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Dieta cetogênica é a melhor opção para o fígado gorduroso?

Com a mesma perda de peso (~10%), a dieta cetogênica reduziu mais a gordura no fígado e o pré-diabetes do que a mediterrânea e a low-fat, sem elevar o LDL.

Dieta cetogênica para fígado gorduroso: imagem ilustrativa de exame mostrando a redução da gordura no fígado.
Dieta cetogênica para fígado gorduroso: imagem ilustrativa de exame mostrando a redução da gordura no fígado.

A dieta cetogênica para fígado gorduroso acaba de ganhar um respaldo importante: um ensaio clínico randomizado comparou três dietas populares em pessoas com obesidade, pré-diabetes e gordura no fígado. As dietas foram: cetogênica (baixa em carboidratos), mediterrânea e outra baixa em gordura, com foco em vegetais. A perda de peso foi praticamente a mesma nos três grupos, em torno de 10%. Mesmo assim, o fígado respondeu de formas bem diferentes.

Quem seguiu a cetogênica viu a gordura intra-hepática cair 67%. Quem seguiu as outras duas viu uma queda de 45%. A remissão do pré-diabetes também foi muito maior: 50% no grupo cetogênico, contra 29% no mediterrâneo e 7% na de vegetais. E, ao contrário do que muita gente espera de uma dieta rica em gordura, o colesterol LDL, o “ruim”, não aumentou.

Os resultados foram publicados em 27 de agosto de 2026 na revista Cell Metabolism, em acesso aberto, por pesquisadores da Universidade de Washington, em St. Louis (EUA), incluindo Max C. Petersen, Gordon I. Smith, Marc K. Hellerstein e Samuel Klein. O ensaio foi conduzido entre fevereiro de 2016 e abril de 2025 e está registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT02706262. DOI do artigo: https://doi.org/10.1016/j.cmet.2026.07.020.

Dieta cetogênica para fígado gorduroso: como o estudo foi feito?

Esteatose hepática, o tal fígado gorduroso, é o acúmulo de gordura dentro das células do fígado. No estudo, ela foi medida por ressonância magnética e exigia um teor de triglicerídeos intra-hepáticos de pelo menos 5% para o participante entrar no ensaio. No início, os voluntários tinham, em média, entre 17,7% e 19,4% do fígado tomado por gordura, quase um quinto do órgão.

Essa condição faz parte do quadro que os pesquisadores chamam de obesidade metabolicamente não saudável: obesidade (índice de massa corporal entre 30 e 50), pré-diabetes e esteatose hepática. Dos 55 voluntários randomizados, 42 concluíram o estudo e foram analisados, 14 em cada grupo, com idade média de 43 anos e IMC inicial de 38,9. Todos receberam as refeições prontas, congeladas, e se encontravam semanalmente com a nutricionista do estudo. A adesão passou de 95%.

As três dietas eram bem diferentes. Na cetogênica, apenas 4% das calorias vinham de carboidrato (20 g por dia), 73% de gordura (sendo 23% de gordura saturada) e 23% de proteína. Na dieta mediterrânea, 50% das calorias vinham de carboidratos (254 g por dia). Na vegetal, 70% (352 g por dia). A perda de peso ficou entre 10,1% e 10,4%, alcançada entre 4,6 e 5,4 meses de tratamento.

O que a perda de peso com cada dieta mudou no metabolismo

Primeiro, o que foi igual nos três grupos. A massa gorda e a massa magra caíram de forma parecida. A sensibilidade à insulina no músculo, a capacidade do corpo de responder à insulina e usar a glicose aumentaram cerca de 50% em todos os grupos. Perder peso, por si só, já melhora esse aproveitamento da glicose.

A diferença apareceu no fígado. A sensibilidade do fígado à insulina aumentou de duas a três vezes mais no grupo cetogênico do que nos outros dois (p < 0,001). Também caíram mais na cetogênica a produção basal de glicose pelo fígado e a lipogênese de novo, processo em que o fígado fabrica gordura a partir de carboidrato.

Dieta cetogênica reduz a gordura no fígado? Neste estudo, sim, e mais do que as outras: a gordura intra-hepática caiu 67% na cetogênica (de 19,4% para 6,2% do fígado), contra 45% na mediterrânea e 45% na vegetal. Nos exames de sangue, o grupo cetogênico também saiu na frente: a glicemia de jejum foi de 97 para 85 mg/dL; a insulina de jejum, de 27,7 para 13,1 µU/mL; e a hemoglobina glicada, de 5,6% para 5,0%.

Um resultado contraintuitivo: a função das células beta, que produzem insulina, não melhorou em nenhum grupo. Os autores observaram que “descansar” a célula beta por meses com pouco carboidrato não recuperou a função em pessoas com pré-diabetes, ao contrário do que se vê no diabetes tipo 2.

Colesterol e triglicérides: o que os resultados mostraram?

