Resumo em 15 segundos
- Foram 3.256 participantes em 13 países de cinco continentes, com hipóteses e métodos registrados publicamente antes da coleta de dados.
- Ninguém foi perguntado diretamente se achava que o criminoso era ateu ou religioso.
- Comparar a taxa de erro entre as duas condições mede, de forma indireta, quão intuitivamente o crime é associado a cada categoria.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Diante da descrição de um assassino em série, pessoas de 13 países foram cerca de duas vezes mais propensas a associá-lo intuitivamente a um ateu do que a um religioso, e o mesmo viés apareceu entre os próprios ateus.
O estudo é de Will M. Gervais, Dimitris Xygalatas, Ryan T. McKay, Joseph Bulbulia e mais uma dezena de coautores, publicado em 7 de agosto de 2017 na Nature Human Behaviour, DOI 10.1038/s41562-017-0151.
Foram 3.256 participantes em 13 países de cinco continentes, com hipóteses e métodos registrados publicamente antes da coleta de dados.
O método é mais engenhoso do que parece
Este é o ponto que quase toda reportagem da época errou. Ninguém foi perguntado diretamente se achava que o criminoso era ateu ou religioso.
A pergunta feita a cada participante era outra, aparentemente inocente. Depois de ler a descrição do responsável pelos crimes, ele escolhia entre duas alternativas:
- (a) A pessoa é professora;
- (b) A pessoa é professora e [acredita / não acredita] em Deus.
Por que a opção (b) é sempre a resposta errada
A alternativa (b) é logicamente impossível de ser mais provável que a (a). A probabilidade de duas coisas serem verdadeiras ao mesmo tempo nunca supera a de apenas uma delas ser verdadeira.
Escolher (b) é o clássico erro de conjunção, descrito na literatura de julgamento e decisão. As pessoas cometem esse erro quando a descrição combinada “soa” mais representativa do personagem apresentado.
É exatamente isso que o desenho explora: cada participante viu apenas uma versão — metade com “acredita em Deus”, metade com “não acredita”. Comparar a taxa de erro entre as duas condições mede, de forma indireta, quão intuitivamente o crime é associado a cada categoria. O participante não tem como perceber o que está sendo medido.
Os números
A probabilidade estimada de erro de conjunção foi de 0,58 (intervalo de 95% de maior densidade posterior: 0,48 a 0,68) quando o alvo era ateu, contra 0,30 (0,25 a 0,34) quando o alvo era religioso.
Isso dá um risco relativo de 1,96 (1,53 a 2,37) — daí o “cerca de duas vezes mais propensas”. A probabilidade posterior de o efeito existir na direção observada foi superior a 0,999.

Os ateus também
O achado mais desconfortável está no subgrupo dos participantes que declararam crença zero em Deus (0 em uma escala de 0 a 100).
Entre eles, a taxa estimada de erro foi de 0,52 (0,40 a 0,64) para alvos ateus contra 0,28 (0,22 a 0,33) para alvos religiosos — risco relativo de 1,91, com probabilidade posterior acima de 0,999.
E o efeito persistiu em países altamente seculares: Austrália, China, República Tcheca, Holanda e Reino Unido, todos com probabilidade posterior acima de 0,98. Ou seja: ateus desses países também associaram assassinato em série mais a ateus do que a crentes.
Onde o efeito não apareceu
A variação entre países foi grande, e vale registrar os extremos com precisão.
Os coeficientes por país (inclinação aleatória do efeito do alvo) foram mais altos nos Emirados Árabes Unidos (2,06), em Singapura (2,02), na Índia (1,87) e nos Estados Unidos (1,66), contra 1,19 na média total.
No outro extremo, dois países ficaram compatíveis com ausência de efeito:
- Finlândia: 0,13, com intervalo de -0,14 a 0,43 — cruzando o zero;
- Nova Zelândia: 0,52, com intervalo de -0,06 a 1,08 — também cruzando o zero.
Não é só sobre crimes extremos
Uma objeção previsível seria que o resultado depende do exagero do cenário — assassinato em série é uma violação moral extrema, e talvez o viés só apareça nesse extremo.
Os autores testaram isso em um estudo suplementar, com uma transgressão banal: uma mulher janta em um restaurante, termina a refeição e vai embora sem pagar a conta.
O padrão se repetiu, mais fraco: erro de conjunção de 0,31 (0,22 a 0,40) para alvos que não creem em Deus, contra 0,19 (0,12 a 0,26) para os que creem, com probabilidade posterior de 0,99.
O mesmo estudo indicou que a inferência relevante é sobre a crença em Deus especificamente, e não sobre religiosidade em sentido amplo.
