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Respiração lenta pode aumentar a propensão ao risco

Respiração lenta aumentou a aceitação de apostas em teste: a calma fisiológica ampliou a sensibilidade a recompensas, sem mudar a percepção de perdas.

Ilustração de respiração lenta associada a atividade cerebral em estudo sobre risco e decisão.
Ilustração de respiração lenta associada a atividade cerebral em estudo sobre risco e decisão.

A gente aprende cedo que respiração lenta é sinônimo de calma, e que calma leva a decisões mais cautelosas. Um experimento recém-publicado mostra que a história é mais curiosa: respirar devagar, com uma expiração bem mais longa que a inspiração, deixou as pessoas mais propensas a aceitar apostas arriscadas. O motivo? A respiração lenta ampliou a sensibilidade à recompensa, sem reduzir a percepção de perdas.

O estudo acompanhou 41 adultos jovens (24 mulheres, idade média de 24,78 anos, desvio padrão de 4,93) enquanto eles decidiam, dentro de um aparelho de ressonância magnética, se aceitavam ou recusavam apostas com 50% de chance de ganhar ou perder. Os ganhos iam de 10 a 30 euros; as perdas, de 5 a 15. Ao respirar num ritmo de expiração prolongada, eles aceitaram mais apostas do que ao respirar naturalmente. O resultado contraria a intuição de que “relaxar” deixa a pessoa mais conservadora.

O artigo, assinado por Wenhao Huang, Soyoung Q. Park e colaboradores, está em acesso aberto, publicado on-line na revista Neuron em 28 de maio de 2026. O estudo foi feito na Alemanha, com aprovação do comitê de ética da Universidade de Potsdam, e as imagens foram captadas no Center for Cognitive Neuroscience Berlin, da Freie Universität Berlin. O desenho foi pré-registrado no Open Science Framework (osf.io/4cbfz), e o código da análise está no Zenodo (10.5281/zenodo.19454547). A pesquisa combinou ressonância magnética funcional com medidas simultâneas de respiração, coração, condutância da pele e pupila.

O que é expiração prolongada?

Expiração prolongada é uma técnica de respiração lenta em que soltar o ar demora bem mais do que inspirar. No experimento, o ritmo foi de 2 segundos inspirando e 8 expirando. O objetivo é ativar o ramo parassimpático do sistema nervoso, o modo “descansar e digerir”, oposto ao estado de alarme conhecido como “lutar ou fugir”.

Como saber se isso realmente aconteceu? Pela variabilidade cardíaca: a pequena flutuação no intervalo entre um batimento e outro. Durante a inspiração, o coração acelera um pouco; durante a expiração, desacelera. Quando a expiração fica mais longa, essa oscilação aumenta. É como se o coração passasse mais tempo no freio do que no acelerador.

O que a respiração lenta fez na hora do risco?

Sim, a respiração lenta pode influenciar decisões de risco. No experimento, a expiração prolongada aumentou significativamente a chance de aceitar uma aposta, em comparação com a respiração natural (efeito principal com p = 0,018). Mas não foi um aumento genérico da tolerância ao risco: foi uma mudança seletiva no peso dado à recompensa.

Quando o ganho possível era maior, a probabilidade de aceitar a aposta crescia mais na condição de expiração prolongada do que na respiração normal (interação entre condição e recompensa com p < 0,001). Já o tamanho da perda não mudou o comportamento entre as condições (interação entre condição e perda com p = 0,095). Em outras palavras: o que mudou foi o valor do prêmio, não o medo do prejuízo.

A duração da expiração aumentou em média 5,183 segundos por ciclo na condição lenta, e os marcadores de atividade parassimpática do coração subiram (as medidas de variabilidade cardíaca RespHRV e RMSSD foram maiores). Já os marcadores de ativação simpática, ligados ao estresse, não mudaram: nem a condutância da pele nem o tamanho da pupila diferiram entre as condições. A técnica acionou o freio do corpo sem pisar no acelerador.

Os autores também descartaram explicações alternativas. O tempo de resposta não mudou, a consistência das escolhas continuou a mesma e a taxa de respostas aleatórias não aumentou. O efeito não veio de pressa, tédio ou desatenção.

O que a respiração lenta faz no cérebro?

Nas pessoas que mais ativaram o sistema parassimpático, a respiração lenta fortaleceu a resposta do cérebro à recompensa em duas regiões: o córtex pré-frontal ventromedial, conhecido por calcular o valor subjetivo das opções, e o precúneo, associado à integração de sinais do corpo e a pensamentos autorreferenciais.

