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Vacina de mRNA contra melanoma: o que mostrou o 1º estudo?

Vacina de mRNA contra melanoma reduziu em 44% o risco de recorrência no estudo KEYNOTE-942. Entenda como funciona e o que falta para chegar ao consultório.

Ilustração da vacina de mRNA contra melanoma, tratamento personalizado que reduziu a recorrência do câncer em estudo clínico.
Ilustração da vacina de mRNA contra melanoma, tratamento personalizado que reduziu a recorrência do câncer em estudo clínico.

Uma vacina de mRNA contra melanoma, fabricada sob medida a partir das mutações do tumor de cada paciente, mostrou resultado positivo pela primeira vez em um ensaio clínico randomizado. No estudo KEYNOTE-942, a vacina mRNA-4157 (V940) combinada ao pembrolizumabe reduziu em cerca de 44% o risco de recorrência ou morte em quem já tinha feito cirurgia para retirar o melanoma. Em 18 meses, 79% dos pacientes do grupo da combinação estavam livres de recorrência, contra 62% do grupo que recebeu apenas a imunoterapia padrão.

O marco não é só o número: é a ideia de uma vacina pessoal contra o câncer deixando o terreno da ficção científica. A plataforma de mRNA que ajudou a produzir a vacina da COVID-19 foi reaproveitada para ensinar o sistema imunológico a reconhecer as “assinaturas” únicas de cada tumor, segundo os autores.

O estudo KEYNOTE-942 tem como primeiro autor Jeffrey S. Weber, com pesquisadores de várias instituições dos Estados Unidos e da Austrália, e foi publicado na revista The Lancet em fevereiro de 2024. O ensaio foi financiado pela Moderna em colaboração com a Merck Sharp & Dohme e está registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT03897881. DOI: 10.1016/S0140-6736(23)02268-7.

O que é e como funciona a vacina de mRNA contra melanoma?

Um termo técnico importante: neoantígenos. São moléculas que surgem de mutações específicas do câncer e que o sistema imunológico consegue enxergar como estranhas. O problema é que cada tumor tem um conjunto diferente de mutações. A mRNA-4157 (V940) é uma vacina de mRNA feita sob medida para cobrir até 34 neoantígenos daquele paciente, entregues numa nanopartícula lipídica, uma espécie de “embalagem” de gordura que protege o mRNA.

Funciona assim: o mRNA entra nas células e instrui a produção de pedaços desses neoantígenos, que são apresentados na superfície celular como se fossem cartazes de procurado. O sistema imunológico aprende a identificar as células do tumor e passa a atacá-las. No estudo, a vacina foi combinada com pembrolizumabe, um inibidor de checkpoint, que tira o “freio de mão” das defesas do corpo. Enquanto a vacina ensina o alvo, o pembrolizumabe libera o ataque.

Melanoma ressecado, por sua vez, é o melanoma que foi completamente retirado por cirurgia. Mesmo assim, o risco de o câncer voltar é alto: estudos citados pelos autores indicam que cerca de 50% dos pacientes com melanoma estágio III têm recorrência em 5 anos após a ressecção. Daí a necessidade de um tratamento adjuvante, complementar à cirurgia.

O que o estudo encontrou?

O estudo incluiu 157 pacientes com melanoma cutâneo de alto risco (estágios IIIB a IV) que já tinham passado por ressecção completa do tumor. Eles foram divididos numa proporção de 2 para 1: 107 receberam a vacina mais pembrolizumabe, e 50 receberam apenas pembrolizumabe, em ciclos de três semanas (até 9 doses da vacina e até 18 doses do pembrolizumabe). O acompanhamento durou cerca de 23 a 24 meses.

Os resultados mostraram uma redução de cerca de 44% no risco de recorrência ou morte no grupo da combinação: o hazard ratio foi de 0,561 (intervalo de confiança de 95% entre 0,309 e 1,017; p=0,053). Em termos absolutos, 24 (22%) dos 107 pacientes do grupo combinado tiveram recorrência ou morte, contra 20 (40%) dos 50 pacientes do grupo só com pembrolizumabe. Os autores também relatam melhora clinicamente significativa na sobrevida livre de metástases à distância.

Efeitos colaterais e segurança da combinação

A segurança foi considerada administrável. A maioria dos eventos adversos relacionados ao tratamento foi de grau 1 ou 2, os mais leves. Eventos de grau 3 ou mais ocorreram em 25% dos pacientes do grupo da combinação, contra 18% do grupo da monoterapia. Nenhum evento de grau 4 ou 5 foi atribuído especificamente à vacina mRNA-4157. Já os eventos adversos de origem imunológica apareceram na mesma proporção nos dois grupos: 36%.

