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Vacina de HPV em mulheres adultas confere proteção de 88,7%

Estudo com 3.819 mulheres de 24 a 45 anos confirma eficácia de 88,7% da vacina quadrivalente contra HPV em quem nunca teve o vírus.

Mulher adulta recebendo vacina contra HPV em consultório médico, ilustrando a vacinação em adultos
Mulher adulta recebendo vacina contra HPV em consultório médico, ilustrando a vacinação em adultos

Vacina de HPV em mulheres adultas ainda gera dúvida: será que faz efeito depois da adolescência? Um estudo internacional publicado no British Journal of Cancer acompanhou 3.819 mulheres de 24 a 45 anos por quatro anos e confirmou que a vacina quadrivalente contra HPV reduziu em 88,7% os casos de infecção persistente e lesões relacionadas aos tipos 6, 11, 16 e 18 entre quem nunca teve contato com esses quatro tipos do vírus. O resultado reforça que a proteção não é privilégio apenas de mulheres jovens.

Os números fecham um ensaio clínico de fase III que começou em 2004, com acompanhamento mediano de quatro anos. É a resposta final de um estudo desenhado para medir eficácia, segurança e resposta imunológica da vacina em mulheres adultas, uma faixa etária que, até então, ficava de fora do foco das campanhas.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores de várias instituições, entre elas o Institut Català d’Oncologia (Espanha), o Instituto Nacional de Câncer da Colômbia e a Universidade Mahidol (Tailândia), com financiamento da Merck. Foram 38 centros em sete países: Colômbia, França, Alemanha, Filipinas, Espanha, Tailândia e Estados Unidos. O artigo “End-of-study safety, immunogenicity, and efficacy of quadrivalent HPV (types 6, 11, 16, 18) recombinant vaccine in adult women 24–45 years of age” foi publicado em 31 de maio de 2011, no volume 105 (páginas 28–37) do British Journal of Cancer, com DOI 10.1038/bjc.2011.185.

O que é a vacina quadrivalente contra HPV

HPV é a sigla para papilomavírus humano, um grupo grande de vírus transmitidos pelo contato sexual que podem infectar a pele e as mucosas. Algumas infecções persistem no corpo, e é essa persistência que pode, com o tempo, levar a lesões no colo do útero e, na cadeia de eventos, ao câncer.

Explicando os termos técnicos: CIN (neoplasia intraepitelial cervical) é o nome das lesões precursoras no colo do útero; EGL (lesões genitais externas) inclui verrugas genitais e outras alterações na vulva, na vagina e na região ao redor. A vacina quadrivalente protege contra quatro tipos de HPV: o 6 e o 11, associados a verrugas genitais, e o 16 e o 18, associados ao câncer de colo do útero.

Pense na vacina como um treinamento: ela ensina o sistema imunológico a reconhecer esses quatro tipos antes que eles se instalem. Se o vírus aparecer, o corpo já sabe o que fazer.

Imagem de uma mulher de meia idade tomando vacina contra o HPV. O estudo no texto demonstrou alta eficiência da vacina na prevenção de infecçōes.

O que o estudo encontrou sobre a vacina de HPV em mulheres adultas?

Na análise principal, feita com mulheres que tomaram as três doses e não tinham nenhum sinal de infecção pelos quatro tipos no início do estudo (nem anticorpos, nem DNA viral), a eficácia foi de 88,7%. Em outras palavras: em comparação com o grupo que recebeu placebo, houve 88,7% menos casos de infecção persistente, lesão no colo do útero ou lesão genital externa relacionada aos tipos 6, 11, 16 e 18.

Considerando também mulheres que receberam ao menos uma dose e estavam sem infecção pelo tipo relevante no início, a eficácia foi de 79,9%. Já na análise mais ampla, que incluiu todas as vacinadas, mesmo as que já tinham o vírus no início, o número caiu para 47,2%, o que faz sentido: quem já está infectada não pode ser protegida retroativamente contra aquela infecção.

