Três anos. Foi o tempo que uma família que se mudou do Brasil para o Reino Unido levou para descobrir que carregava, sem saber, um visitante microscópico e perigoso. O gato da casa parecia saudável. Mas estava infectado com o Sporothrix brasiliensis, um fungo que causa feridas abertas na pele, ataca o sistema respiratório e está se espalhando para além da América do Sul com uma velocidade que acendeu um alerta internacional. Duas pessoas da família e a veterinária que atendeu o animal também adoeceram.
Os três casos, relatados em 2022, se tornaram um marco: eram os primeiros registros de esporotricose transmitida por gatos fora do continente sul-americano, e os primeiros no Reino Unido. A situação, classificada como “preocupante” por especialistas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), revela como um fungo que nas últimas décadas já infectou mais de 11 mil pessoas e pelo menos 200 cães na América do Sul pode, agora, se tornar um desafio de saúde pública em escala global.
Ficha do estudo: O relato dos três primeiros casos de transmissão do Sporothrix brasiliensis de gato para humano fora da América do Sul foi publicado por James R. Barnacle e colegas na revista Medical Mycology Case Reports, em 2022 (DOI: 10.1016/j.mmcr.2022.12.004). Os alertas globais e dados sobre a expansão do fungo foram apresentados pelo micologista Shawn Lockhart, do CDC, na conferência ASM Microbe, em junho de 2026, conforme reportou Tina Hesman Saey para o Science News.

Um fungo com duas faces, e um alerta do CDC
A primeira coisa que você precisa saber sobre o Sporothrix brasiliensis é que ele muda de forma. Não é força de expressão. Em temperatura fria, no solo, ele cresce como mofo, em filamentos alongados chamados hifas. Mas quando a temperatura sobe, ao entrar no corpo de um animal ou pessoa, ele se transforma em levedura, uma versão unicelular que se multiplica e se espalha pelos tecidos.
“É mofo no frio e levedura no calor”, resumiu Dr. Shawn Lockhart, conselheiro sênior do CDC, durante a apresentação.
Essa capacidade de se adaptar não é exclusiva dele, outros fungos dimórficos fazem o mesmo. Mas há uma diferença crucial: a forma de levedura do S. brasiliensis é contagiosa. Ou seja, o contato direto com as secreções de um animal doente, como a saliva ou o muco do nariz, pode transmitir a infecção. Isso não acontece com os parentes próximos do gênero Sporothrix que causam a chamada “doença do jardineiro de rosas”, transmitida por espinhos de plantas contaminados com esporos do solo. Aqui, a transmissão é de corpo para corpo.

Como o fungo se espalha entre gatos e chega aos humanos?
Gatos se lambem, se mordem e se arranham. É da natureza deles. E é exatamente aí que o fungo aproveita a brecha. “Quem tem gato sabe que eles fazem duas coisas: ou estão se amando, se lambendo e cuidando um do outro, ou estão brigando, mordendo e arranhando. São as duas atividades mais frequentes, e ambas permitem a transferência do Sporothrix brasiliensis de um para o outro”, explicou Lockhart.
O fungo se aloja nas lesões de pele, nas secreções nasais e nas unhas dos felinos. Quando um gato infectado arranha ou morde outro — ou um humano —, injeta a levedura diretamente na ferida. A transmissão para pessoas acontece com frequência nesse contexto. Lockhart acredita que metade dos casos humanos tenha origem em tentativas de dar remédio a gatos doentes: “A pessoa enfia a pílula goela abaixo do gato e acaba arranhada ou mordida”, descreveu.
Mas o espirro do gato também preocupa. Pesquisadores relataram em 2022, na revista Medical Mycology, que felinos podem expelir leveduras infecciosas ao espirrar. Esse aerossol contamina superfícies, jalecos e até o ar do ambiente. E o fungo persiste: um experimento com discos de aço inoxidável — que simulam mesas de clínica veterinária — mostrou que o S. brasiliensis sobrevive por até 10 semanas fora do corpo. Para comparação, o fungo Candida auris, que causa infecções hospitalares graves, dura cerca de um mês no mesmo tipo de superfície. O Candida albicans, de infecções mais comuns, não passa de 48 horas.
Casos reais fora da América do Sul e o que eles ensinam
Os três casos do Reino Unido, os primeiros de transmissão de gato para humano fora da América do Sul — envolveram mãe, filha e a veterinária que atendeu o animal. O gato da família, um dos dois que vieram do Brasil, tinha sido adotado ainda filhote no país de origem. A análise laboratorial confirmou que o fungo era o S. brasiliensis, idêntico às cepas que circulam no Brasil.
Segundo o artigo de Burke e colegas, o felino apresentava lesões ulceradas na pele e nódulos, mas os sinais clínicos não eram óbvios nos primeiros anos. Os tutores só adoeceram três anos depois da mudança. A médica veterinária que examinou o gato também desenvolveu sintomas na pele. Todos precisaram de tratamento antifúngico.
Esse episódio mostra que o fungo pode viajar de forma silenciosa. Um animal infectado pode cruzar fronteiras sem que ninguém perceba, e isso é particularmente inquietante porque, nos Estados Unidos, gatos que entram no país precisam apenas de um atestado veterinário genérico de que “aparentam estar saudáveis”. Não há teste comercial para o S. brasiliensis.
Sintomas e letalidade: o que o fungo faz no corpo do gato?
Em felinos, a doença começa com úlceras na pele e nódulos que podem secretar pus. Os linfonodos incham. Se a infecção não for tratada com antifúngicos a tempo, ela pode migrar para o sistema respiratório e se espalhar por todo o organismo. “Sem tratamento, a letalidade é de 100%. E mesmo com tratamento, a taxa de fatalidade ainda é bastante alta”, afirmou Lockhart.
