Você já se perguntou por que morcegos vivem tanto? Uma espécie, a Myotis brandtii, passa dos 42 anos. Outra do mesmo gênero, a Myotis nigricans, vive cerca de 7 anos. Seis vezes de diferença entre dois bichos de tamanho parecido. Um estudo publicado na Nature em 26 de agosto de 2026 mostra que parte da resposta está no genoma: a longevidade extrema desses morcegos anda junto com adaptações imunológicas contra vírus e com uma resposta mais agressiva a danos no DNA, que elimina células defeituosas. A mesma via que torna o morcego tolerante a vírus pode dizer muito sobre como a gente envelhece.
A equipe montou genomas quase completos de oito espécies do gênero Myotis, criou linhagens de células, expôs essas células a vírus e a uma droga que corta o DNA e cruzou tudo com a evolução de 5.527 proteínas que interagem com vírus. O resultado: imunidade, resistência ao câncer e longevidade parecem capítulos da mesma história.
O estudo Insights into longevity and virus-driven adaptation from Myotis bat genomes saiu na Nature em 26 de agosto de 2026, em acesso aberto, assinado por Juan M. Vazquez e diversos colaboradores de instituições como as universidades da Califórnia (Berkeley) e do Arizona. Os genomas estão depositados nos BioProjects PRJNA973719, PRJNA1035541 e PRJNA1295526 do NCBI; os demais dados, no repositório Dryad (10.5061/dryad.02v6wwqfh).
Por que morcegos vivem tanto? O que o genoma mostra
Myotis é o maior gênero de morcegos do planeta: mais de 139 espécies em seis continentes, num grupo que existe há cerca de 33 milhões de anos. Dentro dele, a longevidade varia como em poucos lugares da natureza, de 7 a 42 anos. Os morcegos, aliás, respondem por cerca de 20% das espécies de mamíferos conhecidas.
Genoma é o manual de instruções de um organismo, escrito em DNA. Montar o genoma de uma espécie é ler quase todas as letras desse manual: no estudo, 98,6% do DNA ficou organizado em cromossomos. Foi nesse material que os pesquisadores procuraram por seleção positiva, a assinatura de um gene que traz vantagem e se espalha pela população. E encontraram esses sinais em genes de envelhecimento, reparo de DNA, câncer e defesa contra vírus.
O genoma do morcego Myotis: oito espécies sequenciadas
Os oito genomas novos são de espécies norte-americanas de Myotis. Cada um tem 20.869 genes com homólogos em mamífero, cerca de 21 mil genes. A qualidade é tão alta que, em pelo menos uma das oito espécies, todos os cromossomos foram sequenciados de ponta a ponta, sem lacunas.
Com genomas completos, deu para mapear variações estruturais: duplicações, inversões e translocações de pedaços de DNA. Mas o achado mais interessante está em como esses animais evoluíram contra vírus.
Como os morcegos se defendem de vírus: o gene PKR
O padrão é duplo. Para vírus de DNA, a adaptação está na sequência das proteínas: as proteínas que interagem com vírus de DNA têm muitas assinaturas de seleção positiva. Para vírus de RNA, a adaptação está em outra camada, no número de cópias de genes, que aumenta ou diminui com o tempo. É o contrário do que se vê em humanos e outros primatas, cuja evolução contra vírus é dominada por vírus de RNA.
No centro disso está o gene PKR (também chamado EIF2AK2), um dos principais soldados da imunidade inata. Quando detecta RNA de fita dupla, ele trava a produção de proteínas da célula e limita a replicação viral. Nas espécies de Myotis, o PKR existe em versões com uma, duas ou três cópias. Sete das nove espécies analisadas carregam a versão duplicada; em cinco, a duplicação está num cromossomo só. A versão tripla apareceu apenas em Myotis californicus.
Em laboratório, as cópias PKR1 e PKR2 agem de forma aditiva: juntas, restringem dois vírus de RNA (o da estomatite vesicular e o Sindbis) numa intensidade parecida com a de cada uma isolada. Não formam pares mistos e não têm efeito sinérgico. Há um custo, porém: em doses altas, o PKR aumenta a morte celular. Isso pode explicar por que a duplicação não se fixou em outros mamíferos.
Morcegos e câncer: a relação com a longevidade
Viver mais significa mais divisões celulares e, com elas, mais mutações. Por que os morcegos não pagam essa conta com tumores? O paradoxo, conhecido como paradoxo de Peto, encontra no estudo uma resposta evolutiva: nas linhagens com maior ganho de longevidade, há enriquecimento de vias de câncer sob seleção positiva. Na Myotis lucifugus, uma das mais longevas, 35 dos 65 genes da via de reparo por recombinação homóloga (mais da metade) e 21 dos 37 genes do reparo dirigido por homologia mostram sinais de seleção.
