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Ex-fumantes que usam vape têm risco 56% maior de câncer

Cigarro eletrônico câncer pulmão: estudo com 4,5 milhões de adultos mostra que ex-fumantes que usam vape têm risco 56% maior de câncer de pulmão e risco dobrado de morte.

Muitas pessoas acham que o cigarro eletrônico é melhor que cigarro convencional. Essa pesquisa mostra que essa ideia precisa ser urgentemente alterada.
Muitas pessoas acham que o cigarro eletrônico é melhor que cigarro convencional. Essa pesquisa mostra que essa ideia precisa ser urgentemente alterada.

Uma análise com 4,5 milhões de adultos sul-coreanos mostrou que ex-fumantes que adotam o cigarro eletrônico têm risco 56% maior de desenvolver câncer de pulmão do que quem abandona completamente o tabaco. O estudo saiu na Nature Medicine em junho de 2026.

Imagine trocar um veneno por outro achando que está seguro. Foi justamente essa lógica que os pesquisadores colocaram à prova: o que acontece com quem para de fumar, mas passa a usar o cigarro eletrônico (vape) no lugar?

O estudo coreano acompanhou 4.524.895 adultos com histórico de tabagismo que participaram do Programa Nacional de Triagem de Saúde da Coreia em 2018, com registros desde 2012. Eles foram classificados como fumantes ativos, ex-fumantes recentes ou ex-fumantes de longa data, e acompanhados até dezembro de 2023 para a ocorrência de câncer de pulmão e morte pela doença.

O que os números revelam

Ao comparar os ex-fumantes que adotaram o vape diariamente com os que largaram completamente o tabaco, os dados foram contundentes:

  • Incidência de câncer de pulmão: risco ajustado (aHR) de 1,56 (intervalo de confiança de 95%: 1,24–1,97) — ou seja, 56% maior.
  • Morte por câncer de pulmão: aHR de 2,00 (IC 95%: 1,28–3,15) — o dobro.
  • Subgrupo de alto risco: aHR de 1,91 para incidência e 1,92 para mortalidade.

O ponto mais incômodo: não houve diferença relevante entre quem parou de fumar há pouco tempo e quem estava abstêmio havia anos. Ou seja, o risco extra do vape não parece ser apenas uma “herança” do cigarro antigo.

“Embora a causalidade não possa ser estabelecida, esses achados sugerem que o uso de cigarro eletrônico após a cessação do tabagismo pode reduzir os benefícios da parada completa para a prevenção do câncer de pulmão”, afirmam os autores, liderados por Yeon Wook Kim.

Por que o aerossol do vape preocupa

O vape não queima tabaco, e por isso costuma ser vendido como “mais limpo”. Mas “menos sujo” não é o mesmo que “inofensivo”. O aerossol que o usuário inala não é vapor d’água: ele carrega compostos potencialmente cancerígenos, como formaldeído, acroleína e acetaldeído, além de metais pesados — níquel, cromo e chumbo — que se desprendem da resistência metálica aquecida do aparelho.

Em laboratório, esses compostos geram estresse oxidativo e dano ao DNA nas células das vias respiratórias — exatamente o tipo de lesão que está na origem do processo de formação de tumores. Uma revisão sistemática de 2025 reuniu fortes evidências de biomarcadores de genotoxicidade ligados ao vape.

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É importante a honestidade científica aqui: nessa mesma revisão, ainda não se observou aumento comprovado de câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram e só usam vape — provavelmente porque o produto é relativamente novo e o câncer leva décadas para aparecer. O estudo coreano, porém, não fala de quem nunca fumou: ele mostra que, para quem já tinha histórico de cigarro, trocar a abstinência total pelo vape mantém o risco lá em cima.

O que isso muda para a saúde pública

Boa parte das políticas atuais trata o cigarro eletrônico como uma estratégia de “redução de danos” para fumantes. O estudo não derruba totalmente essa ideia para quem não consegue parar de outra forma — mas acende um alerta: para quem já conseguiu parar, migrar para o vape pode sabotar justamente a proteção conquistada contra o câncer. A percepção de que o vape é “seguro” precisa ser reavaliada.

Os próprios autores reforçam que o trabalho é observacional e não prova causa e efeito — são necessários estudos em outras populações e com diferentes dispositivos. Ainda assim, o tamanho da amostra (milhões de pessoas) torna o sinal difícil de ignorar.

Perguntas frequentes

Vape causa câncer de pulmão?

A ciência ainda não provou uma relação direta de causa e efeito em humanos, mas as evidências se acumulam: o aerossol causa dano ao DNA em laboratório, e este estudo mostra risco maior de câncer de pulmão em ex-fumantes que usam vape em vez de parar de vez. Cautela é o caminho mais sensato.

Vape é mais seguro que o cigarro comum?

Provavelmente é menos nocivo que o cigarro de tabaco queimado, mas “menos nocivo” não significa “sem risco”. E, para quem já parou de fumar, voltar a inalar nicotina pelo vape adiciona um risco que não existiria na abstinência total.

Trocar o cigarro pelo vape ajuda a parar de fumar?

A evidência é mista. O objetivo final deveria ser abandonar a nicotina por completo. No Brasil, o SUS oferece tratamento gratuito para parar de fumar, com apoio comportamental e medicamentos aprovados — uma rota com eficácia comprovada e sem os riscos do aerossol.

O que tem no aerossol do cigarro eletrônico?

Além da nicotina, há solventes (propilenoglicol e glicerina), aromatizantes e subprodutos do aquecimento como formaldeído, acroleína e acetaldeído, além de partículas finas e traços de metais pesados.

Links e Transparência Científica

  • Referência principal: Kim YW e colaboradores. “Electronic cigarette use after smoking cessation and lung cancer risk.” Nature Medicine, 8 de junho de 2026.
  • Mecanismo e evidência de risco: “Evidence update on the cancer risk of vaping e-cigarettes: a systematic review”, Tobacco Induced Diseases (2025).
  • Nota editorial: conteúdo informativo adaptado do estudo original por Paulo Budri. Não substitui orientação médica. Se você quer parar de fumar, procure uma Unidade Básica de Saúde do SUS.

Foto: Geri Tech no Pexels

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