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Médicos suspeitavam de câncer cerebral, mas descoberta surpreende

Lesões cerebrais de um homem de 60 anos na Espanha foram confundidas com metástases, mas a causa era outra: um parasita transmitido localmente. Entenda o caso raro de neurocisticercose autóctone.

Ressonância magnética de neurocisticercose autóctone mostrando escólex em lesão cerebral cística, Espanha
Ressonância magnética de neurocisticercose autóctone mostrando escólex em lesão cerebral cística, Espanha

Um punhado de lesões no cérebro. Nos exames de imagem, elas brilhavam com o contraste, cercadas por inchaço. Esse tipo de imagem costuma acender o alerta máximo para tipos de câncer avançado. Só que, no caso de um homem de 60 anos de Castellón, na Espanha, o verdadeiro culpado era algo que parecia não pertencer àquele lugar: um verme que, em tese, não deveria estar ali.

O paciente nunca havia viajado para fora do país. Não era imigrante. E mesmo assim carregava no crânio as marcas inconfundíveis de uma doença parasitária típica de regiões pobres da América Latina, da África e da Ásia.

O caso, descrito por médicos do Hospital Universitari de La Plana e confirmado pelo centro de referência nacional espanhol, foi relatado em 2025 na revista científica do CDC americano. Ele expõe um risco silencioso que todos nós temos: ser infectado por parasitas tropicais. E mostra também como uma pista quase microscópica nos exames de imagem salvou o paciente de uma bateria de procedimentos oncológicos desnecessários.

Ficha do estudo: O caso foi relatado por Hernández-Sánchez e colegas do Hospital Universitari de La Plana, em Vila-real, na Comunidade Valenciana, com apoio do Centro Nacional de Microbiologia do Instituto de Saúde Carlos III, em Madri. O artigo foi publicado na revista Emerging Infectious Diseases, do CDC, em julho de 2025. DOI: 10.3201/eid3207.260587.

O que é neurocisticercose autóctone?

A neurocisticercose acontece quando os ovos da Taenia solium, a solitária do porco, chegam ao sistema nervoso central e formam cistos. As larvas se instalam no cérebro como pequenas bolsas cheias de líquido. É a infecção parasitária mais comum do sistema nervoso no mundo, mas quase sempre restrita a zonas onde o saneamento é precário e a criação de porcos convive de perto com as pessoas.

O termo “autóctone” significa que a transmissão aconteceu localmente, sem que a pessoa tenha pisado em uma região endêmica. Isso é excepcional na Europa Ocidental: entre 2000 e 2019, o continente inteiro somou menos de 30 casos autóctones confirmados. Na Espanha, um levantamento de 1997 a 2014 mostrou que as hospitalizações por cisticercose acompanhavam as curvas de imigração externa, o contrário do que aconteceu com o paciente de Castellón.

O que o estudo encontrou? Um quebra-cabeça clínico em Castellón

Tudo começou com duas semanas de dor de cabeça progressiva e mudanças sutis no comportamento. O paciente, um morador de Castellón que trabalhou na construção civil até se aposentar dez anos antes, não tinha nada de errado nos exames neurológicos mais simples, só um leve desacelerar psicomotor, quase imperceptível.

O primeiro exame de sangue revelou uma pista discreta: a imunoglobulina E total estava em 200 IU/mL, o dobro do valor de referência. Mas o susto veio na tomografia de crânio sem contraste: múltiplas lesões dentro do cérebro, mal definidas, com edema vasogênico acentuado ao redor, inchaço que indica que algo está irritando o tecido cerebral. A hipótese imediata foi metástase.

A equipe iniciou dexametasona, um corticoide, e os sintomas desapareceram rápido. Só que o check-list oncológico completo — tomografia de corpo inteiro com contraste, colonoscopia e até PET-CT — não encontrou tumor nenhum.

O exame que mudou tudo

Foi a ressonância magnética seguinte que mudou o rumo: lesões sólido-císticas salpicadas pelos dois hemisférios, com realce em anel pelo contraste. Em várias delas, um detalhe dentro do cisto chamava a atenção: um nódulo interno minúsculo, sugestivo de escólex — a cabecinha do parasita, com suas ventosas. Para qualquer radiologista treinado, essa imagem fecha o diagnóstico de neurocisticercose.

O exame parasitológico de fezes do paciente e de quem vivia com ele veio negativo. Mas o teste sorológico feito pelo laboratório de referência nacional, usando a técnica de enzyme-linked immunoelectrotransfer blot, bateu positivo para anticorpos contra a Taenia solium. Com dois critérios maiores de Del Brutto preenchidos (imagem típica mais sorologia positiva), o diagnóstico definitivo de neurocisticercose autóctone foi fechado.

Por que isso importa para você, mesmo acontecendo na Espanha?

O caso espanhol derruba uma premissa perigosa: a de que certas doenças parasitárias só acontecem com os outros (os que viajam, os que vêm de fora, os que vivem em lugares distantes). A transmissão aconteceu, muito provavelmente, no canteiro de obras onde o paciente conviveu por anos com colegas migrantes vindos de zonas endêmicas da Taenia solium. Compartilhar refeições e instalações sanitárias criou a rota para a contaminação fecal-oral, mesmo sem que ninguém da casa tivesse o parasita detectável nas fezes no momento da investigação.