Dieta cetogênica aumenta o colesterol ruim? Não foi o que o estudo viu. O LDL caiu nas três dietas: de 111 para 101 mg/dL na cetogênica, de 125 para 103 na mediterrânea e de 100 para 92 na plant-forward, sem diferença estatística entre os grupos. O mesmo valeu para a apolipoproteína B. Isso chama atenção porque a cetogênica do estudo era rica em gordura saturada: 23% das calorias, ou 52 g de gordura saturada a cada 2.000 kcal, e 749 mg de colesterol ao dia.

Os triglicérides em jejum caíram mais na cetogênica: de 180 para 99 mg/dL, contra 173 para 131 na mediterrânea e 171 para 147 na plant-forward. Mas, ao longo de 24 horas, com as refeições do dia, a queda foi parecida entre os grupos (23%, 23% e 17%), sem diferença estatística. Em jejum, a vantagem foi grande; no dia a dia, o quadro se aproxima.

O HDL, o “bom”, até tendeu a subir no grupo cetogênico e caiu nos outros dois. A pressão arterial tendeu a cair nos três grupos, sem diferença entre dietas. No grupo cetogênico também caíram o PAI-1, ligado à coagulação e inflamação, o TNF-alfa, uma molécula inflamatória, e o 8-isoprostano, um marcador de estresse oxidativo.

O que isso significa para você?

Este estudo não foi feito no Brasil, e não há dados nacionais aqui para comparar. Mas a pergunta que ele responde é universal: na hora de perder peso, a escolha entre proteína, gordura e carboidrato muda apenas o número na balança, ou muda a saúde? A resposta é que muda, principalmente no fígado.

Isso tem peso direto para quem convive com esteatose hepática e pré-diabetes, condições que andam juntas com a obesidade e aumentam o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. A mensagem prática do estudo não é “todos devem adotar a cetogênica”, mas sim que, com a mesma perda de peso, a composição da dieta pode acelerar a recuperação metabólica.

O que o estudo ainda não explica?

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Os próprios autores listam as limitações. A amostra era pequena: 42 participantes, 14 por grupo. Isso significa que algumas diferenças entre as dietas podem ter passado despercebidas por falta de poder estatístico.

Eles também não sabem se uma redução de carboidrato menos severa, sem cetose, teria os mesmos efeitos. E não dá para responder se os benefícios no fígado exigem que a dieta cetogênica seja feita durante a perda de peso, ou se os mesmos efeitos apareceriam se a dieta fosse adotada só depois, na manutenção do peso.

Por que isso importa?

O estudo não diz que a dieta cetogênica é superior para todo mundo, em qualquer situação. Ele mostra que, em pessoas com obesidade metabolicamente não saudável, a cetogênica potencializou os benefícios da perda de peso no fígado e no controle da glicose, sem prejudicar o colesterol.

Em outras palavras: os quilos perdidos importam, e o que se come durante a perda também. Se o peso é a quantidade, a dieta é parte da qualidade da recuperação.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Quem tem pré-diabetes ou gordura no fígado deve conversar com médico e nutricionista antes de mudar o padrão alimentar.

Fontes

  • Petersen MC, Smith GI, Farabi SS, Hellerstein MK, Patterson BW, Klein S. Effect of diet macronutrient content on the cardiometabolic response to weight loss: A randomized clinical trial. Cell Metabolism, publicação online em 27 de agosto de 2026. Acesso aberto.
  • Registro do ensaio clínico no ClinicalTrials.gov (NCT02706262).
  • Dados individuais (Data S1) e material complementar (Tabelas S1-S5, Figuras S1-S2) disponibilizados pelos autores no artigo.

Perguntas frequentes

Dieta cetogênica reduz a gordura no fígado?

Sim. No estudo, com cerca de 10% de perda de peso, a dieta cetogênica reduziu a gordura intra-hepática em 67%, contra 45% na mediterrânea e 45% na dieta muito baixa em gordura.

Qual é a melhor dieta para fígado gorduroso?

Entre as três dietas testadas (cetogênica, mediterrânea e low-fat plant-forward), a cetogênica trouxe os maiores benefícios ao fígado com a mesma perda de peso. O estudo não avaliou outras dietas, então não é possível afirmar que ela é a melhor em qualquer contexto.

Dieta cetogênica aumenta o colesterol ruim?

Não foi o que o estudo observou: o colesterol LDL caiu nas três dietas, sem diferença estatística entre elas, mesmo com a cetogênica tendo 23% das calorias vindas de gordura saturada.

Como reverter o pré-diabetes com dieta?

No estudo, a combinação de cerca de 10% de perda de peso com dieta cetogênica reverteu o pré-diabetes em 50% dos participantes, contra 29% na mediterrânea e 7% na dieta low-fat plant-forward.

O que é esteatose hepática?

É o acúmulo de gordura dentro das células do fígado, conhecido popularmente como fígado gorduroso. No estudo, a condição foi detectada por ressonância magnética quando o teor de triglicerídeos no fígado era de pelo menos 5%.

Foto: https://kaboompics.com/ no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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