Resumo em 15 segundos
- Pesquisadores acompanharam duas baleias na costa da Califórnia com sensores de posição, profundidade e temperatura.
- Saber onde as baleias se concentram ajuda a prever encontros com navios e a reduzir o risco de colisão.
- No estudo, a frente se formava na borda de uma pluma de ressurgência — água fria vinda de camadas mais profundas.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
A baleia-azul é o maior animal do planeta, e a alimentação dela depende de um dos menores: o krill, pequenos animais marinhos que formam agregações no oceano. Encontrá-las num território gigantesco seria como procurar uma agulha num palheiro. Um novo estudo mostra que as baleias-azuis usam a temperatura da água como referência e buscam a alimentação pelas frentes oceânicas, as zonas de encontro entre água fria e quente.
Pesquisadores acompanharam duas baleias na costa da Califórnia com sensores de posição, profundidade e temperatura. Ao cruzar uma frente térmica, as baleias mudavam de direção, faziam mergulhos de exploração e, nas horas seguintes, se alimentavam exatamente ali. É um mapa invisível, e ajuda a entender como o maior predador dos oceanos sobrevive.
Dados do estudo: A pesquisa, coordenada por John P. Ryan, do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI), foi publicada em acesso aberto em 31 de agosto de 2026. Os dados e o código do estudo estão no Zenodo (DOI 10.5281/zenodo.20720500); os dados de satélite vêm do Copernicus e do NOAA ERDDAP. As baleias marcadas em 16 de setembro de 2019, na Baía de Monterey, eram adultas e conhecidas: um macho de pelo menos 24 anos (CRC-747) e outro indivíduo (CRC-1163).
O que é uma frente oceânica?
Uma frente oceânica é a região onde duas massas de água com temperaturas diferentes se encontram. No caso estudado, ela se formava na borda de uma pluma de ressurgência: o vento empurra a água da superfície e água fria sobe de camadas mais profundas. Essa água se espalha como um rio dentro do mar e, no encontro com a água mais quente, cria uma divisa que pode se estender por centenas de quilômetros. A pluma observada tinha cerca de 80 km ao longo da costa, uma viagem de carro de aproximadamente uma hora.
Pense numa feira: os melhores vendedores montam as barracas onde passa mais gente. No oceano, a frente é essa rua. O krill, presa principal da baleia-azul, se alimenta de plâncton perto da superfície à noite e migra para águas mais profundas durante o dia, e é nas frentes que as baleias encontram agregações densas de krill.
O que o estudo encontrou
Os sensores presos às baleias (os biologgers) mostravam posição, profundidade, movimento e temperatura; os satélites, o cenário oceânico. Juntos, revelaram os comportamentos de busca.
- As duas baleias trabalhavam em par: ficaram a menos de 100 metros uma da outra (um campo de futebol) e sincronizadas em mais de 400 eventos de alimentação — quando uma investia, a outra vinha cerca de 3 segundos depois.
- Por seis dias, toda a alimentação ocorreu ao longo da frente da pluma. Um redemoinho que gira no sentido horário (chamado anticiclônico) levava a água fria para o mar aberto, e as baleias seguiam esse transporte. Quando o redemoinho isolava bolsões de água fria, elas se alimentavam exatamente nas bordas de cada bolsão.
- Ao cruzar a frente, mudavam bruscamente de direção — nas duas vezes observadas, viraram no sentido anti-horário, para o lado frio — e faziam mergulhos profundos de exploração, mesmo sem se alimentar.
- Entre as sessões, viajaram cerca de 120 km. À noite, faziam transectos (percursos que cruzam o gradiente térmico em ângulos diferentes) e, pela manhã, localizavam o ponto mais frio antes de passar para o lado quente enquanto se alimentavam.
- A intensidade é alta: até 24 investidas por hora (uma a cada 2 minutos e meio) e até 7 por mergulho. Cada investida é um bote: a baleia acelera, engole água e krill numa massa que pode pesar mais do que ela mesma e filtra o krill.
- Quase todas as investidas (96,5%) foram de dia; 3,5% no crepúsculo. A profundidade mediana foi de 163 metros (mais de 50 andares). Entre as sessões, 48% dos mergulhos (quase metade) foram rasos, com menos de 20 metros — o que os autores associam à leitura da temperatura perto da superfície.