Por faixa etária, a eficácia foi de 91,3% entre 24 e 34 anos e de 83,8% entre 35 e 45 anos. Contra os tipos 16 e 18, ficou em 84,7%; contra os tipos 6 e 11, em 94,8%. A vacina também reduziu em 97,4% os exames de Papanicolau alterados relacionados aos tipos vacinais, na análise principal.

A vacina contra o HPV protege contra verrugas genitais? Sim. O estudo avaliou as lesões genitais externas associadas aos tipos 6 e 11, que incluem as verrugas genitais, e a eficácia foi alta, de 94,8%.

Quem já teve HPV ainda se beneficia da vacina?

Sim, com uma ressalva importante. As mulheres que tinham anticorpos para algum dos tipos vacinais (sinal de exposição anterior), mas não estavam com infecção ativa (DNA negativo), tiveram eficácia de 66,9%. Na faixa de 35 a 45 anos, esse número chegou a 81,3%; entre 24 e 34 anos, ficou em 27,4%, diferença que não foi estatisticamente significativa.

A leitura dos autores é que essas mulheres ainda podem se beneficiar da vacina, mas a proteção vale principalmente para os tipos de HPV com os quais elas ainda não tiveram contato. Quem já está com infecção ativa não ganha proteção contra aquele tipo específico.

Por que isso importa na América Latina?

A conexão com a América Latina não é de enfeite. O estudo incluiu a Colômbia entre os países participantes, e um dos centros foi o Instituto Nacional de Câncer de Bogotá. Dados colombianos citados pelos autores mostram que o risco de uma mulher ter uma nova infecção cervical em cinco anos era de 42,5% entre 15 e 19 anos, de 30% entre 25 e 29 anos e de 22% entre 30 e 44 anos. Ou seja: o risco diminui com a idade, mas não desaparece.

Os autores também lembram que há um segundo pico de infecção por HPV em mulheres na quarta e quinta décadas de vida, observado em alguns estudos, possivelmente por novas infecções. Não há dados brasileiros neste trabalho; a presença latino-americana vem da Colômbia. Mas a lógica vale para qualquer país onde mulheres adultas seguem se infectando: a proteção não precisa parar aos 26 anos.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores listam as limitações, e elas fazem parte do retrato honesto da pesquisa. Primeiro, as regras de entrada excluíram mulheres com histórico de verrugas genitais ou doença cervical, o que pode ter selecionado um grupo de risco um pouco menor que o da população geral. Segundo, apenas 50% a 70% das infecções por HPV produzem anticorpos detectáveis no sangue; isso significa que o teste inicial pode ter subestimado quantas mulheres já tinham tido contato com o vírus.

Terceiro, o estudo não foi planejado para comprovar eficácia contra lesões de alto grau (CIN 2/3, as mais próximas do câncer). Para esse desfecho, os resultados não alcançaram significância estatística. Além disso, houve um desequilíbrio na randomização: mais mulheres do grupo vacina já tinham infecção no início por tipos de HPV não contidos na vacina (33, 39, 51 e 58). Isso gerou 20 casos de CIN 2/3 no grupo vacinado contra 5 no placebo — 11 deles diagnosticados nos primeiros quatro meses do estudo.

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Sobre segurança: não houve nenhum evento adverso grave relacionado à vacina. No grupo vacinado, as reações mais comuns foram no local da injeção, e algumas mulheres saíram do estudo por reações como hipersensibilidade, urticária, ulceração na boca, inchaço no local da aplicação e edema facial. Houve 7 mortes no grupo vacina e 1 no placebo, por causas variadas (câncer, tuberculose, embolia pulmonar, entre outras) — nenhuma foi considerada pelos investigadores como relacionada à vacinação.

Por que isso importa?

O estudo não diz que mulheres adultas devem se vacinar em massa. Ele diz que, individualmente, muitas podem se beneficiar. Para uma mulher de 30, 35 ou 40 anos que continua sexualmente ativa, o risco de encontrar um tipo novo de HPV não é zero, os dados colombianos mostram isso. E a infecção persistente por tipos carcinogênicos é o caminho conhecido para a vasta maioria dos cânceres de colo do útero.