O caminho proposto pelos autores é neurovisceral: a respiração modifica o coração pelo nervo vago, e essa informação corporal chega às regiões que decidem. Não se trata de um botão genérico de relaxamento, e sim de um efeito fisiológico mensurável e específico para recompensa.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios pesquisadores tratam o trabalho como uma demonstração de prova de princípio. O experimento ocorreu em laboratório, com um desenho em que as faixas de ganho e perda não eram simétricas — elas foram calibradas para refletir a conhecida aversão a perdas. Estudos futuros com estruturas mais equilibradas precisarão mostrar se o efeito se repete.

Não houve feedback após cada escolha, e a análise se concentrou no momento da decisão, não na fase de resultado. Por isso, não dá para concluir nada sobre aprendizado ou sobre mudanças de longo prazo. Em algumas medidas fisiológicas, a amostra foi menor (26 participantes na condutância da pele e 28 na pupila), por causa da qualidade do sinal dentro do scanner.

Um efeito que escapa ao senso comum

O estudo foi feito na Alemanha, com adultos jovens saudáveis, e não há conexão direta com o Brasil. A relevância, porém, é universal, porque mexe numa pergunta que interessa a qualquer um: até que ponto controlamos as nossas escolhas? Se o estado do corpo muda o valor que o cérebro atribui a um ganho, então decisões financeiras, profissionais e cotidianas nunca foram 100% racionais.

Os autores especulam que a técnica, por ser simples, barata e fácil de aprender, possa ajudar em contextos clínicos, como ansiedade, pânico e depressão, e em profissões de alta pressão, como emergência, esportes de elite e aviação. Isso é projeção para o futuro, não um resultado do experimento. O achado concreto é outro: a expiração prolongada muda a forma como o cérebro pesa recompensas.

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Por que isso importa?

Porque derruba a ideia de que decidimos apenas com a cabeça, como se o corpo fosse um veículo. O coração, guiado pela respiração, conversa com as regiões do cérebro que atribuem valor às opções. Respirar devagar, um gesto que não custa nada, é uma forma de mudar o tom dessa conversa. A descoberta também reforça que medidas do corpo, muitas vezes tratadas como ruído em estudos de economia e psicologia, são parte essencial do fenômeno.

Se você convive com ansiedade ou outro transtorno, uma observação honesta: técnicas de respiração podem complementar um acompanhamento, mas não substituem a avaliação de um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Respiração lenta pode influenciar decisões de risco?

Sim. No experimento, a respiração com expiração prolongada aumentou a aceitação de apostas com 50% de chance, em comparação com a respiração natural. O efeito foi medido em laboratório, com 41 adultos jovens.

Por que expirar devagar aumenta a propensão ao risco?

Porque a expiração prolongada ativa o sistema nervoso parassimpático e amplifica a sensibilidade à recompensa: o valor do ganho passa a pesar mais na decisão. A percepção de perdas não mudou.

O que a respiração lenta faz no cérebro?

Nas pessoas com maior aumento da variabilidade cardíaca, a respiração lenta fortaleceu a resposta cerebral ligada à recompensa em duas regiões: o córtex pré-frontal ventromedial e o precúneo.

Respiração lenta deixa a pessoa mais disposta a apostas?

Sim, no contexto do estudo. A técnica aumentou a proporção de escolhas arriscadas, mas não por imprudência: houve maior peso dado à recompensa, sem mudança na sensibilidade a perdas.

Como a respiração afeta a sensibilidade a recompensas?

Ela aumenta a influência da magnitude da recompensa sobre a escolha. No modelo estatístico, a interação entre a condição de respiração e a recompensa foi significativa (p < 0,001).

Expiração prolongada reduz a percepção de perdas?

Não, segundo o estudo. A interação entre respiração e magnitude da perda não foi estatisticamente significativa (p = 0,095), ou seja, não há evidência de que a técnica mude a aversão à perda.

Fontes

  • Huang, W. e colaboradores. “Slow breathing impacts inter-organ dynamics modulating brain function and risk behavior”. Acesso aberto, publicado on-line em 28 de maio de 2026.
  • Pré-registro do estudo no Open Science Framework: osf.io/4cbfz
  • Código e dados de análise disponíveis no Zenodo: 10.5281/zenodo.19454547
  • Materiais suplementares do artigo (figuras S1–S4 e tabelas S1–S3)

Foto: Михаил Крамор no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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