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Vício em pornografia: o que a ciência liga à moral, não ao uso

vício em pornografia
Resumo em 15 segundos
  • Quem se descreve como viciado em pornografia costuma não consumir mais do que a média.
  • Já a religiosidade e a reprovação moral aparecem consistentemente associadas tanto à experiência de incongruência quanto ao relato de problemas.
  • Os resultados são mais específicos do que a divulgação costuma indicar.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Quem se descreve como viciado em pornografia costuma não consumir mais do que a média. O que distingue esse grupo é outra coisa: a desaprovação moral do próprio comportamento.

A proposta é de Joshua B. Grubbs, Samuel L. Perry, Joshua A. Wilt e Rory C. Reid, em revisão sistemática com meta-análise publicada nos Archives of Sexual Behavior em 2019 (on-line em agosto de 2018), DOI 10.1007/s10508-018-1248-x.

Os autores chamam o fenômeno de PPMI — problemas com pornografia devidos à incongruência moral (pornography problems due to moral incongruence).

O que é incongruência moral

O conceito é simples e não tem nada de específico da pornografia: incongruência moral é a experiência de agir de forma inconsistente com aquilo em que se acredita.

Aplicado a este caso: a pessoa considera assistir pornografia sempre errado — e assiste mesmo assim.

O modelo dos autores sustenta que, em muitos casos, os problemas relatados — especialmente a sensação de estar viciado — são mais bem explicados por essa discrepância entre crença e comportamento do que por um padrão de consumo compatível com dependência.

A assimetria que dá força ao argumento

O ponto empírico central é uma dissociação entre duas coisas que se supunha andarem juntas.

De um lado, é preciso algum uso habitual para que a pessoa relate problemas — ninguém se sente viciado no que não faz. De outro, os autores observam que a associação entre problemas autorrelatados e volume de consumo é fraca: quem se descreve como viciado não é, sistematicamente, quem consome mais.

Já a religiosidade e a reprovação moral aparecem consistentemente associadas tanto à experiência de incongruência quanto ao relato de problemas.

A leitura dos autores: uma parte relevante do que se chama de “vício em pornografia” é sofrimento real — mas cuja origem está no conflito de valores, não na quantidade consumida.

O estudo longitudinal sobre depressão

Um dos trabalhos que sustentam o modelo é de Samuel L. Perry, publicado na Society and Mental Health, DOI 10.1177/2156869317728373, com dados de um painel representativo de adultos norte-americanos.

Os resultados são mais específicos do que a divulgação costuma indicar. Vale a precisão:

  • O efeito apareceu em homens, e não em mulheres;
  • Homens que consideram a pornografia sempre imoral e assistem mesmo assim relataram mais sintomas depressivos que os demais;
  • Para esses homens, o consumo previu sintomas depressivos já em baixas frequências — compatível com estresse cognitivo ou dissonância;
  • Para quem não reprova moralmente, só o consumo em frequências muito altas se associou a sintomas — e aí a relação parece ser inversa: homens deprimidos usando pornografia como forma de lidar com o estado.

Uma relação de mão dupla

Esse último ponto merece destaque, porque inverte a narrativa habitual.

A análise indica que a relação entre pornografia e sintomas depressivos é bidirecional, e que a direção depende da avaliação moral do próprio usuário.

Onde há reprovação, o consumo tende a preceder o sofrimento. Onde não há, o sofrimento tende a preceder o consumo. Tratar as duas situações como o mesmo quadro clínico é, segundo esta linha de pesquisa, um erro de diagnóstico — algo que também se discute em torno do vício em smartphone.

O que a classificação oficial diz

Existe um diagnóstico reconhecido para comportamento sexual fora de controle: o Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (CSBD), incluído na CID-11 da Organização Mundial da Saúde e descrito por Shane W. Kraus, Richard B. Krueger, Peer Briken e colegas na World Psychiatry, DOI 10.1002/wps.20499.

Dois detalhes importam. Primeiro: o CSBD foi classificado entre os transtornos do controle dos impulsos — e não entre os transtornos por uso de substâncias ou comportamentos aditivos. A CID-11 deliberadamente não o enquadra como um vício no sentido em que se fala de dependência química.

Segundo: os critérios exigem sofrimento e prejuízo funcional que não decorram apenas de julgamento moral. Sofrimento causado exclusivamente por reprovação social ou religiosa não basta para o diagnóstico — exatamente a distinção que o modelo PPMI pede.

A controvérsia é real e vale registrar

Este não é um consenso estabelecido. O próprio artigo de Grubbs e colegas abre reconhecendo que a comunidade de saúde mental está dividida quanto à natureza aditiva ou não do uso de pornografia na internet.

A edição em que o trabalho saiu publicou oito comentários de pares em resposta, além da réplica dos autores, DOI 10.1007/s10508-019-1406-9 — todos listados no registro no PubMed.

As críticas seguem linhas diferentes. Marie-Pier Vaillancourt-Morel e Sophie Bergeron, por exemplo, argumentam que o uso problemático autopercebido vai além de diferenças individuais e religiosidade, DOI 10.1007/s10508-018-1292-6.

