Se você toma melatonina para dormir, talvez acredite que está usando algo neutro: é um hormônio que o próprio corpo produz, vende-se sem receita e parece inofensivo. Um estudo apresentado na Scientific Sessions 2025, congresso da American Heart Association, traz um dado que incomoda: adultos com insônia que usaram melatonina por um ano ou mais tiveram cerca de 90% mais chance de receber o diagnóstico de insuficiência cardíaca em cinco anos do que quem nunca usou (4,6% contra 2,7%).
A relação entre melatonina e insuficiência cardíaca aparece como associação, não como causa comprovada. Mas o achado, feito em 130.828 adultos, é forte o bastante para acender um alerta sobre o uso prolongado do suplemento e para lembrar que “natural” não é sinônimo de “inofensivo”.
Os dados são do abstract MP2306, divulgado em 3 de novembro de 2025 e apresentado no congresso da American Heart Association, realizado de 7 a 10 de novembro em Nova Orleans, nos Estados Unidos. A pesquisa analisou cinco anos de prontuários eletrônicos de adultos com insônia, usando a base internacional TriNetX. O autor principal, Dr. Ekenedilichukwu Nnadi, é médico e chefe de residentes em medicina interna no SUNY Downstate/Kings County, em Brooklyn, Nova York. Como é um resumo de congresso, o estudo ainda não passou por revisão por pares e os resultados são considerados preliminares.
O hormônio do sono
A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, no cérebro, que ajuda a regular o ciclo de sono e vigília. Os níveis sobem no escuro e caem com a luz. A versão sintética, quimicamente idêntica à natural, é usada para tratar insônia, dificuldade de pegar no sono ou mantê-lo, e também jet lag, aquele descompasso depois de viagens longas.
Pense na melatonina como o sinal que o corpo dá para avisar que está na hora de dormir. O problema é quando esse sinal vem de fora, todos os dias, por anos. Será que o coração fica indiferente a isso? Foi exatamente essa pergunta que os pesquisadores tentaram responder.
Melatonina e insuficiência cardíaca: o que o estudo encontrou?
A análise comparou adultos com insônia que tinham registro de uso de melatonina por pelo menos um ano com outros que nunca tiveram o medicamento anotado no prontuário. Os grupos foram pareados por 40 fatores, como idade, sexo, raça, doenças do coração e do sistema nervoso, remédios, pressão arterial e índice de massa corporal. Quem já tinha insuficiência cardíaca ou usava outros soníferos, como benzodiazepínicos, ficou de fora.
Os resultados principais:
- Diagnóstico novo de insuficiência cardíaca em cinco anos: 4,6% no grupo da melatonina contra 2,7% no grupo de comparação. Isso representa cerca de 46 a cada 1.000 pessoas contra 27 a cada 1.000 — aproximadamente 90% mais chance.
- Análise mais rígida: quando os pesquisadores exigiram pelo menos duas prescrições de melatonina com 90 dias de intervalo, o risco ficou 82% maior. O resultado se manteve mesmo com critérios mais estritos.
- Hospitalização por insuficiência cardíaca: 19,0% contra 6,6% — quase 3,5 vezes mais no grupo que usou melatonina.
- Morte por qualquer causa: 7,8% contra 4,3%, quase o dobro.
No total, 65.414 participantes tinham usado melatonina por um ano ou mais. A idade média do grupo era de 55,7 anos e 61,4% eram mulheres.
Melatonina é segura? O alerta para quem toma
Por que isso importa para você? Porque a melatonina é um dos suplementos mais populares do mundo, vendido sem receita em farmácias, mercados e sites. Nos Estados Unidos, suplementos de venda livre não passam por aprovação do governo para garantir qualidade e consistência, cada marca pode variar em dosagem e pureza.
Ou seja: quem compra por conta própria pode estar tomando, por meses ou anos, um produto cuja segurança cardiovascular de longo prazo nunca foi testada de forma robusta. A frase do autor principal resume o incômodo:
“Suplementos de melatonina podem não ser tão inofensivos quanto se supõe.”
