Jovens que usam cigarro eletrônico regularmente estão perdendo fôlego e capacidade física de forma silenciosa, e o prejuízo é comparável ao de quem fuma cigarro convencional. É o que revela um estudo feito com adultos jovens ativos e saudáveis, no qual os “vapers” apresentaram menor consumo de oxigênio no pico do esforço, ventilação menos eficiente e vasos sanguíneos com funcionamento comprometido.
O dado que mais chama a atenção é que esses sinais de alerta já estavam presentes em pessoas com apenas três anos, em média, de uso de cigarro eletrônico, antes de qualquer alteração aparecer nos exames de rotina.
A pesquisa, conduzida na Manchester Metropolitan University, no Reino Unido, comparou três grupos de 25 voluntários cada, todos com idade entre 18 e 30 anos: usuários exclusivos de cigarro eletrônico, fumantes exclusivos de cigarro tradicional e pessoas que nunca fumaram. Nenhum deles tinha doença cardíaca ou respiratória, e a espirometria (o exame básico de sopro) era normal em todos. O trabalho foi publicado no periódico científico ERJ Open Research, da Sociedade Europeia Respiratória. O DOI do estudo é 10.1183/23120541.00425-2026.
O que é dilatação mediada por fluxo e por que ela importa?
Um dos exames centrais da pesquisa foi a dilatação mediada por fluxo, ou FMD (do inglês flow-mediated dilation). A FMD mede a capacidade de uma artéria de se expandir quando o fluxo sanguíneo aumenta — uma espécie de teste de estresse do vaso. Na prática, o procedimento usa um aparelho de ultrassom com Doppler para avaliar a artéria braquial (no braço) antes, durante e depois de uma pausa de cinco minutos na circulação do antebraço. Quando o sangue volta a circular, a parede do vaso deveria se dilatar. Se ela não se dilata como esperado, isso indica que o endotélio — a camada de células que reveste os vasos por dentro — não está funcionando direito. Um endotélio preguiçoso é um sinal precoce de risco para infarto, aterosclerose e outras doenças cardiovasculares.
Vasos mais rígidos e marcadores de inflamação alterados
Os resultados mostraram que a FMD dos vapers era, em média, de 4,7%, e a dos fumantes de cigarro convencional, de 4,5%. Nos controles que nunca fumaram, a dilatação chegava a 8,1%. “Tanto os usuários de cigarro eletrônico quanto os fumantes de cigarro convencional apresentaram redução significativa da FMD em comparação com os controles”, escrevem os autores. Para se ter uma ideia, a capacidade de dilatação dos vasos nos grupos que usam nicotina ficou quase pela metade em relação ao grupo saudável.
Os exames de sangue ajudaram a entender o que está por trás desse endurecimento vascular. O estudo mediu marcadores de inflamação e ativação do endotélio, como a VCAM-1 (molécula de adesão celular vascular-1) e a trombospondina-2. A VCAM-1 estava mais alta nos usuários de cigarro eletrônico, e a trombospondina-2 estava elevada tanto nos vapers quanto nos fumantes de cigarro comum em relação aos controles — 4,44 ng/ml e 3,94 ng/ml contra 2,14 ng/ml, respectivamente. A superexpressão dessas moléculas sugere um processo inflamatório na parede dos vasos parecido nos dois grupos. “A superexpressão similar de VCAM-1 e trombospondina-2 em vapers e fumantes pode indicar que o uso de cigarro eletrônico e o tabagismo têm efeitos comparáveis na promoção da inflamação vascular”, aponta o artigo.
Vape reduz fôlego e resistência em usuários jovens ativos
Além dos vasos, o estudo investigou o que acontece com o corpo durante o exercício. Os participantes fizeram um teste cardiopulmonar de esforço máximo numa bicicleta ergométrica, com aumento de carga a cada dois minutos. Foram medidos o consumo de oxigênio, a ventilação, o lactato no sangue e a percepção de cansaço e falta de ar.
