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LED âmbar atrai menos insetos que a luz branca?

Em estações de trem na Alemanha, LED âmbar de 1800 K atraiu menos insetos que luz branca, inclusive espécies ameaçadas, aponta estudo.

LED âmbar em estação de trem atrai menos insetos noturnos, aponta estudo sobre iluminação artificial.
LED âmbar em estação de trem atrai menos insetos noturnos, aponta estudo sobre iluminação artificial.

Um LED âmbar de 1800 K atraiu consideravelmente menos insetos à noite do que as luzes brancas e amareladas usadas em plataformas de trem, segundo um estudo de dois anos feito em condições reais na Alemanha. A troca da lâmpada reduziu a atração de insetos, inclusive de espécies ameaçadas e protegidas por lei, em até 51,4% na quantidade de indivíduos e 77,4% na biomassa. Em outras palavras: a escolha da cor da luz pode virar uma ferramenta prática de conservação, sem apagar a iluminação.

O estudo comparou três tipos de luz em estações de trem rurais dentro do Parque Natural Westhavelland, uma Reserva Internacional de Céu Escuro no leste da Alemanha: a lâmpada de sódio de alta pressão (2000 K), o LED branco frio (4000 K) e o LED âmbar (1800 K). A versão alaranjada foi a que menos atraiu os insetos voadores noturnos.

O artigo é assinado por Dr. Carmen Ludreschl, Ameli Kirse, Tamara R. Hartke e outros pesquisadores, e foi publicado em 2026 na revista Biological Conservation, com DOI 10.1016/j.biocon.2026.111964. O trabalho teve financiamento da Agência Federal de Conservação da Natureza da Alemanha e apoio da Deutsche Bahn. As coletas ocorreram entre julho e outubro de 2023 e entre abril e junho de 2024, em seis estações de trem.

O que é poluição luminosa?

Poluição luminosa é o excesso de luz artificial durante a noite. No estudo, ela aparece pela sigla ALAN (artificial light at night) e é tratada como um estressor potencial para o declínio global de insetos. A luz artificial à noite cresce, em média, 6% ao ano no mundo, impulsionada pela urbanização e pela expansão dos LEDs.

Para entender o que isso tem a ver com insetos, vale conhecer a temperatura de cor, medida em Kelvin (K). Quanto maior o número, mais branca e azulada a luz. O LED branco frio de 4000 K tem bastante luz azul; a lâmpada âmbar de 1800 K tem um tom alaranjado e quase não emite comprimentos de onda curtos, como o azul. E são justamente essas ondas curtas que mais atraem muitos insetos.

Por que a luz atrai insetos à noite?

Muitos insetos noturnos dependem de pistas de luz vindas do céu para se orientar. A luz artificial bagunça esse sistema: eles são atraídos pela luminosidade num comportamento chamado fototaxia positiva e podem circular em volta da lâmpada até a exaustão, ficando expostos a predadores. A luz também interfere em atividades como reprodução, alimentação e comunicação, e pode limitar a dispersão, fragmentando habitats.

A atração de insetos pela luz âmbar é menor.

O que o estudo encontrou: o LED âmbar atrai menos insetos que a luz branca?

Sim, segundo o estudo. Em dois anos de coleta, o LED âmbar de 1800 K atraiu significativamente menos indivíduos, menos biomassa e menos espécies do que o LED branco de 4000 K e do que a lâmpada de sódio de alta pressão.

Em 2023, a abundância de insetos caiu 38,8% em relação ao sódio e 44,9% em relação ao LED branco; a biomassa caiu 58,9% e 50,9%; e a riqueza de espécies, 21,5% e 23,2%. Em 2024, o padrão se repetiu: reduções de 44,2% e 51,4% na abundância, de 76,5% e 77,4% na biomassa e de 11,2% e 18,7% na riqueza de espécies. Redução de 51,4% significa que a atração caiu para menos da metade.

Um dado importante: não houve diferença estatística significativa entre a lâmpada de sódio e o LED branco. Os dois atraíram muito mais insetos do que a luz âmbar. Todos os tipos de luz atraíram mais insetos do que o controle sem luz, o que mostra que iluminar nunca é neutro para os insetos.

No total, 1.481 espécies foram identificadas nos dois anos, quase 1,5 mil. A luz de sódio atraiu 1.085 espécies, o LED branco 1.072, a luz âmbar 954 e o controle sem luz 938. Algumas espécies só apareceram sob um tipo de luz: 129 exclusivas sob sódio, 122 sob LED branco, 60 sob luz âmbar e 69 no escuro.

Como o estudo mediu a atração de insetos em estações de trem?

Foram usadas 36 armadilhas de interceptação de voo instaladas nas plataformas, com a abertura 5,5 metros acima do chão, perto das lâmpadas. Elas renderam 504 amostras em 2023 e 216 em 2024. Só em 2023, foram capturados 55.985 artrópodes, pouco mais de 55 mil, com biomassa de 707,89 g (quase 710 gramas). Em 2024, foram 15.025 artrópodes e 221,41 g de biomassa.

Para processar tanta coisa, a equipe combinou dois métodos: um modelo de visão computacional contou os indivíduos a partir de fotos, com precisão de 99,4%, e o DNA metabarcoding, a identificação de espécies por DNA, foi usado para saber o que havia nas amostras. Os grupos mais comuns foram besouros (475 táxons), moscas (432), borboletas e mariposas (213), hemípteros, o grupo dos percevejos (190), e himenópteros, a ordem de abelhas, vespas e formigas (100).

