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Florestas urbanas e saúde mental: o que a Escócia descobriu?

Acompanhar 129 mil escoceses mostrou: viver perto de florestas urbanas revitalizadas reduziu prescrições de antidepressivos em 10% e ansiolíticos em 6%.

Trilha em floresta urbana com árvores e luz natural, tema do estudo sobre florestas urbanas e saúde mental
Trilha em floresta urbana com árvores e luz natural, tema do estudo sobre florestas urbanas e saúde mental

Um retrato de 129 mil escoceses ao longo de cinco anos mostrou que florestas urbanas e saúde mental andam juntas, mas de um jeito que uma olhada rápida pode esconder. Quando a mesma pessoa passou a viver a até 800 metros (cerca de 10 minutos de caminhada) de uma floresta revitalizada, a chance de ela receber prescrição de antidepressivos caiu 10% em termos relativos; a de ansiolíticos, 6%.

O detalhe contraintuitivo? Na comparação entre pessoas diferentes, morar perto das florestas aparecia associado a mais remédios, não a menos. A explicação está em quem o programa beneficiou: as áreas mais carentes da Escócia. Entender essa diferença é mais do que uma curiosidade estatística, é o que permite transformar uma melhoria urbana em política pública de saúde mental.

Dados do estudo

O artigo “Investigating the relationship between urban woodland improvements and mental health in Scotland: a natural experiment using linked longitudinal national administrative datasets” foi escrito por Scott Ogletree, Antonio Ross-Perez, Tom Clemens, Jamie Pearce, Rich Mitchell e Catharine Ward Thompson, e publicado em acesso aberto, na modalidade online first, em 13 de agosto de 2026. O financiamento veio do Economic and Social Research Council (ESRC) e do GroundsWell Consortium, uma parceria do UK Prevention Research Partnership. Os autores declararam não ter conflitos de interesse.

Florestas urbanas e saúde mental em um experimento natural

Um experimento natural é um estudo em que os pesquisadores não controlam a intervenção, ela acontece na vida real, e eles apenas observam quem foi afetado e quem não foi. No caso, o governo escocês financiou melhorias em florestas urbanas perto de áreas carentes; os cientistas não plantaram árvore nenhuma. A comparação entre quem morava perto e quem morava longe criou, na prática, algo parecido com um laboratório ao ar livre.

O programa estudado é o Woods In And Around Town (WIAT), ou “Florestas Dentro e Ao Redor das Cidades”, financiado pela Scottish Forestry. As florestas elegíveis ficavam a até 1 km de uma cidade com pelo menos 2 mil habitantes e dentro das 15% áreas mais carentes da Escócia. As melhorias tinham dois lados: obras físicas (trilhas novas ou reformadas, sinalização, entradas) e eventos de comunidade para incentivar o uso (dias de lazer em família, oficinas de fotografia).

O que o estudo encontrou: dois retratos, dois resultados?

A pesquisa acompanhou 129.335 adultos entre 2012 e 2016, com dados mensais de residência e de prescrições do sistema público de saúde escocês (NHS). No total, foram 7.424.527 observações de “mês-pessoa” — ou seja, cada mês de cada pessoa contou como um registro.

Eles fizeram duas perguntas diferentes. A primeira compara pessoas que moram perto da floresta melhorada com pessoas que moram longe (análise entre indivíduos). A segunda compara a mesma pessoa com ela mesma, em momentos diferentes (análise dentro do indivíduo).

Na primeira comparação, morar a até 800 metros de uma floresta WIAT apareceu associado a um risco 10% maior (razão de chances ajustada de 1,10; intervalo de confiança de 95%: 1,03 a 1,20) de prescrição de antidepressivos. Nos dados brutos, isso representa 10,71% dos meses com prescrição entre quem morava perto, contra 10,34% entre quem morava longe. Para ansiolíticos, não houve diferença significativa.

Na segunda comparação, o cenário mudou. Quando a mesma pessoa passou a viver dentro da área de 800 metros de uma floresta melhorada, o risco de prescrição de antidepressivos caiu 10% (0,90; IC 0,87 a 0,93; p<0,01), e o de ansiolíticos, 6% (0,94; IC 0,90 a 0,99; p<0,05). Essa redução é relativa: compara a chance daquele indivíduo em dois momentos, e o estudo não informa a taxa absoluta dessa queda.

Os autores também testaram distâncias maiores: 1.200, 1.600 e 2.000 metros. O efeito sobre antidepressivos foi diminuindo, e o efeito sobre ansiolíticos deixou de ser significativo. Ou seja, o benefício aparece mesmo na vizinhança próxima, a uma caminhada de 10 minutos.

Por que as áreas carentes se beneficiam mais?

O resultado “invertido” da primeira análise tem uma explicação: o programa WIAT foi desenhado para atacar justamente as áreas mais carentes. Quem vive nelas tende a ter pior saúde mental e mais barreiras para usar espaços verdes. Então, num retrato estático, morar perto da floresta melhorada aparece ligado a mais remédios — não por causa da floresta, mas por causa do perfil socioeconômico de quem mora ali.

Ao acompanhar a mesma pessoa ao longo do tempo, esse “ruído” de seleção desaparece, porque cada um vira seu próprio controle. Os pesquisadores argumentam que essa é a evidência mais confiável para políticas públicas: a melhoria da floresta foi associada a menos remédios dentro do mesmo indivíduo.

