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Chip no cérebro contra vício em drogas: o que o estudo achou

vício em drogas
Resumo em 15 segundos
  • A técnica já é estabelecida há décadas no controle dos tremores da doença de Parkinson e recebeu aprovação da FDA para epilepsia refratária em 2018.
  • No estudo da WVU, os eletrodos foram implantados bilateralmente no núcleo accumbens / cápsula ventral (NAc/VC).
  • O critério de entrada foi restritivo, e isso importa para interpretar os resultados.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Em novembro de 2019, a Universidade da Virgínia Ocidental (WVU) implantou eletrodos no cérebro de um paciente com dependência de opioides — o primeiro caso do tipo nos Estados Unidos. A pergunta que ficou foi se funcionaria.

A resposta veio publicada: o ensaio completo, com quatro participantes, saiu no Journal of Neurosurgery sob coordenação de Ali R. Rezai e James J. Mahoney III, DOI 10.3171/2023.4.JNS23114.

O resumo honesto do resultado: seguro e viável, com dois pacientes em abstinência completa por mais de três anos e mais de um ano — e, ao mesmo tempo, um estudo sem grupo de controle, que ainda não prova eficácia.

O que é estimulação cerebral profunda

A estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês) consiste em implantar eletrodos finos em regiões específicas do cérebro. Eles são ligados por um fio subcutâneo a um gerador de pulsos, semelhante a um marca-passo, colocado no tórax.

O aparelho emite pulsos elétricos em frequências ajustadas paciente a paciente. A técnica já é estabelecida há décadas no controle dos tremores da doença de Parkinson e recebeu aprovação da FDA para epilepsia refratária em 2018.

Ilustração de eletrodos de estimulação cerebral profunda implantados no cérebro
A estimulação cerebral profunda usa eletrodos implantados ligados a um gerador de pulsos.

O alvo escolhido: núcleo accumbens

No estudo da WVU, os eletrodos foram implantados bilateralmente no núcleo accumbens / cápsula ventral (NAc/VC).

O núcleo accumbens é uma peça central do circuito de recompensa — a região onde sinais de dopamina associam uma ação a uma sensação de ganho. É também onde a dependência química reorganiza esse circuito, tornando o consumo prioritário sobre qualquer outro estímulo.

A hipótese testada é direta: modular eletricamente esse ponto reduziria a intensidade da fissura (craving).

Quem podia participar

O critério de entrada foi restritivo, e isso importa para interpretar os resultados. Não se tratava de uma alternativa a tratamentos convencionais.

Os participantes precisavam ter:

  • Transtorno por uso de opioides de longa data;
  • Histórico de falha em tratamentos baseados em evidência — o quadro chamado de refratário;
  • Frequentemente, outros transtornos por uso de substância associados.

Os resultados do ensaio

Quatro homens foram incluídos. Todos toleraram bem a cirurgia: nenhum evento adverso grave, e nenhum evento adverso relacionado ao dispositivo ou à estimulação. Esse era o desfecho primário — segurança — e ele foi atingido.

Nos desfechos secundários, o quadro foi heterogêneo:

  • Dois participantes mantiveram abstinência completa por mais de 1.150 dias e mais de 520 dias, respectivamente, com reduções significativas de fissura, ansiedade e sintomas depressivos;
  • Um participante voltou a usar drogas, mas com frequência e gravidade reduzidas;
  • Um participante teve o dispositivo explantado por não aderir aos requisitos do tratamento e ao protocolo do estudo.

O achado de imagem

Os participantes passaram por exames de PET com 18FDG, que medem o consumo de glicose pelo tecido cerebral — um marcador indireto de atividade.

O aumento do metabolismo de glicose em regiões frontais apareceu apenas nos participantes que mantiveram abstinência sustentada.

É uma correlação interessante, porque as regiões frontais são as ligadas a controle inibitório e tomada de decisão. Mas com quatro pessoas e sem controle, ela não estabelece direção de causa: o metabolismo pode ter mudado por causa da estimulação, por causa da abstinência prolongada, ou por ambos.

O primeiro paciente, em detalhe

O caso que abriu o programa — um homem no início dos 30 anos, com mais de dez anos de dependência grave e refratária de opioides e benzodiazepínicos — foi descrito separadamente por Mahoney e colegas na Experimental and Clinical Psychopharmacology, DOI 10.1037/pha0000453.

Ele permaneceu abstinente e engajado no tratamento no fim das 12 semanas e também no acompanhamento estendido de 12 meses.

Em uma escala visual analógica de 0 a 100, a fissura por benzodiazepínicos caiu de 53,4 ± 29,5 no início para 1,0 ± 2,2 após a titulação final do estimulador (p < 0,001).

Vale registrar o que o próprio relato deixa claro: o paciente seguiu em tratamento abrangente durante todo o período. O implante não substituiu terapia nem acompanhamento — foi somado a eles.

Por que ainda não é tratamento

Três limitações precisam ser ditas com todas as letras.