O consumo máximo de oxigênio — o chamado V̇O2 de pico, que é o principal indicador da capacidade cardiorrespiratória — foi menor nos dois grupos de usuários de nicotina. Os vapers atingiram 35,1 mL por quilo por minuto (mL·kg⁻¹·min⁻¹), e os fumantes, o mesmo valor de 35,1 mL·kg⁻¹·min⁻¹. Os não fumantes chegaram a 41,2 mL·kg⁻¹·min⁻¹. A carga máxima alcançada também foi inferior: 182 watts para o grupo do cigarro eletrônico e 178 watts para o do cigarro tradicional, contra 219 watts dos controles saudáveis.
A perda de desempenho não se limitou ao pico do esforço. Durante as cargas submáximas — aquelas do dia a dia, como subir uma ladeira ou pedalar com pressa — os vapers e fumantes já mostravam níveis mais altos de lactato no sangue, um sinal de que os músculos estavam recorrendo mais à via anaeróbica (menos eficiente e que gera fadiga) para dar conta da mesma tarefa. A ventilação (a quantidade de ar que entra e sai dos pulmões) também foi menor no esforço máximo nos dois grupos que usam nicotina em comparação aos controles. “O prejuízo no preparo cardiorrespiratório em vapers e fumantes pode ser atribuído a alterações nas funções vascular e muscular esquelética”, afirmam os pesquisadores, já que os níveis de atividade física de base eram equivalentes entre os grupos.
A respiração que não rende: ineficiência ventilatória
Um dos achados mais reveladores do estudo foi a piora na eficiência ventilatória. A eficiência ventilatória mede quanto de ar a pessoa precisa ventilar para eliminar uma determinada quantidade de gás carbônico (CO₂). Quanto mais ar for necessário para a mesma quantidade de CO₂, menos eficiente está a troca gasosa.
Os vapers e fumantes apresentaram valores mais altos da relação ventilação/produção de CO₂ (V̇E/V̇CO₂) em cargas submáximas e no nadir (o ponto mais baixo dessa relação durante o teste). O nadir do V̇E/V̇CO₂ foi de 29,2 nos usuários de cigarro eletrônico e 29,9 nos fumantes, contra 27,3 nos controles — uma diferença que pode parecer pequena, mas que, em fisiologia do exercício, é usada como marcador de prognóstico em doenças pulmonares e cardíacas. A inclinação da relação V̇E/V̇CO₂ — outro indicador importante — foi significativamente mais acentuada nos fumantes de cigarro comum e marginalmente mais acentuada nos vapers.
Para completar, a sensação de falta de ar (dispneia) e o desconforto nas pernas durante o esforço foram maiores nos dois grupos expostos à nicotina, tanto em cargas iguais de trabalho quanto em níveis iguais de ventilação. “O aumento da demanda ventilatória no exercício submáximo pode compensar alguma piora na troca gasosa, mas isso tem um custo: maior trabalho respiratório e mais dispneia”, explicam os autores.
Por que isso importa, mesmo que você não fume?
A ideia de que o cigarro eletrônico seria uma alternativa “segura” ou “quase inofensiva” ao cigarro tradicional ainda circula com força, sobretudo entre jovens. O estudo de Manchester desmonta essa percepção ao mostrar que os danos vasculares e respiratórios do vape não são uma ameaça teórica de longo prazo: eles já são mensuráveis em adultos jovens ativos, com exames de rotina normais, após cerca de três anos de uso. E os danos são estatisticamente indistinguíveis dos causados pelo cigarro convencional — inclusive nos níveis de cotinina (o metabólito da nicotina), que foram similares entre os dois grupos: 80,7 ng/ml nos vapers e 65,5 ng/ml nos fumantes.