Esse contraste é um alerta: estudos que comparam apenas diferentes pessoas em um único momento podem concluir que uma intervenção “não funciona”, ou até que faz mal, como pareceram sugerir os números de antidepressivos. O desenho longitudinal muda a história.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores listam limitações importantes. Primeiro, prescrição de remédio é um retrato incompleto da saúde mental: não mostra quando os sintomas melhoraram ou pioraram de fato, e ignora variações na forma como médicos prescrevem e o crescimento do atendimento privado.

Segundo, o estudo não sabe se as pessoas realmente passaram a frequentar mais as florestas depois da melhoria. O programa queria aumentar esse contato, mas o dado usado foi só a distância da casa até a floresta. Também não foi possível saber, para cada floresta, qual tipo de obra foi feita: limpeza, trilha, evento comunitário, então não dá para apontar qual intervenção específica trouxe o benefício.

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Terceiro, a distância foi calculada em linha reta do centro do código postal até a borda da floresta. Isso não reflete o caminho real que uma pessoa faria, nem barreiras como avenidas ou muros. Por fim, o estudo foi feito na Escócia, que tem sistema universal de saúde, prescrições gratuitas desde 2011, bastante cobertura de floresta e um clima específico, o que pode limitar a comparação com outros países.

Por que isso importa para você e para qualquer cidade?

A gente tende a pensar que saúde mental se resolve só no consultório. Mas estima-se que uma em cada oito pessoas no mundo tenha algum problema de saúde mental. Diante de uma escala assim, nenhum sistema de saúde dá conta sozinho. O estudo escocês reforça a ideia de que intervenções ambientais, melhorando o que já existe, com custo relativamente baixo, podem funcionar como prevenção em nível populacional, principalmente nas áreas onde a carga de sofrimento psíquico é maior.

Os autores lembram que o benefício pode vir acompanhado de um risco: a “gentrificação verde”, quando a valorização do bairro após a revitalização expulsa justamente quem mais precisava do espaço. Por isso, políticas de melhoria de áreas verdes precisam caminhar junto com proteção aos moradores de baixa renda.

No fim, a mensagem é simples e poderosa: uma floresta bem cuidada na porta de casa pode ser uma forma de cuidar da saúde mental de uma cidade inteira, sem receita, sem efeito colateral. O caminho até ela talvez seja parte do remédio.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Viver perto de florestas urbanas reduz a depressão?

Segundo o estudo escocês, sim, quando se acompanha a mesma pessoa ao longo do tempo: viver a até 800 metros (uns 10 minutos de caminhada) de uma floresta urbana melhorada foi associado a uma redução relativa de 10% nas prescrições de antidepressivos e de 6% nas de ansiolíticos. O estudo mediu prescrições, não diagnósticos de depressão, então a resposta vale para esse desfecho específico.

Por que o estudo mostra mais antidepressivos perto das florestas?

Porque o programa WIAT priorizou as áreas mais carentes da Escócia. Quem mora nessas áreas tende a ter pior saúde mental, então, na comparação entre pessoas diferentes, morar perto da floresta aparecia associado a mais remédios. Quando a mesma pessoa é comparada com ela mesma ao longo do tempo, essa associação se inverte e a proximidade passa a aparecer ligada a menos remédios.

Como áreas verdes afetam a saúde mental?

Os autores não mediram o mecanismo, mas citam caminhos possíveis: aumento de atividade física, conexão com a natureza e interação social. Eles reforçam que não há dados, neste estudo, sobre quanto as pessoas passaram a usar as florestas após as melhorias.

O que o estudo da Escócia sobre florestas urbanas descobriu?

Que um programa real de melhorias em florestas urbanas, voltado a áreas carentes, foi associado, dentro das mesmas pessoas ao longo do tempo, a menos prescrições de antidepressivos e ansiolíticos. Foi o primeiro estudo nacional, até onde os autores sabem, a avaliar uma intervenção desse tipo com dados administrativos e desenho longitudinal.

Morar perto de parques reduz o uso de antidepressivos?

O estudo não avaliou parques, e sim florestas urbanas melhoradas pelo programa WIAT. Para esse tipo de espaço, viver a até 800 metros foi associado a menor uso de antidepressivos pela mesma pessoa ao longo do tempo (redução relativa de 10%).

Fontes

  • Ogletree, S., Ross-Perez, A., Clemens, T., Pearce, J., Mitchell, R. & Ward Thompson, C. (2026). Investigating the relationship between urban woodland improvements and mental health in Scotland: a natural experiment using linked longitudinal national administrative datasets. Artigo online first, 13 de agosto de 2026, acesso aberto.
  • Scottish Longitudinal Study (SLS): amostra de 5,3% da população escocesa, com vínculo entre censos, registros residenciais e dados de saúde.
  • National Health Service (NHS) Scotland: Prescription Information System, fonte dos registros de prescrições de antidepressivos e ansiolíticos.
  • Scottish Forestry: dados geoespaciais do programa Woods In And Around Town (WIAT), incluindo os locais das florestas melhoradas entre 2005 e 2018.

Foto: Andy Lee no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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