Vacina covid e miocardite: o que diz o novo estudo?
Miocardite é a inflamação do músculo do coração, o miocárdio. Quando o coração inflama, ele pode ter mais dificuldade para bombear sangue. Pericardite, o outro desfecho analisado, é a inflamação do pericárdio, a membrana fina que envolve o órgão.
Os dois problemas são raros, mas entraram no radar depois do surgimento das vacinas de RNA mensageiro contra a covid. Os efeitos colaterais da vacina covid, como a miocardite pós-vacina, foram amplamente noticiados e continuam influenciando a confiança do público e a adesão à vacinação em todo o mundo. O que esse debate raramente mostra é o outro lado: o risco cardíaco da própria infecção.
Na introdução, os autores citam uma meta-análise que resume a diferença de ordem de grandeza: cerca de 19,7 casos de miocardite por milhão de doses de vacina, contra 2,76 casos por 1.000 infecções por SARS-CoV-2. A infecção, mesmo sendo um evento raro, aparece como um risco bem maior.
O que o estudo comparou: infecção vs. vacinação
O estudo é uma coorte retrospectiva, que olhou para prontuários eletrônicos e identificou quem tinha registro de infecção, quem tinha registro de vacinação e quem não tinha nenhum dos dois. Foram 4.072.375 jovens de 16 a 25 anos, com idade média de 20,8 anos. Do total, 45,2% eram do sexo masculino e 54,8% do feminino.
Os grupos ficaram assim: 3.572.000 pessoas sem infecção e sem vacina (87,7%), 248.546 infectados sem vacina (6,1%), 241.152 vacinados sem infecção (5,9%) e 10.677 com imunidade híbrida (0,3%).
Para comparar com justiça, os pesquisadores usaram o pareamento por escore de propensão, que torna os grupos semelhantes em características que poderiam atrapalhar a análise. Também fizeram análises separadas por sexo e usaram modelos de riscos competitivos e regressão de Cox. Os resultados foram consistentes entre as abordagens.
Resultados: números de miocardite, pericardite e mortalidade
O grupo infectado e não vacinado teve a maior incidência acumulada de miocardite: 0,116%. Isso equivale a cerca de 1 caso para cada 862 jovens. É raro, mas o risco relativo é alto.
Depois do pareamento, a infecção por SARS-CoV-2 foi associada a um risco 4,91 vezes maior de miocardite (intervalo de confiança de 95%: 3,11 a 7,77), 1,93 vez maior de pericardite (IC 95%: 1,39 a 2,67) e 1,33 vez maior de mortalidade por todas as causas (IC 95%: 1,04 a 1,71), sempre em comparação com quem não teve infecção.
Na comparação direta entre vacinar e infectar, a vacinação apareceu com risco 85% menor de miocardite, 79% menor de pericardite e 72% menor de mortalidade. A proteção foi consistente entre homens e mulheres.
Para calibrar o efeito, os autores trazem o risco absoluto: a diferença entre vacinados e infectados foi de 0,0354%, ou uma miocardite registrada a menos para cada 2.827 pessoas no grupo vacinado. Em termos relativos, o efeito parece enorme; em termos absolutos, representa poucos casos em uma população de milhões.
O que isso significa para adolescentes e adultos jovens?
Se você é pai, mãe ou jovem nessa faixa etária, a pergunta certa não é apenas “a vacina tem risco?”. É “qual é o risco da vacina comparado ao da doença?”. Este estudo responde com uma comparação direta, no mesmo sistema de saúde e na mesma faixa etária.
Os autores afirmam que os resultados apoiam um perfil benefício-risco favorável à vacinação BNT162b2 em relação à infecção documentada. Isso não significa ignorar a miocardite pós-vacina: ela é rara, mas existe, e merece vigilância. Significa que, na balança dos riscos cardíacos de curto prazo, a infecção pesa mais.
A associação entre SARS-CoV-2 e miocardite é conhecida na literatura, e estudos internacionais citados no artigo, como o da Inglaterra e uma meta-análise recente, apontam na mesma direção. O medo de efeitos colaterais, mesmo muito raros, ainda influencia a vacinação de adolescentes; este estudo coloca o risco da doença na mesma equação.