Os autores são diretos: “as mulheres sexualmente ativas com mais de 26 anos também têm potencial de se beneficiar da vacinação e devem ter a oportunidade de escolher serem vacinadas individualmente”. Os números dão concretude a essa frase: 88,7% de proteção para quem nunca teve contato com os quatro tipos, 66,9% para quem teve exposição anterior sem infecção atual.

Vale lembrar que vacina não substitui exame preventivo. O estudo acompanhou as participantes justamente com exames ginecológicos periódicos, e a decisão de vacinar ou não uma mulher adulta deve ser conversada com um profissional de saúde, considerando histórico e contexto.

Fontes

  • Castellsagué X, Muñoz N, Pitisuttithum P, et al. End-of-study safety, immunogenicity, and efficacy of quadrivalent HPV (types 6, 11, 16, 18) recombinant vaccine in adult women 24–45 years of age. British Journal of Cancer. 2011;105:28–37. DOI: 10.1038/bjc.2011.185
  • Muñoz N, et al. Safety, immunogenicity, and efficacy of quadrivalent HPV (types 6, 11, 16, 18) recombinant vaccine in adult women between 24 and 45 years of age: a randomized, double-blind trial. The Lancet. 2009;373:1921–1922.
  • Garland SM, et al. Quadrivalent vaccine against human papillomavirus to prevent anogenital diseases. New England Journal of Medicine. 2007;356(19):1928–1943.
  • The FUTURE II Study Group. Quadrivalent vaccine against human papillomavirus to prevent high-grade cervical lesions. New England Journal of Medicine. 2007;356(19):1915–1927.
  • Muñoz N, et al. Incidence, duration, and determinants of cervical human papillomavirus infection in a cohort of Colombian women with normal cytological results. Journal of Infectious Diseases. 2004;15(190):2077–2087.

Perguntas frequentes

Mulheres adultas podem tomar a vacina de HPV?

Sim. O estudo foi realizado justamente com mulheres de 24 a 45 anos e mostrou eficácia alta (88,7% na análise principal) e segurança aceitável. Os autores ressaltam, porém, que as campanhas de vacinação em massa priorizam meninas e mulheres jovens, e que a decisão de vacinar uma adulta deve ser individual.

A vacina de HPV funciona em quem já teve contato com o vírus?

Funciona em parte. Entre as mulheres que tinham anticorpos para um dos tipos vacinais no início do estudo, mas não estavam com infecção ativa (DNA negativo), a eficácia foi de 66,9%. A proteção vale principalmente para os tipos com os quais a mulher ainda não teve contato.

Qual a eficácia da vacina de HPV em mulheres acima de 24 anos?

Na análise principal, feita com quem tomou as três doses e não tinha infecção pelos tipos 6, 11, 16 e 18, a eficácia foi de 88,7% contra infecção persistente e lesões relacionadas a esses tipos. Na faixa de 24 a 34 anos, foi de 91,3%; entre 35 e 45 anos, de 83,8%.

A vacina de HPV protege contra verrugas genitais?

Sim. O estudo avaliou as lesões genitais externas relacionadas aos tipos 6 e 11, que são os tipos associados a verrugas genitais, e encontrou eficácia de 94,8% na análise principal.

Quais os efeitos colaterais da vacina de HPV?

Não houve eventos adversos graves relacionados à vacina no estudo. As reações mais frequentes foram no local da injeção. Algumas mulheres interromperam o estudo por reações como urticária, inchaço no local e edema facial; as mortes ocorridas durante o acompanhamento não foram consideradas relacionadas à vacinação.

A vacina de HPV previne o câncer de colo do útero?

O estudo avaliou os elos anteriores da cadeia que leva ao câncer: a infecção persistente por tipos carcinogênicos e as lesões precursoras (CIN). A eficácia foi alta para esses desfechos, mas o estudo não foi planejado para comprovar eficácia estatisticamente significativa contra lesões de alto grau (CIN 2/3).

Foto: SHVETS production no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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