Você consegue imaginar uma rede social que, de uma hora para outra, corta quase toda a desinformação do seu feed? Durante a eleição presidencial americana de 2020, um grupo de pesquisadores estudou exatamente isso — e o resultado desafia uma ideia bastante difundida. Mesmo com a exposição a conteúdo de fontes não confiáveis (no Facebook e Instagram) reduzida em 70%, as crenças políticas e as atitudes das pessoas não mudaram nada.
O estudo, publicado na revista Science Advances em julho de 2026, é um dos maiores já feitos com acesso direto aos dados internos da Meta. Ele mostra que o problema da desinformação online é mais concentrado, e mais resistente a intervenções simples, do que a gente costuma imaginar.
Ficha do estudo: O trabalho foi liderado por Olivier Bergeron-Boutin, doutorando em ciência política na UC Berkeley, ao lado de Brendan Nyhan (Dartmouth College), Jaime Settle (College of William & Mary), Emily Thorson (Syracuse University) e Magdalena Wojcieszak (UC Davis). A pesquisa saiu na Science Advances em 31 de julho de 2026, com DOI 10.1126/sciadv.adz6502. A equipe acadêmica atuou em parceria com pesquisadores da Meta.
O que são fontes não confiáveis? Como o experimento as isolou?
Quando o estudo fala em “fontes não confiáveis”, está se referindo a páginas, grupos e domínios no Facebook, além de contas públicas no Instagram, que publicam repetidamente informações falsas ou enganosas. Não é um palpite: a classificação se baseava no sistema de checagem de fatos que a Meta mantinha na época, com selos de verificação e “strikes” para conteúdos problemáticos.
A partir dessa lista, os pesquisadores criaram um filtro que barrava ou reduzia drasticamente a aparição desses conteúdos no feed de pessoas que aceitaram participar do experimento. A pergunta era simples: se a gente limpar o feed, as crenças mudam?
Exposição concentrada: 23% dos usuários concentraram 80% do conteúdo
Antes de testar o filtro, a equipe mediu como a exposição às fontes não confiáveis se distribuía na plataforma. O que eles viram não combina com a imagem de um problema universal. A maioria dos usuários encontrava muito pouco desse tipo de material em seu dia a dia.
A concentração chamou atenção: no Facebook, 23% dos usuários foram responsáveis por cerca de 80% de toda a exposição a fontes não confiáveis. No Instagram, o número era ainda mais extremo — apenas 11% dos usuários concentravam os mesmos 80%. É como se uma minoria ruidosa estivesse mergulhada nesse conteúdo, enquanto a maior parte da população mal encostava nele.
Brendan Nyhan, coautor e professor de governo em Dartmouth, resumiu assim:
“A exposição a conteúdo de fontes não confiáveis nas redes sociais é menos comum e mais concentrada do que as pessoas costumam pensar.”
A queda de 70% que não moveu o ponteiro das crenças
Durante três meses ao redor da eleição de 2020, os participantes que entraram no grupo de intervenção tiveram o feed alterado para cortar cerca de 70% do conteúdo vindo das tais fontes não confiáveis. Foi uma redução expressiva e, pelo lado técnico, a intervenção cumpriu exatamente o que se propôs.
Só que, quando os pesquisadores mediram um conjunto de resultados predefinidos (atitudes políticas, crenças, percepções sobre instituições), não encontraram efeito mensurável. Nenhum. Nem no grupo geral, nem entre aqueles que antes da intervenção já estavam entre os mais expostos à desinformação. “As mudanças de atitude resultantes foram muito menores do que alguns esperariam”, disse Bergeron-Boutin.
Por que as atitudes não mudaram? A conversa não acontece só no feed
Se a desinformação sumiu do feed e as crenças continuaram iguais, de onde vem a resistência? O estudo não crava uma resposta definitiva, mas os autores e especialistas que comentaram os resultados apontam para o que existe fora da plataforma.
Tim Tangherlini, especialista em rumores e teorias da conspiração na UC Berkeley (que não participou do experimento), comparou a mudança de crenças profundas a manobrar um grande petroleiro: pequenas correções podem alterar a direção, mas mudanças significativas levam tempo. “Uma intervenção na plataforma muda o que entra na rede”, explicou, “mas não muda a rede social subjacente, nem as crenças compartilhadas nessa rede.”
