Quanto maior a presença de alimentos ultraprocessados na dieta, maior a chance de câncer de próstata. Isso foi o que encontrou um estudo americano com 17.024 homens publicado no American Journal of Medicine. Em números de risco relativo, quem consumia mais desses produtos teve de 27% a 34% mais risco de ter a doença, depois de ajustar para fatores como idade, tabagismo, raça e condição socioeconômica.
O tamanho do efeito é modesto, e os próprios autores lembram que, na amostra, o câncer estava presente em 3,5% dos participantes. Mas o câncer de próstata foi o segundo mais comum entre homens no mundo em 2022, e os ultraprocessados respondem por mais da metade das calorias consumidas nos Estados Unidos. Uma associação pequena, multiplicada por milhões de pessoas, deixa de ser pequena.
O artigo é assinado por Dr. Hunter Scott, Yanna Willett, John Dunn, Dr. Timothy Dye e Dr. Charles Hennekens, pesquisadores ligados à Florida Atlantic University e à Virginia Tech, nos Estados Unidos. Eles analisaram dados do NHANES, a pesquisa nacional de saúde e nutrição americana, em ciclos de 2003 a 2024. O estudo tem DOI 10.1016/j.amjmed.2026.07.043.
O que são alimentos ultraprocessados?
Ultraprocessados são produtos criados por processamento industrial que fraciona alimentos integrais em formulações quimicamente modificadas e combinadas com aditivos, define o estudo. É o oposto da comida que mantém sua estrutura original: em vez de um alimento, você tem uma formulação construída pela indústria.
Para medir o consumo, os pesquisadores usaram a classificação NOVA, um sistema validado e amplamente adotado que separa os alimentos em quatro grupos: não processados ou minimamente processados, ingredientes culinários processados, alimentos processados e ultraprocessados. No estudo, o consumo de cada participante foi estimado por dois recordatórios alimentares de 24 horas, método em que a pessoa relata tudo o que comeu no dia anterior.
O que o estudo encontrou sobre ultraprocessados e câncer de próstata?
Os 17.024 homens foram divididos em quatro grupos (quartis), conforme o percentual de calorias vindas de ultraprocessados: menos de 20,45%; de 20,45% a 31,68%; de 31,68% a 43,87%; e mais de 43,87%. Na média, esse tipo de comida respondia por 32,8% da energia consumida pelo conjunto dos participantes, quase um terço de tudo o que eles comiam.
Comparados ao grupo que menos consumia ultraprocessados, os homens dos três grupos de maior consumo (Q2 a Q4 juntos) tiveram risco relativo 29% maior de câncer de próstata na análise bruta, e 27% após os ajustes. Juntando os dois quartis mais altos (Q3 e Q4), o aumento foi de 30% no modelo bruto e 31% no ajustado. No quartil mais alto, isoladamente, o risco relativo foi de 31% (bruto) e 34% (ajustado), mas esse valor específico não alcançou significância estatística, possivelmente por causa do tamanho menor da amostra.
Os autores usaram intervalos de confiança de 90% e p-valores unilaterais porque a hipótese de dano foi definida antes da análise. Uma observação honesta: esses números são de risco relativo. Na amostra inteira, 599 dos 17.024 homens (3,5%) relataram já ter recebido o diagnóstico de câncer de próstata. Um aumento relativo de 30% não significa que 30 em cada 100 homens terão a doença; significa que o risco de cada um sobe a partir de uma base que, no conjunto, era baixa.
Um alerta que vale para qualquer país
O câncer de próstata não é um problema distante: foi o segundo tipo de câncer mais comum entre homens no mundo, segundo estatísticas globais citadas no artigo, e o mais prevalente entre homens americanos com doença avançada. Idade e genética não dá para escolher; a alimentação, dá.
O estudo não prova que ultraprocessados causam câncer de próstata. Mas ele se soma a um conjunto de evidências que ligam esses produtos a desfechos adversos, como doenças cardiovasculares, tema de um estudo anterior do mesmo grupo, também citado no artigo. Se o consumo de ultraprocessados é um hábito, reduzir a presença deles no prato é uma decisão ao alcance de qualquer pessoa, em qualquer país.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores listam limitações importantes. A primeira é o desenho: os dados são transversais, ou seja, uma fotografia de um momento. Esse tipo de estudo serve para gerar hipóteses, não para testar causa e efeito. A dieta foi autorrelatada, o que pode trazer viés de memória, e o câncer de próstata também foi autorrelatado, sem confirmação em prontuários ou registros de câncer.
Também pode haver erro de classificação dos alimentos mesmo com o sistema NOVA, e fatores não medidos, como história familiar da doença, realização do exame de PSA e sedentarismo, podem ter influenciado os resultados. Os autores optaram por não ajustar para obesidade, diabetes, hipertensão e dislipidemia porque consideram que essas condições são efeitos do consumo de ultraprocessados, e não fatores de confusão.
Por isso, a conclusão do artigo é modesta: os dados indicam que quem consome mais ultraprocessados tem mais risco de câncer de próstata, mas são necessários estudos observacionais de larga escala e ensaios clínicos randomizados para testar a hipótese.
O que fazer com essa informação?
Os autores não recomendam pânico nem prometem que cortar ultraprocessados elimina o risco. Eles recomendam que os profissionais de saúde orientem seus pacientes a adotar mudanças de estilo de vida com benefício comprovado e a limitar o consumo de ultraprocessados. É um conselho de prevenção, não um tratamento.
Para o leitor comum, o recado prático é simples: quanto mais espaço a comida de verdade ocupar no prato, menor a participação das formulações industrializadas, e isso vale para a saúde como um todo, não só para a próstata. Como o estudo não testou intervenções, o conteúdo deste texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Alimentos ultraprocessados aumentam o risco de câncer de próstata?
O estudo observou associação: homens com maior consumo de ultraprocessados tiveram risco relativo até 34% maior de câncer de próstata. Por ser um estudo transversal, ele não prova relação de causa e efeito.
O que são alimentos ultraprocessados?
São produtos criados por processamento industrial que fracionam alimentos integrais em formulações quimicamente modificadas e combinadas com aditivos, segundo a definição usada no estudo.
Quais riscos o consumo de ultraprocessados traz para a saúde?
O estudo cita evidências de associação com vários desfechos adversos, incluindo doenças cardiovasculares, e agora um risco maior de câncer de próstata. Mecanismos possíveis incluem inflamação, estresse oxidativo, perturbação de vias metabólicas e alteração da microbiota intestinal, mas ainda são hipóteses.
Os profissionais de saúde recomendam evitar ultraprocessados?
Os autores do estudo recomendam que profissionais de saúde orientem os pacientes a limitar o consumo de ultraprocessados e a adotar mudanças de estilo de vida e terapias de benefício comprovado.
Fontes
- Scott H, Willett Y, Dunn J, Dye TD, Hennekens CH. Consumption of Ultra-Processed Foods and Increased Risks of Prostate Cancer in a Random Sample of United States Adults. American Journal of Medicine. DOI: 10.1016/j.amjmed.2026.07.043.
- National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), Centers for Disease Control and Prevention — base de dados pública utilizada no estudo.
- Willett Y, Yang C, Dunn J, et al. Consumption of ultra-processed foods and increased risks of cardiovascular disease in US adults. American Journal of Medicine, 2026 — estudo anterior do mesmo grupo citado no artigo.
- Monteiro CA, et al. The UN Decade of Nutrition, the NOVA food classification and the trouble with ultra-processing. Public Health Nutrition, 2018 — referência citada no estudo para a classificação NOVA.
Foto: IA.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