Já em humanos, o quadro costuma ser menos agressivo, mas não é inofensivo. A infecção provoca úlceras dolorosas na pele, geralmente nos locais de arranhadura ou mordida. Pessoas com o sistema imunológico comprometido correm mais risco de desenvolver formas graves e potencialmente fatais da doença. Os três pacientes britânicos se recuperaram, mas o tratamento foi prolongado e exigiu acompanhamento clínico próximo.
Por que isso importa onde você estiver?
O surto no Brasil não é novo, ele começou nos anos 1990 e já se alastrou para Paraguai, Chile, Argentina e Uruguai. Mas o dado que realmente mudou a conversa entre especialistas foi a confirmação de transmissão felina fora do continente. A história da família no Reino Unido rasgou a fronteira geográfica da doença e mostrou que o fungo pode emergir em qualquer lugar onde haja um gato infectado vindo da América do Sul.
Lockhart está especialmente preocupado com megacidades onde a população felina é densa, citou Istambul e Bangkok como exemplos, e também com áreas rurais dos Estados Unidos onde há grandes colônias de gatos de fazenda. “Basta um viajante trazer seu gato, e o fungo pode emergir em qualquer lugar”, disse. Para ele, não é uma questão de “se”, mas de “quando” o patógeno vai aparecer nos EUA.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores dos relatos e as autoridades sanitárias apontam lacunas importantes. A principal é a ausência de um teste diagnóstico comercial para S. brasiliensis. Sem ele, o fungo pode ser confundido com outras espécies de Sporothrix, que são menos agressivas e não se espalham entre animais e pessoas da mesma forma. Isso pode atrasar a detecção de surtos iniciais.
Outra limitação é a subnotificação. Como os sintomas em humanos podem demorar a aparecer, o caso britânico levou três anos para se manifestar, a real extensão da dispersão global do fungo é desconhecida. Lockhart admitiu que os Estados Unidos podem já ter casos não diagnosticados. “É só uma questão de tempo. Nós estamos esperando”, disse.
Por que isso importa?
Veterinários são a linha de frente dessa história. Serão eles os primeiros a notar gatos com feridas que não cicatrizam e linfonodos inchados. Lockhart fez um apelo direto a esses profissionais: que, ao suspeitarem de esporotricose, avisem imediatamente os laboratórios de saúde pública ou o CDC. “Existe uma oportunidade para que isso se espalhe com bastante facilidade. Precisamos que veterinários trabalhem junto com a prevenção de infecções e a saúde pública para garantir que isso não chegue aqui e aconteça nos EUA”, reforçou.
A boa notícia é que o fungo não resiste a desinfetantes comuns. Água sanitária e álcool são capazes de eliminá-lo das superfícies. Mas isso só funciona se a limpeza for minuciosa. Dez semanas de sobrevivência no aço são tempo suficiente para que uma falha na higienização de uma mesa veterinária exponha o próximo paciente ao risco.
Perguntas frequentes
O que é Sporothrix brasiliensis?
É um fungo dimórfico — cresce como mofo no ambiente e vira levedura no corpo de animais e humanos. Diferente de outros fungos do gênero Sporothrix, sua forma de levedura é contagiosa e pode ser transmitida diretamente de gatos infectados para pessoas e outros animais.
Como o fungo Sporothrix brasiliensis é transmitido para humanos?
Principalmente por arranhaduras, mordidas e contato com secreções de gatos doentes. O ato de dar remédio ao animal, que muitas vezes resulta em arranhões ou mordidas, é uma situação comum de transmissão. O fungo também pode ser expelido pelo espirro do felino e contaminar superfícies por até 10 semanas.
Quais os sintomas da esporotricose em gatos?
Úlceras na pele, nódulos que podem secretar pus e inchaço dos linfonodos. Se a infecção avançar sem tratamento, pode atingir o sistema respiratório e se disseminar pelo corpo, tornando-se fatal.
A esporotricose felina tem cura?
Existe tratamento com antifúngicos, mas a letalidade é alta mesmo com medicação. Sem tratamento, a taxa de mortalidade é de 100% nos gatos, segundo Shawn Lockhart, do CDC.
O fungo Sporothrix brasiliensis chegou aos Estados Unidos?
Até o momento do alerta de junho de 2026, não havia casos confirmados nos EUA que as autoridades soubessem. No entanto, o CDC considera que é apenas uma questão de tempo até que o fungo seja detectado no país.
Por que o Sporothrix brasiliensis é considerado um fungo mortal?
Porque causa uma doença de alta letalidade em gatos — 100% sem tratamento — e pode ser grave em humanos com imunidade comprometida. Sua capacidade de se espalhar por leveduras contagiosas e de sobreviver até 10 semanas em superfícies de aço amplifica o risco de surtos fora de controle.
Fontes
- James R. Barnacle et al. The first three reported cases of Sporothrix brasiliensis cat-transmitted sporotrichosis outside South America. Medical Mycology Case Reports. 2022. DOI: 10.1016/j.mmcr.2022.12.004
- Tina Hesman Saey. A deadly fungus that can infect cats and people is spreading. Science News. 17 de junho de 2026. Reportagem baseada na apresentação de Shawn Lockhart (CDC) na conferência ASM Microbe.
- Estudo sobre transmissão por espirro e sobrevivência do fungo citado durante a apresentação, publicado em Medical Mycology em 2022.
Foto: Engin Akyurt no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