Os autores testaram isso em células da pele de cinco espécies de morcego, com neocarzinostatina, uma droga que corta o DNA em dois. A M. lucifugus foi a única que respondeu já em doses baixas, com queda de viabilidade e aumento de morte celular programada. Em doses altas, foi a que mais eliminou células danificadas. É o mesmo padrão de elefantes, ratos-toupeira-pelados e baleias-da-Groenlândia: podar células defeituosas cedo evita tumor.
O que a longevidade dos morcegos pode ensinar aos humanos?
Morcego não é bicho de estimação, mas compartilha com a gente a grande maioria dos genes. Entender como um animal do tamanho de um punho vive quatro décadas sem sucumbir ao câncer é uma pergunta universal, e a resposta pode orientar a medicina.
O estudo sugere que os genes que respondem ao dano no DNA na M. lucifugus são os mesmos que interagem com vírus de DNA. Se a seleção que age na imunidade arrastou junto, por pleiotropia, uma resposta mais eficiente ao DNA quebrado, então tolerância a vírus e longevidade são duas faces da mesma adaptação.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores marcam os limites. A relação entre tamanho corporal e longevidade nos morcegos foi 40% maior que em outros mamíferos (0,223% de ganho de longevidade por 1% de aumento de massa, contra 0,159%), mas a diferença não foi estatisticamente significativa após a correção pela história evolutiva (P = 0,29).
Os experimentos com PKR foram feitos em células HeLa humanas modificadas, um sistema heterólogo, não em células de morcego. Os testes de dano ao DNA usaram apenas 2 indivíduos em algumas espécies. E a ponte entre imunidade a vírus de DNA e reparo do DNA é uma hipótese consistente com os dados, mas ainda não é prova de causalidade.
Por que isso importa?
Se a hipótese central se confirmar, envelhecer bem não é desacelerar o relógio: é manter a vigilância. A mesma maquinaria que permite ao morcego conviver com vírus sem ficar doente pode ser a que elimina células que caminham para virar tumor.
Para a medicina, o mapa fica mais claro: moléculas que imitam a resposta dos morcegos ao dano no DNA, ou que reforçam vias imunes como a do PKR, são candidatas naturais para estudos de prevenção de câncer. Nada disso é receita pronta, é direção de pesquisa. Da próxima vez que você cruzar com um morcego, lembre-se: ele carrega um manual que a ciência acabou de começar a ler.
Perguntas frequentes
Por que morcegos vivem tanto?
Segundo o estudo com o genoma de oito espécies de Myotis, a longevidade extrema está ligada a adaptações genéticas na imunidade contra vírus e em vias de reparo do DNA. Espécies mais longevas, como a Myotis lucifugus, eliminam células danificadas com mais eficiência — o que também reduz o risco de câncer.
Qual morcego vive mais tempo?
Entre as espécies analisadas, a campeã é a Myotis brandtii, com até 42 anos — seis vezes mais que a Myotis nigricans, que vive cerca de 7 anos.
Por que morcegos resistem a vírus?
Eles se adaptaram a vírus de duas formas: proteínas que interagem com vírus de DNA evoluíram por seleção positiva, enquanto genes ligados a vírus de RNA mudaram mais no número de cópias. O gene PKR, que trava a produção de proteínas da célula infectada, é central nessa defesa.
Por que morcegos não desenvolvem câncer?
O estudo não afirma que morcegos nunca têm câncer. Ele encontrou pistas fortes: linhagens com maior ganho de longevidade têm enriquecimento de genes de câncer sob seleção, e a espécie mais longeva testada elimina células danificadas, como fazem elefantes e ratos-toupeira-pelados.
Como morcegos se adaptam a vírus de DNA e RNA?
A adaptação a vírus de DNA acontece principalmente na sequência das proteínas; a de vírus de RNA, sobretudo no número de cópias de genes. Isso difere do padrão humano e de outros primatas, dominado por vírus de RNA.
Fontes
- Vazquez, J. M. et al. Insights into longevity and virus-driven adaptation from Myotis bat genomes. Nature, publicado em 26 de agosto de 2026.
- Dados arquivados no Dryad: 10.5061/dryad.02v6wwqfh
- Genomas no NCBI BioProject: PRJNA973719, PRJNA1035541 e PRJNA1295526
- Código do estudo: https://github.com/sudmantlab/MyotisGenomeAssembly
- Anotações genômicas: https://github.com/docmanny/myotis-gene-annotations
Foto: Google DeepMind no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