Isso não significa que a neurocisticercose vá se tornar comum na Europa ou no Brasil — onde a doença é endêmica em várias regiões, mas a transmissão doméstica em áreas urbanas ainda é subnotificada. Significa que, quando um paciente aparece com múltiplas lesões cerebrais que realçam em anel, a pergunta “você viajou?” não basta.

Médicos e sistemas de saúde precisam incluir a neurocisticercose no radar, especialmente se o paciente conviveu com pessoas de áreas endêmicas. Uma tomografia ou ressonância bem interpretada, com a identificação do escólex, pode poupar biópsias cerebrais e cirurgias desnecessárias.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores são cuidadosos ao apontar as limitações: não foi possível rastrear exatamente qual colega de trabalho transmitiu o parasita, nem determinar quanto tempo os ovos da Taenia solium permaneceram viáveis no ambiente. A ausência de ovos ou parasitas nos exames de fezes do paciente e de seus contatos domiciliares sugere que a fonte da contaminação já não estava mais ativa quando a investigação aconteceu, ou que a carga era baixa demais para ser detectada. Também não se sabe a real extensão da transmissão na Espanha. O caso relatado pode ser a ponta de um iceberg pequeno, mas real, de infecções locais silenciosas que nunca chegam a ser diagnosticadas corretamente. Por fim, a neurocisticercose é uma doença de notificação não obrigatória em grande parte da Europa, o que dificulta enxergar o tamanho do problema.

Como o paciente foi tratado?

O paciente foi tratado com albendazol (400 mg duas vezes ao dia) e praziquantel (1.200 mg três vezes ao dia), combinados com uma retirada gradual da dexametasona, e se recuperou sem complicações. Teve a sorte de encontrar uma equipe que não parou no primeiro palpite — metástase — e soube ler as pistas sutis que a neuroimagem oferecia. O caso fica como um lembrete incômodo: parasitas não respeitam fronteiras, e uma doença considerada “tropical” pode estar mais perto do que a gente imagina, escondida atrás de uma suspeita de câncer. Em um mundo onde as pessoas se deslocam cada vez mais, o mapa das doenças também muda. E o escólex minúsculo dentro de um cisto cerebral é a prova de que o inesperado, às vezes, está literalmente dentro da cabeça.

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Fontes

  • Hernández-Sánchez et al. “Autochthonous Neurocysticercosis Brain Lesions Mimicking Metastatic Disease, Spain”. Emerging Infectious Diseases, v. 32, n. 7, jul. 2025. DOI: 10.3201/eid3207.260587.
  • Del Brutto, O. H. et al. “Proposed diagnostic criteria for neurocysticercosis”. Neurology, 2001. (Critérios diagnósticos de referência citados no estudo)
  • Herrador, Z. et al. “Cysticercosis in Spain: a retrospective study based on the national hospital discharge database”. Citado no artigo como referência 8.

Perguntas frequentes

O que é neurocisticercose autóctone?

É a infecção do sistema nervoso central pelas larvas do parasita Taenia solium contraída localmente, sem que a pessoa tenha viajado para regiões onde a doença é comum. É extremamente rara na Europa Ocidental, com menos de 30 casos confirmados entre 2000 e 2019.

Quais os sintomas da neurocisticercose cerebral?

Os sintomas podem variar, mas no caso relatado na Espanha o paciente apresentou dor de cabeça progressiva por duas semanas e mudanças sutis no comportamento, com lentidão psicomotora leve, sem déficits neurológicos focais. Em outros casos, crises epilépticas são a manifestação mais frequente.

Como a neurocisticercose pode ser transmitida sem viagem?

A transmissão ocorre pela ingestão de ovos da Taenia solium eliminados nas fezes de uma pessoa que tem a tênia adulta no intestino. No caso espanhol, a provável fonte foram colegas de trabalho migrantes vindos de áreas endêmicas, com quem o paciente compartilhava refeições e instalações sanitárias durante anos na construção civil.

Neurocisticercose pode parecer câncer no cérebro?

Sim. As lesões cerebrais da neurocisticercose podem aparecer nos exames de imagem como múltiplos nódulos com realce em anel e inchaço ao redor, padrão inicialmente indistinguível de metástases. A presença de um nódulo interno no cisto — o escólex, ou cabecinha do parasita — é o detalhe que denuncia a verdadeira causa.

Como é diagnosticada a neurocisticercose?

O diagnóstico combina achados de neuroimagem (tomografia ou ressonância magnética que mostrem lesões císticas com escólex visível) e confirmação sorológica — no estudo, foi usado o teste enzyme-linked immunoelectrotransfer blot para detectar anticorpos contra a Taenia solium. Os critérios de Del Brutto estabelecem a pontuação necessária para o diagnóstico definitivo.

Qual o tratamento para neurocisticercose?

O tratamento antiparasitário inclui albendazol e praziquantel, associados a corticosteroides como a dexametasona para controlar a inflamação causada pela morte dos parasitas. No caso relatado, o esquema foi albendazol 400 mg duas vezes ao dia e praziquantel 1.200 mg três vezes ao dia, com retirada gradual do corticoide, sem complicações.

Foto: cottonbro studio no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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