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios pesquisadores listam as limitações. A mais importante: este estudo não prova causa e efeito. “Insônia mais grave, depressão/ansiedade ou o uso de outros remédios para dormir podem estar ligados tanto ao uso de melatonina quanto ao risco cardíaco”, disse Nnadi.
Há também a questão dos registros. O banco de dados inclui países que exigem receita para melatonina (como o Reino Unido) e outros que não exigem (como os Estados Unidos). Como o uso foi identificado pelas anotações nos prontuários, quem compra o suplemento por conta própria ficaria, na prática, dentro do grupo de “não usuários” — o que pode distorcer os resultados.
Os números de hospitalização também foram maiores que os de diagnóstico inicial porque os códigos de internação podem incluir várias condições. E os pesquisadores não tinham dados sobre a gravidade da insônia nem sobre a presença de outros transtornos psiquiátricos. Por fim, o abstract não passou por revisão por pares: achado de congresso é importante, mas só vira evidência consolidada depois da publicação em revista científica.
Por que isso importa?
O estudo não diz que você deve jogar fora sua melatonina hoje. Ele diz que o uso prolongado merece uma conversa com um profissional de saúde. A especialista Dr. Marie-Pierre St-Onge, da Universidade Columbia, que não participou da pesquisa, resumiu a preocupação: “Fico surpreso que médicos prescrevam melatonina para insônia e pacientes usem por mais de 365 dias, já que a melatonina, pelo menos nos EUA, não é indicada para o tratamento de insônia.”
A melatonina pode ser útil em situações pontuais, como depois de uma viagem ou em períodos de sono desregulado. Mas tomar todo dia, por conta própria, sem indicação, é um hábito que esta pesquisa mostra não ser tão inocente. Se você usa melatonina há meses, vale revisar isso com um médico — não para automedicação, mas para entender se o suplemento é mesmo necessário e se há formas mais seguras de cuidar do sono. Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Fontes
- American Heart Association — Scientific Sessions 2025, Abstract MP2306 (Nova Orleans, 7 a 10 de novembro de 2025; release de 3 de novembro de 2025).
- Ekenedilichukwu Nnadi, M.D., autor principal, SUNY Downstate/Kings County Primary Care, Brooklyn, NY (declarações citadas no release).
- Marie-Pierre St-Onge, Ph.D., C.C.S.H., FAHA, Columbia University Irving Medical Center (comentário de especialista não envolvida no estudo).
- TriNetX Global Research Network (base de dados internacionais de prontuários usada na pesquisa).
DOI: não informado no material-fonte (resumo de congresso).
Perguntas frequentes
Melatonina faz mal ao coração?
O estudo não prova que a melatonina faça mal ao coração, mas encontrou associação: adultos com insônia que usaram o suplemento por um ano ou mais tiveram cerca de 90% mais chance de receber o diagnóstico de insuficiência cardíaca em cinco anos (4,6% contra 2,7%). O resultado acende um alerta, mas não confirma causa e efeito.
Melatonina pode causar insuficiência cardíaca?
Não é possível afirmar que a melatonina cause insuficiência cardíaca. O estudo encontrou uma associação, mas os próprios autores dizem que mais pesquisas são necessárias para avaliar a segurança cardiovascular do suplemento.
Quais os riscos do uso prolongado de melatonina?
Na pesquisa, o uso por um ano ou mais esteve associado a maior chance de diagnóstico de insuficiência cardíaca, de hospitalização por insuficiência cardíaca (19,0% contra 6,6%) e de morte por qualquer causa (7,8% contra 4,3%), em comparação com quem não usava melatonina.
Melatonina é segura para dormir?
A melatonina é um hormônio natural que ajuda a regular o sono e é amplamente vendida como suplemento, mas o estudo levanta preocupações sobre o uso crônico. Segundo os pesquisadores, faltam dados de segurança cardiovascular de longo prazo, e o suplemento não deve ser tomado cronicamente sem indicação adequada.
Melatonina aumenta o risco de morte?
No estudo, o grupo que usou melatonina por mais de um ano teve quase o dobro de risco de morrer por qualquer causa em cinco anos (7,8% contra 4,3%). O achado é uma associação; não há comprovação de causa e efeito.
Foto: Yaroslav Shuraev no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