O que isso contraria
Duas expectativas caem por terra com esses dados.
A primeira é a das pesquisas de opinião. Enquetes recentes não encontram preconceito moral autodeclarado contra ateus em países altamente seculares. O experimento mostra que a ausência de relato não significa ausência de intuições — apenas que ninguém as declara.
A segunda é a previsão da psicologia social clássica, segundo a qual só os crentes teriam preconceito contra ateus, e a desconfiança desapareceria em sociedades seculares. Os dados contradizem as duas metades da previsão.
A conclusão dos autores é direta: a ascensão recente do secularismo em países ocidentais não apagou a intuição anti-ateísta. A influência da religião sobre o julgamento moral persiste, inclusive entre não crentes em sociedades seculares.
Ressalvas honestas
Três pontos que a divulgação costuma omitir.
A amostra não é representativa da população mundial: eram 69% mulheres, com idade entre 16 e 70 anos (média de 25 anos), incluindo amostras universitárias e de população geral, com mediana de 162 participantes por país. É diversidade cultural — não é uma pesquisa de opinião nacional.
O que se mede é uma intuição, e não comportamento. Cometer um erro de conjunção não é o mesmo que discriminar alguém na vida real, ainda que a literatura ligue as duas coisas.
E, como toda pesquisa séria, o trabalho tem histórico público: pré-registro em osf.io/f6tcr, dados e código abertos em osf.io/f0upy, e uma correção de autores publicada em 2018, DOI 10.1038/s41562-018-0322-7.
A avaliação dos pares
Na mesma edição, Adam B. Cohen e Jordan W. Moon, da Universidade Estadual do Arizona, publicaram um comentário sobre o trabalho, DOI 10.1038/s41562-017-0157.
O ponto que o estudo deixa em aberto — e que segue em disputa — é o mecanismo. Se a intuição é herança de normas pró-religiosas transmitidas culturalmente, se decorre de adaptações que ligavam crença a cooperação dentro do grupo, ou de alguma combinação, os dados não decidem.
O que eles decidem é o fato: a suspeita moral contra quem não crê é global, mensurável e sobrevive ao próprio descrédito — como acontece com outras crenças que persistem depois de deixarem de ser declaradas.
Perguntas frequentes
O que o estudo sobre preconceito contra ateus descobriu?
Que pessoas de 13 países foram cerca de duas vezes mais propensas a associar intuitivamente uma descrição de assassino em série a um ateu do que a um religioso — risco relativo de 1,96, com probabilidade posterior acima de 0,999.
Como o experimento foi feito?
Por uma tarefa de erro de conjunção. Após ler a descrição do criminoso, o participante escolhia entre “é professor” e “é professor e [acredita / não acredita] em Deus”. Ninguém foi perguntado diretamente sobre a religião do personagem.
Os ateus também têm esse preconceito?
Sim. Entre participantes que declararam crença zero em Deus, a taxa de erro foi 0,52 para alvos ateus contra 0,28 para alvos religiosos, com risco relativo de 1,91.
Em quais países o efeito não apareceu?
Finlândia e Nova Zelândia foram os únicos com intervalos compatíveis com ausência de efeito. Os coeficientes mais altos ficaram nos Emirados Árabes Unidos, Singapura, Índia e Estados Unidos.
O viés só aparece em crimes graves?
Não. Em um estudo suplementar com uma transgressão banal — sair de um restaurante sem pagar a conta — o padrão se repetiu, mais fraco: 0,31 contra 0,19, com probabilidade posterior de 0,99.
Quantas pessoas participaram?
3.256 participantes de 13 países em cinco continentes, com mediana de 162 por país, 69% mulheres e idades entre 16 e 70 anos.
Fontes
- Gervais, W. M.; Xygalatas, D.; McKay, R. T.; van Elk, M.; Buchtel, E. E.; Aveyard, M. et al. Global evidence of extreme intuitive moral prejudice against atheists. Nature Human Behaviour, 7 ago. 2017. DOI 10.1038/s41562-017-0151. Pré-registro em osf.io/f6tcr; dados e código em osf.io/f0upy.
- Gervais, W. M. et al. Author Correction: Global evidence of extreme intuitive moral prejudice against atheists. Nature Human Behaviour, v. 2, p. 425, 18 maio 2018. DOI 10.1038/s41562-018-0322-7.
- Cohen, A. B.; Moon, J. W. Psychology: Atheism and moral intuitions. Nature Human Behaviour, 7 ago. 2017. DOI 10.1038/s41562-017-0157.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





