uso do aparelho deixa de ser uma ferramenta e vira um padrão difícil de controlar, algo que a própria pessoa gostaria de reduzir, mas não consegue.

Para medir a depressão, foi usada uma versão adaptada para idosos chineses da Escala de Depressão Geriátrica, com 15 perguntas. As respostas geram uma pontuação que vai de 0 a 15: até 4 pontos indicam ausência de depressão; de 5 a 9, depressão leve; e 10 ou mais, depressão clínica. Na amostra, 55,3% dos participantes não tinham depressão, 38% apresentavam depressão leve e 6,7% estavam no nível clínico.

O que os dados revelaram sobre vício e depressão?

A primeira etapa da análise usou quatro algoritmos de machine learning para identificar, entre todas as variáveis do questionário, quais tinham mais peso na previsão da depressão. O modelo campeão, chamado Random Forest, alcançou uma precisão de 84,8% e uma área sob a curva de 0,926, um desempenho alto, que indica que os fatores levantados realmente têm poder preditivo sobre o quadro depressivo.

No ranking de importância, a participação social apareceu como o fator mais relevante (com um valor SHAP de 0,1613), seguida de perto pelo vício em smartphone (0,1441). Depois vieram renda mensal, estado civil, preferência por funções interativas do celular, escolaridade, gênero, saúde, preferência por entretenimento próprio e idade. A participação social se mostrou o principal fator protetor: quanto maior a participação, menor a probabilidade de depressão. Já o vício em smartphone puxou o risco para cima.

Mas o achado mais surpreendente veio na segunda etapa, quando os pesquisadores usaram uma técnica chamada fsQCA para descobrir como esses fatores se combinam. Eles testaram a hipótese de que o vício em smartphone seria uma condição necessária para a depressão, ou seja, que praticamente todos os casos de depressão alta apresentariam também um alto nível de vício.

O resultado confirmou a hipótese com força: a consistência foi de 0,991, muito acima do limiar de 0,9. Na prática, quase a totalidade dos idosos com depressão alta tinha, ao mesmo tempo, um alto vício em smartphone. Os outros fatores, sozinhos, não chegaram nem perto desse patamar.

Três perfis de risco que a ciência identificou

A análise encontrou três configurações distintas que, juntas, explicam os casos de depressão com uma consistência geral de 0,956. São três perfis diferentes de idosos nos quais o vício em smartphone se combina com outras vulnerabilidades para produzir um quadro depressivo.

O primeiro perfil: chamado pelos pesquisadores de “digitalmente desconectado e vulnerável”, é marcado por homens com baixa escolaridade, alto vício em smartphone e pouca preferência por funções interativas (aquelas que envolvem troca com outras pessoas, como chamadas de vídeo ou interação em redes sociais). Esse perfil respondeu por aproximadamente 49,9% dos casos de depressão. São idosos que, por limitações educacionais, tendem a usar o celular de forma passiva, rolando vídeos, jogando, e encontram dificuldade para transformar a ferramenta em ponte para conexões sociais reais.

O segundo perfil é o mais contraintuitivo: idosos com alta renda e alta escolaridade, mas que apresentam alto vício em smartphone, baixa participação social e nenhum uso de funções interativas. Apesar dos recursos materiais, essas pessoas vivem um isolamento digital profundo, um paradoxo em que abundância financeira convive com privação emocional. Esse perfil abrangeu 56% dos casos.

O terceiro perfil, que não estava previsto nas hipóteses iniciais e emergiu dos dados, é o de homens solteiros que, mesmo mantendo uma participação social aparentemente adequada, apresentam alto vício em smartphone e não usam funções interativas. A ausência de uma figura de apego primária, como um cônjuge, parece criar um vazio emocional que o celular tenta preencher, mas de forma que só aprofunda o isolamento. Esse perfil teve uma cobertura de 46,2%.

Homens com baixa escolaridade: o mecanismo da exclusão estrutural

O primeiro perfil joga luz sobre como a desigualdade digital pode se converter em sofrimento mental. Idosos com poucos anos de estudo frequentemente têm menor alfabetização digital — não sabem, por exemplo, fazer uma videochamada ou compartilhar fotos com a família. O celular, que poderia ser uma janela para o mundo, acaba se limitando a uma tela de entretenimento solitário. Some-se a isso uma característica de gênero: enquanto as mulheres idosas costumam manter redes de parentesco mais amplas, os homens tendem a concentrar seus vínculos afetivos na figura da esposa. Quando ocorre viuvez ou afastamento social, esses homens ficam sem os amortecedores sociais que protegem contra a solidão. O smartphone, nesse contexto, não funciona como ponte — ele reforça a margem onde a pessoa já se encontra.

O paradoxo dos idosos com recursos que se isolam digitalmente

O segundo perfil desafia uma crença comum: a de que ter dinheiro e estudo resolve tudo. A pesquisa mostrou que, se o uso do celular é passivo e desconectado de interações significativas, os recursos materiais não protegem — pelo contrário, podem mascarar um vazio emocional profundo. Isso se alinha com a teoria da seletividade socioemocional, que diz que, na velhice, as pessoas priorizam vínculos emocionalmente significativos. Quando o smartphone não serve a esse propósito e o tempo de tela substitui, em vez de facilitar, os encontros e trocas genuínas, o resultado pode ser uma vida materialmente confortável, mas emocionalmente deserta.

Como promover um envelhecimento digital mais saudável?