A ideia é que a exposição a informações duvidosas é só uma peça de um quebra-cabeça maior, que inclui círculos sociais, conversas fora da internet e convicções já estabelecidas. Diminuir o fluxo dentro da plataforma não dissolve esses laços — pelo menos não em três meses.
O que o estudo ainda não explica? O que mudou desde 2020?
Os próprios autores fazem questão de enumerar as limitações. A principal é temporal e contextual: os dados são de 2020, uma eleição específica, num ecossistema digital que já se transformou bastante. Em 2025, a Meta encerrou seu programa de checagem de fatos nos EUA, justamente o sistema que tornava possível a classificação de fontes usada no experimento. O que vale para o Facebook de 2020 pode não valer para o de hoje.
Além disso, o estudo mediu atitudes e crenças no curto prazo. Efeitos de mais longo prazo — ou outros tipos de dano que a desinformação pode causar — não entraram na régua.
Outro ponto crucial: o acesso a dados de plataformas como essa é cada vez mais raro. “Um estudo assim está se tornando cada vez menos provável de acontecer de novo”, alertou Bergeron-Boutin, “porque desde 2020 essas plataformas se tornaram menos transparentes.”
Por que isso importa para além das eleições americanas?
A pesquisa não resolve o problema da desinformação — e seus autores não fingem que resolve. Mas ela desloca o foco para onde a discussão talvez devesse estar: na concentração do problema em poucos usuários e na complexidade de mudar crenças com intervenções pontuais.
Nyhan sugere que, em vez de tratar a desinformação como uma ameaça uniforme que atinge todo mundo igual, faz mais sentido olhar para quem consome grandes volumes de conteúdo duvidoso e para os efeitos específicos que isso pode gerar nessas pessoas. O usuário médio, pouco interessado em política, talvez nunca tenha estado no olho do furacão.
O que o experimento deixa claro é que apertar um botão técnico — por mais eficaz que ele seja — não dissolve o caldo cultural e social onde as crenças se formam. Combater a desinformação continua sendo uma tarefa longa, que envolve muito mais do que o algoritmo.
Perguntas frequentes
Reduzir desinformação no Facebook muda crenças políticas?
Não, de acordo com o experimento publicado na Science Advances. Mesmo com uma redução de aproximadamente 70% na exposição a fontes não confiáveis, as crenças e atitudes políticas dos participantes não se alteraram de forma mensurável.
Quem mais vê conteúdo de fontes não confiáveis no Instagram e Facebook?
A exposição é altamente concentrada. No Facebook, 23% dos usuários concentravam 80% da exposição a esse tipo de conteúdo; no Instagram, apenas 11% concentravam os mesmos 80%. A maioria dos usuários via muito pouco material de fontes não confiáveis em seus feeds.
Por que diminuir a desinformação não alterou atitudes no estudo?
Os autores e especialistas sugerem que as crenças políticas não dependem só do que as pessoas veem nas redes sociais — elas são moldadas também por comunidades, conversas fora da internet e convicções anteriores. Cortar o conteúdo duvidoso no feed não dissolve esses fatores sociais mais profundos em apenas três meses.
Como foi o experimento da Meta que reduziu fake news em 2020?
Pesquisadores acadêmicos em parceria com a Meta alteraram o feed de usuários voluntários no Facebook e no Instagram durante três meses ao redor da eleição americana de 2020. A intervenção reduziu em aproximadamente 70% a exposição a conteúdo de fontes que repetidamente publicavam desinformação. Os efeitos sobre crenças e atitudes foram então medidos e comparados com um grupo de controle.
Fontes
- Science Advances — “Untrustworthy sources on Facebook and Instagram in 2020: Concentrated exposure but no attitudinal effects”, Olivier Bergeron-Boutin et al., DOI 10.1126/sciadv.adz6502
- University of California – Berkeley / Phys.org — “Does misinformation on Facebook and Instagram change what you believe?” (30 de julho de 2026)
- Comentários de Tim Tangherlini (UC Berkeley) e declarações dos autores Olivier Bergeron-Boutin e Brendan Nyhan, conforme publicados no release da UC Berkeley via Phys.org
Foto: Luis Quintero no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