O conjunto é o que os cientistas chamam de consistente com percepção térmica: as baleias sentiriam a temperatura e usariam a memória para comparar. É a interpretação dos autores, não uma medição direta do sistema nervoso.
Relevância global: proteger as frentes é proteger as baleias
O estudo foi feito na Corrente da Califórnia, mas esse ecossistema é representativo dos grandes sistemas de ressurgência de borda leste, presentes nos dois hemisférios. Como as baleias-azuis são distribuídas globalmente e várias populações seguem ameaçadas, o que vale para a Califórnia pode ajudar a entender outras regiões.
Há um efeito prático: plumas de ressurgência costumam cruzar corredores de navegação. Saber onde as baleias se concentram ajuda a prever encontros com navios e a reduzir o risco de colisão. Por isso, frentes oceânicas já são áreas prioritárias de conservação para tartarugas, tubarões, aves e mamíferos marinhos.
Para o leitor brasileiro, a conexão não é direta, o estudo não tem dados do Brasil. Mas a pergunta é universal: como um animal enorme encontra comida minúscula num oceano gigante e em constante mudança?
O que o estudo ainda não explica?
O trabalho é um estudo de caso: a análise detalhada vem do sensor que ficou mais tempo preso ao macho adulto. Os autores mostram que o comportamento representa as duas baleias nos primeiros quatro períodos de alimentação, mas outros indivíduos e outras épocas seguem em aberto.
O primeiro contato com a frente também não pôde ser examinado: quando os sensores foram colocados, as baleias já se alimentavam ali. E a hipótese térmica é uma interpretação dos padrões de movimento — não uma medição da capacidade sensorial. Os próprios autores propõem investigações mais amplas.
Por que isso importa?
Para proteger a baleia-azul, é preciso proteger o processo que gera a frente: a ressurgência, o transporte da água fria e as regiões de encontro entre massas de água. São estruturas invisíveis, mas são elas que decidem onde o krill se concentra e onde as baleias vão se alimentar.
O maior animal do planeta não anda à toa: segue um mapa de temperatura desenhado pelo próprio oceano. Entender esse mapa é uma ferramenta para manter viva a maior criatura que já existiu na Terra.
Fontes
- Ryan, J.P. e colaboradores. “High-precision localized feeding by blue whales”. Artigo científico de acesso aberto, publicado em 31 de agosto de 2026.
- Dados processados e código do estudo: Zenodo, DOI 10.5281/zenodo.20720500.
- Dados de anomalia do nível do mar: Copernicus Data Server, DOI 10.48670/moi-00148.
- Dados de temperatura da superfície do mar: NOAA ERDDAP Data Server (coastwatch.pfeg.noaa.gov/erddap).
Perguntas frequentes
Como a baleia-azul encontra comida no oceano?
Segundo o estudo, baleias-azuis localizam o krill seguindo frentes oceânicas, as zonas de encontro entre água fria e quente. Elas mudam de direção ao cruzar essas frentes e fazem mergulhos de exploração antes de se alimentar.
O que é uma frente oceânica?
É a região onde duas massas de água com temperaturas diferentes se encontram. No estudo, a frente se formava na borda de uma pluma de ressurgência — água fria vinda de camadas mais profundas.
Baleias-azuis se alimentam de dia ou de noite?
O estudo mediu 96,5% das investidas de dia e 3,5% no crepúsculo. À noite, as baleias faziam buscas sistemáticas, mas não se alimentavam.
Quantas vezes uma baleia-azul se alimenta em um mergulho?
No estudo, as baleias chegaram a até 7 investidas por mergulho e até 24 por hora. Em cada investida, engolem uma massa de água e krill que pode pesar mais do que a própria baleia.
A baleia-azul ainda está ameaçada?
Sim: segundo o artigo, várias populações seguem ameaçadas. Como plumas de ressurgência cruzam corredores de navegação, o comportamento de busca pode influenciar a exposição das baleias ao risco de colisão com navios.
Foto: Michal Vaško no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