Limitações e o que ainda não sabemos
O estudo é observacional, e os autores fazem uma ressalva importante: a comparação de mortalidade por todas as causas deve ser interpretada como descritiva, não causal. Ela mostra associação, não prova que a infecção cause diretamente aquelas mortes.
Tudo se baseia em eventos registrados em prontuários eletrônicos. Uma infecção sem teste ou sem registro pode ter ficado de fora, assim como casos leves de miocardite que não procuraram o sistema de saúde. O acompanhamento foi de 6 meses, então o estudo fala de riscos de curto prazo, não de efeitos de longo prazo.
Vale registrar a transparência: um dos autores, Stephen J. Thomas, foi investigador no ensaio clínico de fase 3 da vacina BNT162b2 e atuou em comitês de segurança para fabricantes de vacinas, com remuneração. Os demais autores declararam não ter interesses concorrentes.
Por que isso importa?
A miocardite é um tema em que uma frase fora de contexto pesa mais do que uma montanha de números. Este estudo não apaga o risco raro da vacina, mas reposiciona a conversa: para o coração de um jovem, a infecção por covid é o risco muito maior.
A decisão de vacinar continua sendo individual e deve ser conversada com um profissional de saúde. O que este trabalho oferece é uma base mais honesta para essa conversa, com a comparação que faltava.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Vacina de covid pode causar miocardite?
Sim, miocardite é um efeito colateral raro das vacinas de mRNA. Uma meta-análise citada no estudo estima cerca de 19,7 casos por milhão de doses. No mesmo estudo, a vacinação foi associada a risco 85% menor de miocardite do que a infecção por covid em jovens de 16 a 25 anos.
O que é miocardite pós-vacina?
É a inflamação do músculo do coração registrada depois da vacinação. No estudo, miocardite e pericardite são tratadas como eventos adversos raros que podem ocorrer após vacinas de mRNA, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.
Covid causa miocardite?
Segundo o estudo, a infecção por SARS-CoV-2 foi associada a um risco 4,91 vezes maior de miocardite em comparação com quem não teve infecção registrada. A incidência acumulada no grupo infectado e não vacinado foi de 0,116%.
Qual o risco de miocardite na vacina?
Uma meta-análise citada no artigo estima cerca de 19,7 casos por milhão de doses. No estudo com 4 milhões de jovens, a diferença absoluta entre vacinados e infectados foi de 0,0354%, ou um caso a menos por 2.827 vacinados. Mas quando comparados proporcionalmente, os infectados tiveram um risco muito maior.
Vacina covid protege o coração?
No estudo, vacinar foi associado a risco 85% menor de miocardite, 79% menor de pericardite e 72% menor de mortalidade em comparação com a infecção por covid. Em relação à doença, a vacina aparece como a opção de menor risco cardíaco na faixa de 16 a 25 anos.
Covid ou vacina: o que é pior para o coração?
Na comparação direta do estudo, a infecção por covid foi associada a riscos maiores de miocardite, pericardite e mortalidade do que a vacinação em jovens de 16 a 25 anos. O grupo infectado e não vacinado teve a maior incidência acumulada de miocardite entre os grupos analisados.
Fontes
Toraih E.A., Hussein M.H., Thomas S.J., Aiash H. Cardiac outcomes following SARS-CoV-2 infection versus BNT162b2 vaccination in adolescents and young adults: a cohort study of 4 million individuals. Vaccine. DOI: 10.1016/j.vaccine.2026.129001
Preprint do estudo: DOI 10.2139/ssrn.6036417
Sampri A. et al. Vascular and inflammatory diseases after COVID-19 infection and vaccination in children and young people in England. Lancet Child Adolesc Health, 2025.
Gao J. et al. A systematic review and meta-analysis of the association between SARS-CoV-2 vaccination and myocarditis or pericarditis. Am J Prev Med, 2023.
Witberg G. et al. Myocarditis after Covid-19 vaccination in a large health care organization. N Engl J Med, 2021.
Foto: Maksim Goncharenok no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