Os próprios autores destacam a relevância da mensagem para a saúde pública: “Nossos achados fornecem informação crítica para a comunidade em geral, profissionais de saúde e autoridades regulatórias sobre os riscos precoces associados ao uso de cigarro eletrônico, especialmente entre o número alarmante de jovens adultos que nunca fumaram e optam por consumir esses produtos”.
O que o estudo ainda não consegue explicar?
Os pesquisadores são os primeiros a apontar as limitações do trabalho. O desenho transversal (que tira uma foto de um momento no tempo, em vez de acompanhar os participantes por anos) impede afirmar que o vape causou diretamente as alterações observadas — ele mostra uma associação forte e consistente, mas não estabelece causalidade definitiva.
Outra dificuldade está na imensa variedade de dispositivos e líquidos usados no vaping. A composição dos e-líquidos e a concentração de nicotina variam muito, o que torna difícil quantificar com precisão a carga de exposição de cada usuário. Embora a frequência de uso tenha sido calculada, os autores reconhecem que “houve uma ampla gama de composições de e-líquido e quantidades de nicotina nos dispositivos de vaping”.
A pesquisa também não mediu a capacidade de difusão pulmonar (DLCO), um exame que avalia a passagem de oxigênio dos alvéolos para o sangue. Estudos anteriores do mesmo grupo já tinham mostrado DLCO reduzida em fumantes com espirometria normal, e os pesquisadores acreditam que isso provavelmente se repita nos vapers. Além disso, o nível de atividade física foi avaliado por questionário, e não por acelerômetro (um sensor que mede o movimento real). Ainda assim, os autores ressaltam que, em pesquisas anteriores com populações semelhantes, o uso de acelerômetros não revelou diferenças significativas de atividade física entre fumantes com espirometria normal e controles saudáveis — o que torna improvável que o sedentarismo explique os resultados encontrados.
Perguntas frequentes
Vape causa falta de ar durante o exercício?
O estudo mostrou que usuários de cigarro eletrônico relataram mais falta de ar (dispneia) e cansaço nas pernas durante o esforço físico, em comparação com não fumantes com o mesmo nível de atividade. A ventilação menos eficiente e o acúmulo mais rápido de lactato ajudam a explicar essa sensação ampliada de desconforto.
O cigarro eletrônico reduz a capacidade física?
Sim. No teste de esforço máximo, os jovens que usavam vape tiveram um consumo de oxigênio de pico de 35,1 mL·kg⁻¹·min⁻¹, contra 41,2 mL·kg⁻¹·min⁻¹ dos não fumantes — uma queda significativa na capacidade cardiorrespiratória.
Quais os efeitos do vape nos vasos sanguíneos?
A pesquisa observou que a dilatação mediada por fluxo das artérias (FMD) ficou quase pela metade em usuários de vape comparados a não fumantes, junto com o aumento de marcadores de inflamação vascular, como a VCAM-1 e a trombospondina-2. Isso indica um prejuízo precoce na função dos vasos.
Cigarro eletrônico é tão ruim quanto cigarro normal para o fôlego?
Os dados do estudo não encontraram diferença estatística entre os dois grupos nos principais indicadores respiratórios e vasculares analisados. Tanto vapers quanto fumantes de cigarro convencional apresentaram redução similar da capacidade de exercício, da eficiência ventilatória e da função dos vasos.
O que é dilatação mediada por fluxo (FMD)?
A FMD é uma medida por ultrassom da capacidade de uma artéria de se expandir quando o fluxo de sangue aumenta. Ela avalia a saúde do endotélio, a camada de células que reveste os vasos. Uma FMD reduzida é um sinal precoce de risco cardiovascular.
Fontes
- Estudo original: Jafar, R. T. et al. Reduced vascular function, ventilatory efficiency, and exercise capacity in young adult E-cigarette users. ERJ Open Research, 2026. DOI: 10.1183/23120541.00425-2026
Foto: Nur Andi Ravsanjani Gusma no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.




