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Descoberto o primeiro câncer transmissível em peixes

Células de melanoma se comportam como parasitas e saltam de um bagre-pardo para outro no Lago Memphremagog (EUA/Canadá) — o primeiro câncer transmissível já registrado em peixes e em água doce, segundo estudo publicado na Nature.

Peixe bagre-pardo com lesões escuras de melanoma no Lago Memphremagog, nos EUA, onde foi descoberto o primeiro câncer transmissível em peixes.
Peixe bagre-pardo com lesões escuras de melanoma no Lago Memphremagog, nos EUA, onde foi descoberto o primeiro câncer transmissível em peixes.

Imagine um câncer que não surge dentro de você, mas chega de fora, como uma infecção. Não é vírus, não é bactéria. São as próprias células cancerosas de outro animal que se instalam no seu corpo. Elas se multiplicam e formam tumores malignos. Parece enredo de ficção científica, mas é exatamente isso que uma equipe de pesquisadores acaba de confirmar em bagres-pardos de um lago que abastece mais de 175 mil pessoas na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá.

Em um estudo publicado na revista Nature em 22 de julho de 2026, cientistas liderados por Emily E. Curd e Samuel F. M. Hart, da Universidade de Vermont, mostram que os melanomas que afetam esses peixes não são tumores comuns: formam uma linhagem clonal de células cancerosas que passam de um indivíduo para outro. É o quarto tipo de câncer transmissível já documentado na natureza, o primeiro em vertebrados aquáticos e o primeiro encontrado em água doce.

Ficha do estudo: A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade de Vermont, da Universidade de Washington e do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont, com participação do Serviço Geológico dos EUA. Publicada em 22 de julho de 2026 na revista Nature, sob o título “Brown bullhead catfish melanoma represents a novel transmissible cancer”. DOI: 10.1038/s41586-026-10828-6.

O que é um câncer transmissível?

Um câncer transmissível começa como um tumor comum em um único animal, o “fundador”. Mas, em vez de ficar restrito àquele organismo, as células cancerosas desenvolvem a capacidade de se desprender, viajar para outro hospedeiro e enxertar ali. O agente infeccioso não é um microrganismo: são as próprias células do tumor. Cada novo caso é, na prática, um clone do tumor original.

Até agora, a ciência só havia confirmado esse fenômeno em três grupos de animais: cães (que transmitem um tumor venéreo por via sexual, uma linhagem que surgiu há milhares de anos e costuma regredir sozinha), diabos-da-tasmânia (que espalham um tumor facial letal por mordidas, colocando a espécie em risco de extinção) e várias espécies de bivalves, como moluscos e mexilhões, nos quais uma leucemia transmissível já surgiu independentemente pelo menos dez vezes e pode até saltar entre espécies diferentes.

Agora, os peixes entram nessa lista. E o caso dos bagres-pardos tem uma peculiaridade geográfica importante: ele acontece em um lago de água doce que serve como fonte de água potável para mais de 175 mil pessoas — o Lago Memphremagog, dividido entre Vermont (EUA) e Quebec (Canadá).

A descoberta no Lago Memphremagog: bagres com melanoma

Desde 2012, pescadores e biólogos vinham notando algo estranho nos bagres-pardos (Ameiurus nebulosus) do Lago Memphremagog: uma proporção anormalmente alta de peixes exibia lesões negras salientes na pele. Um estudo anterior analisou essas lesões por histopatologia e confirmou que se tratavam de melanomas malignos — e que eles afetavam de 23% a 37% dos bagres amostrados entre 2014 e 2017. Em outros corpos d’água da América do Norte, melanomas até apareciam, mas com frequência muito menor.

O que estaria por trás da epidemia? A suspeita inicial recaía sobre um contaminante ambiental — talvez agrotóxicos ou poluentes trazidos pela enchente causada pela tempestade tropical Irene em 2011, que degradou a qualidade da água. Outra possibilidade era um agente infeccioso convencional, como um vírus oncogênico. Mas as análises microbiológicas não encontraram nenhum microrganismo consistentemente associado aos tumores. Foi quando os pesquisadores começaram a considerar uma hipótese mais radical: e se o agente transmissor fossem as próprias células do melanoma?