O que acontece com espécies ameaçadas sob cada tipo de luz?

O estudo olhou especificamente para espécies ameaçadas e protegidas. Foram identificadas 48 espécies classificadas como criticamente ameaçadas, ameaçadas ou vulneráveis na Lista Vermelha alemã, e 38 espécies protegidas pela legislação do país. Três espécies aparecem nas duas listas: Aporophyla lueneburgensis, Lasioglossum ageratum e Lasioglossum sexnotatum.

A proporção de amostras com pelo menos uma espécie ameaçada ou protegida seguiu o mesmo padrão: maior sob a luz de sódio (73,0%) e sob o LED branco (71,3%), e menor sob a luz âmbar (61,3%) e no controle sem luz (57,8%). Ou seja, a redução da atração não se limita a espécies comuns. Ela também reduz o registro de espécies que a conservação mais quer proteger.

Os autores ponderam que algumas espécies raras apareceram com mais frequência sob a luz âmbar, mas, como foram encontros infrequentes, isso pode ser variação aleatória.

Por que isso importa no mundo todo?

O estudo foi feito na Alemanha, mas os pesquisadores argumentam que a sensibilidade espectral dos insetos é globalmente comparável: insetos de diferentes regiões percebem a luz de maneira parecida. Assim, a luz âmbar pode ser uma alternativa de baixo impacto em outros países, especialmente em áreas protegidas, onde preservar a biodiversidade é obrigação legal.

Para o leitor, o recado é direto: a cor da luz que escolhemos para ruas, estações e pátios tem efeito real sobre a vida selvagem. E dá para reduzir esse efeito sem abrir mão de iluminar.

O que o estudo ainda não explica?

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Os próprios autores listam as limitações. Primeiro, as armadilhas capturam principalmente insetos voadores na altura da luz, então grupos como insetos de solo ficaram sub-representados. Segundo, em um experimento de campo, fatores como luzes concorrentes, claridade nas áreas de controle e enxames locais não podem ser totalmente descartados.

Terceiro, as estações estudadas têm iluminação contínua há décadas. A comunidade local pode já estar parcialmente adaptada à luz ou dominada por espécies tolerantes, então o efeito em áreas pouco iluminadas pode ser diferente.

E há um limite central: a luz âmbar atraiu menos insetos que as outras luzes, mas ainda atraiu mais que o escuro total. A luz, mesmo âmbar, continua sendo uma perturbação ecológica. Além disso, o LED de 1800 K tem eficiência energética menor que o LED branco de 4000 K, o que exige equilibrar economia de energia e impacto ambiental.

O que o estudo recomenda para a iluminação pública?

Os pesquisadores recomendam adotar LEDs âmbar de 1800 K em projetos de iluminação pública sustentável, como estações, ruas, áreas residenciais e industriais. Mas alertam que a cor da luz, sozinha, não resolve tudo. Medidas complementares incluem direcionar e blindar a luz, reduzir a intensidade, operar apenas parte da noite e usar sensores de movimento.

Na prática, o estudo não ficou no papel: as plataformas das seis estações pesquisadas já foram convertidas para a iluminação âmbar com base nos resultados.

O significado mais amplo

Este é um dos poucos estudos a investigar a atração de insetos pela luz artificial no nível de espécie, incluindo espécies ameaçadas e protegidas. Ele mostra que uma decisão aparentemente técnica, como a cor de uma lâmpada, pode ter impacto ecológico mensurável.

A iluminação pública não precisa sumir para proteger os insetos. Ela pode mudar. E mudar de cor é um começo acessível, barato e já testado em condições reais. A estação continua iluminada para as pessoas, e a noite fica um pouco mais segura para quem voa nela.

Perguntas frequentes

O LED âmbar atrai menos insetos?

Sim. No estudo em estações de trem, o LED âmbar de 1800 K atraiu significativamente menos indivíduos, biomassa e espécies do que o LED branco de 4000 K e a lâmpada de sódio de alta pressão, em dois anos de coleta.

Por que a luz atrai insetos à noite?

Porque muitos insetos noturnos usam pistas de luz do céu para se orientar. A luz artificial provoca o comportamento de fototaxia positiva, fazendo-os circular em volta da lâmpada até a exaustão, além de atrapalhar reprodução, alimentação e dispersão.

Qual luz atrai menos insetos: amarela ou branca?

No estudo, a luz âmbar (1800 K) atraiu menos insetos do que a luz branca fria (4000 K) e do que a lâmpada de sódio de alta pressão (2000 K), que tem tom branco-quente amarelado. A diferença entre sódio e LED branco não foi estatisticamente significativa.

O que é poluição luminosa?

É a luz artificial presente durante a noite, tratada pelo estudo como um estressor potencial para o declínio global de insetos. A luz artificial à noite cresce cerca de 6% ao ano no mundo.

Como reduzir a atração de insetos pela luz artificial?

O estudo recomenda usar LEDs âmbar de 1800 K e combiná-los com medidas como direcionar e blindar a luz, reduzir a intensidade, operar apenas parte da noite e usar sensores de movimento.

Fontes

  • Ludreschl, C. et al. Optimised light sources reduce nocturnal insect attraction at railway stations. Biological Conservation, 2026. DOI: 10.1016/j.biocon.2026.111964
  • Dados suplementares do estudo (tabelas de abundância, biomassa, riqueza e ocorrências por tratamento, disponíveis como material complementar).
  • Sequências brutas de DNA depositadas no NCBI Sequence Read Archive (BioProject PRJNA1369126).

Foto: MiM Fathi no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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