Os pesquisadores sugerem que as intervenções não podem ser iguais para todo mundo. Para o grupo de homens com baixa escolaridade e pouca conexão digital, faz sentido ir além de ensinar o básico da tecnologia. Oficinas comunitárias que envolvam netos e avós, por exemplo, podem transformar o tempo de tela passivo em engajamento intergeracional ativo, ensinando desde chamadas de vídeo até o compartilhamento de fotografias. Grupos de interesse liderados por pares também podem criar novos laços.

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Já para os idosos com recursos, mas socialmente isolados, a saída pode estar em dar um papel ativo: recrutá-los como mentores online, por exemplo, muda a posição de consumidor passivo para a de contribuidor com propósito. E para os homens solteiros, os autores sugerem programas que criem espaços online de baixa pressão, capazes de fomentar até mesmo os chamados “laços fracos” — aquelas conexões leves, de conhecidos ou grupos de interesse, que ajudam a reduzir a dependência emocional do celular e a sensação de solidão.

E há uma recomendação que atravessa todos os perfis: desenvolvedores de tecnologia poderiam incorporar princípios de design sensíveis à idade e práticas responsáveis de algoritmo, para apoiar o bem-estar digital em vez de explorar a vulnerabilidade à compulsão.

O que a pesquisa ainda não responde?

Os próprios autores apontam limitações importantes. A primeira é o desenho transversal do estudo: como os dados foram coletados num único momento, não é possível afirmar com certeza se o vício em smartphone causa a depressão ou se a depressão é que leva ao uso compulsivo — ou ainda se existe uma sobreposição entre as duas medidas. Estudos longitudinais, que acompanhem os mesmos idosos ao longo do tempo, são necessários para esclarecer essa direção.

Outra limitação é que a amostra veio exclusivamente de Guangzhou, uma metrópole chinesa, o que restringe a generalização para outras realidades culturais e socioeconômicas. A escala de participação social, por sua vez, não diferenciou atividades online de offline — uma distinção que pode ser crucial para entender os mecanismos envolvidos. Há ainda a possibilidade de que comportamentos classificados como “vício” reflitam, na verdade, baixa alfabetização digital, e não uma dependência real. E o estudo não controlou o uso de medicamentos, um fator que pode influenciar os sintomas depressivos.

Por que esses achados importam para você?

Com o envelhecimento acelerado da população em todo o mundo, e com o índice de idosos conectados crescendo ano a ano, entender a relação entre celular e saúde mental deixou de ser uma curiosidade acadêmica. O estudo deixa um recado claro: o que adoece não é o smartphone em si, mas a combinação entre um uso compulsivo, a falta de propósito nas interações digitais e a ausência de vínculos humanos que realmente importam. A chave para um envelhecimento digital saudável, sugerem os dados, não está em demonizar a tecnologia, mas em garantir que ela sirva ao que, no fundo, a gente sempre precisou: encontrar e cuidar uns dos outros.

Fontes

Perguntas frequentes

Como o vício em smartphone pode causar depressão em idosos?

O estudo mostra que o vício em smartphone não age sozinho, mas é uma condição necessária que se combina com outros fatores. Ele pode criar um ciclo de escapismo: a solidão leva ao uso compulsivo de funções passivas (como assistir a vídeos sem parar), o que reduz o tempo de interações reais, aprofundando o isolamento e os sintomas depressivos. Em todos os perfis depressivos identificados, o vício estava presente junto com baixo uso de funções interativas e, a depender do caso, baixa participação social ou vazio relacional.

Por que homens idosos solteiros são mais vulneráveis ao vício em smartphone?

A pesquisa identificou um perfil específico de homens solteiros que, mesmo mantendo uma participação social aparentemente adequada, apresentavam alto vício e não usavam o celular para funções interativas. A ausência de uma figura de apego primária, como uma esposa, parece gerar um vazio emocional que esses homens tentam preencher com o uso passivo do smartphone. Sem laços de parentesco amplos — algo mais comum entre mulheres idosas —, eles ficam com menos amortecedores sociais contra a solidão.

O uso de redes sociais piora a depressão na terceira idade?

Depende de como se usa. O estudo distingue entre funções interativas (que incluem o uso de redes sociais para conversar, compartilhar e interagir com outras pessoas) e funções de entretenimento próprio (como jogos e consumo passivo de vídeos). A preferência por funções interativas foi associada a um risco reduzido de depressão, enquanto a preferência por entretenimento passivo elevou ligeiramente o risco. O problema não é a ferramenta, mas o tipo de engajamento que ela promove.

Qual a relação entre participação social e depressão em idosos que usam celular?

A participação social foi o fator mais fortemente associado à redução da probabilidade de depressão entre todos os analisados. Idosos com maior participação social tinham risco significativamente menor, independentemente de outros fatores. O celular pode tanto ampliar essa participação — quando usado para organizar encontros, fazer videochamadas ou participar de grupos comunitários — quanto reduzi-la, quando o tempo de tela substitui as interações presenciais.

Como promover o uso saudável do smartphone entre idosos?

Os pesquisadores sugerem estratégias direcionadas conforme o perfil: para idosos com baixa escolaridade e pouca conexão digital, oficinas comunitárias que envolvam familiares e ensinem funções interativas como videochamadas; para aqueles com recursos materiais mas socialmente isolados, programas que lhes deem um papel ativo, como mentoria online; e para homens solteiros, espaços online de baixa pressão que estimulem a formação de laços fracos. Em todos os casos, o foco precisa estar em promover conexões humanas significativas, e não apenas em ensinar habilidades técnicas.

Foto: SHVETS production no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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