Tumores são clones: a assinatura genômica que entregou o jogo

A marca registrada de um câncer transmissível é que os genomas dos tumores são mais parecidos entre si do que com os genomas dos hospedeiros em que estão crescendo. É como se, em vez de cada peixe desenvolver seu próprio tumor independente, todos compartilhassem um único tumor que foi “passando de mão em mão”.

Para testar essa hipótese, a equipe sequenciou o genoma completo de 19 pares de tecido tumoral e tecido normal (pele ou cérebro) de bagres-pardos do Lago Memphremagog, além de amostras de peixes saudáveis de referência vindos de Vermont, New Hampshire, Maine e de uma lagoa chamada Ticklenaked Pond. Os resultados foram cristalinos.

A análise do DNA mitocondrial revelou que todas as amostras de tumor continham uma população adicional de mitocôndrias — de 32 a 37 variantes genéticas que não estavam nos tecidos saudáveis do mesmo peixe. Essas variantes tumorais formavam um grupo monofilético na árvore filogenética, ou seja: todas descendiam de um ancestral comum. Não importava se o peixe havia sido coletado em 2015, 2019 ou 2023 — a assinatura genética do tumor era a mesma. A linhagem cancerosa é mais antiga que 2015.

No DNA nuclear, o quadro se repetiu com números impressionantes. Os cientistas identificaram nada menos que 245.189 sítios de variantes genéticas que apareciam apenas nos tumores — contra 61.699 variantes exclusivas dos tecidos normais. A diferença crucial estava na distribuição: 59% das variantes tumorais eram compartilhadas por pelo menos 14 dos 16 peixes analisados, enquanto 83,4% das variantes normais apareciam em um único indivíduo.

Para efeito de comparação, a equipe analisou dados de 463 melanomas humanos do banco público The Cancer Genome Atlas (TCGA). Em humanos, 94% das mutações são únicas de um único câncer, e apenas 0,008% são compartilhadas por dez ou mais tumores. Nenhuma mutação apareceu em todos os tumores. Já nos bagres, a maioria das variantes tumorais estava presente na maioria dos peixes — um nível de compartilhamento que foge completamente do esperado para cânceres convencionais.

As variações estruturais do genoma (grandes deleções, duplicações, inserções e inversões) e os perfis de número de cópias também confirmaram o padrão clonal: os tumores compartilhavam a maior parte dessas alterações entre si (correlação de Pearson média de 0,83), mas quase nada com os tecidos saudáveis do mesmo peixe (correlação média de 0,22).

Como o câncer passa de um peixe para outro?

Essa é a pergunta que o estudo ainda não consegue responder com certeza. Os pesquisadores levantam hipóteses baseadas na biologia do bagre-pardo e no que se sabe sobre outros cânceres transmissíveis.

O melanoma transmissível ainda não foi documentado em peixes abaixo da idade reprodutiva, o que pode significar duas coisas: ou há um longo período de latência antes de o tumor se tornar visível, ou a reprodução tem algum papel na transmissão. Bagres-pardos se aglomeram em áreas pequenas durante a desova, com bastante contato físico entre os indivíduos, o que oferece oportunidade para a transferência direta de células cancerosas.

Mas a água também pode servir de veículo. Os bagres não têm escamas e são peixes bentônicos — vivem no fundo do lago, em contato com o sedimento. Células tumorais liberadas na água poderiam se depositar ali e, mais tarde, se enxertar em outro peixe através das brânquias, da pele ou da boca. Essa via indireta já foi documentada em cânceres transmissíveis de bivalves marinhos.

Outro fator possível é a imunidade. Os hormônios reprodutivos modulam o sistema imune dos peixes. Durante a desova, os bagres poderiam ficar mais vulneráveis à invasão de células tumorais alheias — uma janela imunológica que o câncer explora. Essa parte, porém, ainda é especulação; os autores do estudo enfatizam que o mecanismo exato de transmissão permanece desconhecido.

O que os dados mostram de concreto é que a velocidade de propagação foi alta: o melanoma saltou de níveis insignificantes para infectar cerca de 30% dos peixes do lago em 2015, apenas três anos depois dos primeiros relatos notáveis, em 2012.

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O que o estudo não explicou?