Traduzindo: ninguém sustenta que a incongruência moral explique todos os casos. O que está em disputa é que fração ela explica — e o que sobra depois dela.

O que muda na prática clínica

A implicação prática do modelo é de triagem: distinguir quem tem um padrão de comportamento sexual compulsivo de quem tem sofrimento gerado por conflito de valores.

São situações diferentes, e o tratamento adequado a uma não serve à outra. Reforçar a ideia de “vício” em alguém cujo problema é vergonha tende a agravar o quadro, não a resolvê-lo.

Há evidência de tratamento para o uso problemático. James M. Crosby e Michael P. Twohig testaram um protocolo de Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) em 12 sessões individuais contra lista de espera, na revista Behavior Therapy, DOI 10.1016/j.beth.2016.02.001.

O resultado foi expressivo — redução de 93% no consumo no grupo ACT contra 21% na lista de espera — mas a ressalva é igualmente importante: eram 28 homens adultos, todos menos um membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. É um ensaio pequeno, em população muito específica, e não se generaliza sem cuidado.

Como interpretar isso sem distorcer

Três leituras erradas circulam com frequência, e vale desfazê-las.

“O estudo diz que religião faz mal.” Não diz. A religiosidade entra como correlato da reprovação moral, não como causa de dano. O mecanismo proposto é a discrepância entre crença e comportamento — que existiria igualmente em qualquer conjunto de valores firmes contrariado pela própria conduta.

“O estudo diz que vício em pornografia não existe.” Também não. Existe um diagnóstico na CID-11, e há pessoas que preenchem seus critérios. O argumento é sobre quantos dos que se dizem viciados de fato se enquadram ali.

“Isso invalida o sofrimento de quem se queixa.” Ao contrário — o modelo trata esse sofrimento como real, inclusive com associação a sintomas de depressão. O que ele questiona é o rótulo, porque o rótulo errado leva ao tratamento errado.

Aviso: este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Se o uso de pornografia está causando sofrimento ou prejuízo na sua vida, procure um psicólogo ou psiquiatra.

Perguntas frequentes

Vício em pornografia existe?

A CID-11 reconhece o Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo, mas o classifica entre os transtornos do controle dos impulsos, e não como dependência. A pesquisa em discussão questiona quantos dos que se dizem viciados preenchem esses critérios.

O que é incongruência moral na pornografia?

É a experiência de considerar o comportamento errado e praticá-lo mesmo assim. Segundo o modelo PPMI, essa discrepância entre crença e conduta explica boa parte dos problemas relatados com pornografia.

Quem se diz viciado assiste mais pornografia?

Não sistematicamente. Os autores apontam associação fraca entre problemas autorrelatados e volume de consumo, enquanto religiosidade e reprovação moral aparecem consistentemente associadas ao relato de problemas.

Pornografia causa depressão?

O estudo de Perry indica relação bidirecional e dependente da avaliação moral: em homens que reprovam moralmente, o consumo precedeu sintomas depressivos mesmo em baixa frequência; entre os que não reprovam, os sintomas pareceram preceder o consumo elevado. O efeito apareceu em homens, não em mulheres.

A pesquisa diz que a religião é a culpada?

Não. A religiosidade entra como correlato da reprovação moral, não como causa de dano. O mecanismo proposto é o conflito entre a crença e o próprio comportamento.

Existe tratamento eficaz?

Um ensaio randomizado com Terapia de Aceitação e Compromisso mostrou redução de 93% no consumo contra 21% na lista de espera. Mas foram 28 homens, quase todos de uma mesma denominação religiosa — resultado promissor e de generalização limitada.

Fontes

  • Grubbs, J. B.; Perry, S. L.; Wilt, J. A.; Reid, R. C. Pornography Problems Due to Moral Incongruence: An Integrative Model with a Systematic Review and Meta-Analysis. Archives of Sexual Behavior, v. 48, n. 2, p. 397-415, fev. 2019 (on-line em 3 ago. 2018). DOI 10.1007/s10508-018-1248-x.
  • Grubbs, J. B.; Perry, S. L. Moral Incongruence and Pornography Use: A Critical Review and Integration. The Journal of Sex Research, 7 fev. 2018. DOI 10.1080/00224499.2018.1427204.
  • Perry, S. L. Pornography Use and Depressive Symptoms: Examining the Role of Moral Incongruence. Society and Mental Health, set. 2017. DOI 10.1177/2156869317728373.
  • Kraus, S. W.; Krueger, R. B.; Briken, P.; First, M. B.; Stein, D. J. et al. Compulsive sexual behaviour disorder in the ICD-11. World Psychiatry, 19 jan. 2018. DOI 10.1002/wps.20499.
  • Crosby, J. M.; Twohig, M. P. Acceptance and Commitment Therapy for Problematic Internet Pornography Use: A Randomized Trial. Behavior Therapy, v. 47, n. 3, p. 355-366, maio 2016. DOI 10.1016/j.beth.2016.02.001.
  • Vaillancourt-Morel, M.-P.; Bergeron, S. Self-Perceived Problematic Pornography Use: Beyond Individual Differences and Religiosity. Archives of Sexual Behavior, 2019. DOI 10.1007/s10508-018-1292-6.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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