Primeiro, o desenho: o ensaio foi aberto, de braço único. Todos sabiam quem recebia o quê, e não houve grupo de comparação. Em transtornos por uso de substância, com forte componente de expectativa e de suporte clínico intensivo, isso é uma fragilidade séria.

Segundo, o tamanho: quatro pessoas. Nenhuma conclusão de eficácia se sustenta nessa amostra.

Terceiro, o risco cirúrgico. Ainda que não tenha havido eventos graves aqui, a DBS envolve neurocirurgia, com riscos de infecção e de posicionamento inadequado dos eletrodos — motivo pelo qual ela nunca é oferecida amplamente.

Os próprios autores concluem que a técnica é segura, viável e potencialmente capaz de reduzir uso, fissura e sintomas emocionais, e anunciam o próximo passo: um ensaio randomizado e com estimulação simulada (sham), em um grupo maior.

O contexto da epidemia de opioides

O artigo abre com o número que justifica o esforço: mais de 107 mil mortes por overdose nos Estados Unidos em 2021, o maior registro da história do país.

E acrescenta o dado que explica a busca por alternativas: mesmo com avanços farmacológicos e comportamentais, mais de 50% das pessoas em tratamento para dependência de opioides voltam a usar.

A Virgínia Ocidental, onde o programa foi conduzido, é o estado com a maior taxa de mortes por opioides do país. O peso clínico do problema aparece também em outras frentes, como a relação entre drogas ilícitas e AVC.

Onde a pesquisa se encaixa

A DBS vem sendo investigada em uma lista crescente de indicações psiquiátricas — depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos por uso de substância —, revisadas por Mahoney e colegas no Journal of the Neurological Sciences, DOI 10.1016/j.jns.2022.120253.

O padrão se repete: resultados promissores em pacientes refratários, amostras pequenas, poucos ensaios controlados. É o mesmo terreno em que avançam as pesquisas sobre interfaces entre eletrônica e neurônios.

A leitura razoável para 2026 é esta: não é ficção científica, e também não é tratamento disponível. É uma linha de pesquisa com resultados iniciais de segurança e um ensaio controlado ainda por vir.

Aviso: este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Dependência química tem tratamento baseado em evidência disponível na rede de saúde. No Brasil, procure um CAPS AD ou uma unidade básica de saúde.

Perguntas frequentes

O chip no cérebro cura o vício em drogas?

Não há prova disso. O ensaio da WVU com quatro pacientes mostrou segurança e viabilidade: dois mantiveram abstinência prolongada, um teve recaídas mais leves e um teve o dispositivo removido. Sem grupo de controle, o estudo não estabelece eficácia.

Quantas pessoas participaram do estudo?

Quatro homens com transtorno por uso de opioides refratário a tratamento, em um estudo prospectivo, aberto e de braço único, publicado no Journal of Neurosurgery.

Onde os eletrodos foram implantados?

Bilateralmente no núcleo accumbens e na cápsula ventral, região central do circuito cerebral de recompensa, envolvida na fissura por substâncias.

Houve efeitos adversos?

Não houve eventos adversos graves, nem eventos relacionados ao dispositivo ou à estimulação. Ainda assim, trata-se de neurocirurgia, com riscos de infecção e de mau posicionamento dos eletrodos.

O tratamento está disponível no Brasil?

Não para dependência química. A estimulação cerebral profunda é usada em indicações estabelecidas, como doença de Parkinson. Para transtornos por uso de substância, segue em fase de pesquisa.

Qual o próximo passo da pesquisa?

Os autores anunciaram um ensaio randomizado com estimulação simulada (sham) em um grupo maior de pacientes — o desenho capaz de testar eficácia, e não apenas segurança.

Fontes

  • Rezai, A. R.; Mahoney, J. J.; Ranjan, M.; Haut, M. W.; Zheng, W.; Lander, L. R. et al. Safety and feasibility clinical trial of nucleus accumbens deep brain stimulation for treatment-refractory opioid use disorder. Journal of Neurosurgery, v. 140, n. 1, p. 231-239, 2024 (publicado on-line em 9 jun. 2023). DOI 10.3171/2023.4.JNS23114. Ver também o registro no PubMed.
  • Mahoney, J. J.; Haut, M. W.; Hodder, S. L.; Zheng, W.; Lander, L. R.; Berry, J. H. et al. Deep brain stimulation of the nucleus accumbens/ventral capsule for severe and intractable opioid and benzodiazepine use disorder. Experimental and Clinical Psychopharmacology, v. 29, n. 2, p. 210-215, abr. 2021. DOI 10.1037/pha0000453.
  • Mahoney, J. J.; Koch-Gallup, N.; Scarisbrick, D. M.; Berry, J. H.; Rezai, A. R. Deep brain stimulation for psychiatric disorders and behavioral/cognitive-related indications: Review of the literature and implications for treatment. Journal of the Neurological Sciences, v. 437, 15 jun. 2022. DOI 10.1016/j.jns.2022.120253.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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