Os próprios autores são cuidadosos ao listar as limitações. Primeiro, a idade e a origem geográfica da linhagem cancerosa são desconhecidas. A análise filogenética sugere que o tumor se originou fora do Lago Memphremagog, possivelmente em populações de New Hampshire ou Maine, mas isso ainda precisa ser confirmado com amostragens mais amplas.

Não se sabe qual é o impacto real sobre a população de bagres-pardos. Diferentes cânceres transmissíveis têm desfechos populacionais radicalmente distintos: o tumor facial dos diabos-da-tasmânia é quase sempre letal e já causou um declínio de 90% na população da espécie; o tumor venéreo canino costuma regredir espontaneamente; e os bivalves persistem apesar da ampla disseminação do câncer. Para os bagres, a letalidade e a dinâmica populacional ainda são uma incógnita.

Também não se sabe se a linhagem já existe em outros corpos d’água. Há relatos de melanomas em bagres-pardos que datam de mais de um século atrás — um pesquisador em Massachusetts, nos anos 1920, chegou a induzir pequenos tumores em peixes ingênuos por contato com células tumorais, mas sem conseguir identificar o agente. Esses casos históricos podem representar a mesma linhagem, linhagens transmissíveis independentes ou simplesmente cânceres convencionais. Só novas coletas e uma estimativa de relógio molecular (para datar a origem do tumor) poderão esclarecer.

E há uma pergunta que inquieta: outros peixes podem ter cânceres transmissíveis? Os autores mencionam que lesões melanísticas já foram registradas em espécies como o coral-trout e o smallmouth bass sem causa conhecida. Diante da confirmação no bagre-pardo, testar a clonalidade desses casos pode revelar que o fenômeno é mais comum do que se imaginava.

Por que saber sobre câncer transmissível importa?

Cada novo exemplo de câncer transmissível desafia a fronteira que a gente aprendeu a traçar entre doenças infecciosas e doenças não infecciosas. Aqui, uma célula que sofreu mutação em um peixe fundador, décadas ou séculos atrás, virou uma linhagem parasitária que continua se espalhando. É câncer, mas se comporta como epidemia.

Do ponto de vista ecológico, a descoberta acende um alerta: se o melanoma transmissível reduzir drasticamente a população de bagres-pardos, os efeitos podem se propagar pela cadeia alimentar do Lago Memphremagog — um ecossistema que já está sob pressão e que é fonte de água para milhares de pessoas. Do ponto de vista científico, entender como essas células burlam o sistema imune de hospedeiros geneticamente diferentes pode trazer pistas sobre a biologia do câncer em geral — inclusive o humano.

E fica a lição maior: a natureza ainda guarda fenômenos que desafiam tudo o que a gente acha que sabe sobre as regras da vida. Desta vez, a surpresa veio na pele escura de um peixe de fundo de lago.

Fontes

Perguntas frequentes

O que é câncer transmissível?

É um tipo raro de câncer em que as próprias células tumorais se espalham entre indivíduos, funcionando como um agente infeccioso — ao contrário dos cânceres comuns, que surgem por mutações nas células do próprio organismo e não são contagiosos.

Câncer pode ser contagioso entre animais?

Sim, em casos muito específicos. Cães transmitem um tumor venéreo por via sexual; diabos-da-tasmânia espalham um tumor facial por mordidas; e várias espécies de moluscos bivalves trocam uma leucemia transmissível pela água do mar. O bagre-pardo é o primeiro peixe a entrar nessa lista.

Como o câncer se espalha entre peixes?

O mecanismo exato ainda não foi comprovado. As hipóteses incluem contato físico durante a desova (quando os bagres se aglomeram), transferência de células pela água e pelo sedimento do fundo do lago, e possíveis brechas no sistema imune dos peixes durante o período reprodutivo.

Quais animais têm câncer transmissível?

Até agora foram documentados cânceres transmissíveis naturais em cães (tumor venéreo), diabos-da-tasmânia (tumor facial), várias espécies de bivalves marinhos (leucemia) e, a partir deste estudo, no bagre-pardo — sendo este o primeiro caso em peixes e em água doce.

Existe câncer contagioso em peixes?

Sim. O estudo publicado na Nature em 2026 confirma que o melanoma que afeta bagres-pardos no Lago Memphremagog (EUA/Canadá) é um câncer transmissível — o primeiro documentado em peixes e em ecossistemas de água doce.

Foto: IA

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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