O que o estudo ainda não explica?

Antes de comemorar, vale olhar para os limites do ensaio. O KEYNOTE-942 é um estudo de fase 2b, aberto, o que significa que médicos e pacientes sabiam qual tratamento estava sendo dado. O valor de p ficou em 0,053, pouco acima do limite convencional de 0,05, e o intervalo de confiança encosta em 1,017 — ou seja, o benefício pode ser menor do que a média sugere. Os autores escrevem que a terapia “pode ser benéfica” no contexto adjuvante, com linguagem de quem ainda não faz afirmações definitivas.

É um estudo com 157 pacientes, pensado para dar sinais, não para encerrar a questão. Os próprios autores afirmam que este é, pelo que se sabe, o primeiro ensaio randomizado a mostrar benefício clinicamente significativo de uma terapia individualizada de neoantígenos. Uma fase 3 registracional já foi iniciada (NCT05933577), com desenho maior, para confirmar o achado.

O que isso significa para os pacientes e para a ciência?

O estudo foi feito nos Estados Unidos e na Austrália, mas a pergunta que ele responde é universal: como tratar um câncer que muda de pessoa para pessoa? A ideia de tratar cada tumor como um caso único é um dos maiores desafios da oncologia, e a vacina personalizada é uma resposta direta a esse desafio. Se a fase 3 confirmar o que o KEYNOTE-942 sugeriu, a vacina pode se tornar mais uma ferramenta no tratamento adjuvante do melanoma de alto risco, ao lado da cirurgia e da imunoterapia.

Para o paciente, o recado é de cautela com esperança: a vacina ainda não está disponível na rotina clínica e, no estudo, ela foi usada como complemento ao tratamento padrão, não no lugar dele.

Por que isso importa?

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Vacinas de mRNA ficaram conhecidas no combate ao coronavírus, mas o potencial dessa tecnologia sempre foi mais amplo. Este estudo mostra, na prática, que dá para usar a plataforma de forma individualizada, contra um alvo tão mutante quanto o câncer. Antes, as vacinas contra o câncer usavam antígenos compartilhados por muitos tumores e não mostraram benefício. A aposta agora é na precisão: em vez de um mesmo tratamento para todo mundo, um tratamento desenhado a partir do tumor de cada pessoa.

O caminho até o consultório ainda tem etapas. Mas o KEYNOTE-942 entra para a história como o primeiro ensaio randomizado a indicar que uma vacina de mRNA personalizada pode, de fato, fazer diferença na vida de pacientes com melanoma. A história da medicina está cheia de tratamentos que começaram como “talvez”. Este é um daqueles momentos em que o talvez ganhou um número.

Perguntas frequentes

O que é a vacina de mRNA contra melanoma?

É uma vacina personalizada de mRNA (a mRNA-4157, também chamada V940) que codifica até 34 neoantígenos do tumor de cada paciente e é combinada com pembrolizumabe para ajudar o sistema imunológico a reconhecer e atacar o melanoma.

Como funciona a vacina personalizada de mRNA?

O mRNA da vacina entra nas células e instrui a produção de pedaços dos neoantígenos do tumor, que são apresentados na superfície celular. Com isso, o sistema imunológico aprende a reconhecer as células cancerosas como alvo e as ataca, potencializado pelo pembrolizumabe.

Vacina de mRNA contra melanoma funciona?

No estudo KEYNOTE-942, a combinação reduziu em cerca de 44% o risco de recorrência ou morte (hazard ratio 0,561), com 79% dos pacientes livres de recorrência em 18 meses, contra 62% no grupo de comparação. Mas o resultado ainda precisa ser confirmado em estudo de fase 3, e o valor de p foi 0,053.

O que é pembrolizumabe?

É um inibidor de checkpoint, um tipo de imunoterapia que atua “tirando o freio” do sistema imunológico para que ele ataque o tumor. Ele é usado no tratamento adjuvante de melanoma ressecado de alto risco.

Quais os efeitos colaterais da vacina de mRNA para melanoma?

No estudo, a maioria dos eventos adversos relacionados ao tratamento foi de grau 1 ou 2. Eventos de grau 3 ou mais ocorreram em 25% dos pacientes do grupo da combinação, contra 18% do grupo só com pembrolizumabe, e nenhum evento grau 4 ou 5 foi atribuído à vacina mRNA-4157.

O que é melanoma ressecado?

É o melanoma que foi completamente retirado por cirurgia. Mesmo assim, o risco de o câncer voltar é alto: estudos citados pelos autores mostram cerca de 50% de recorrência em 5 anos no melanoma estágio III após a ressecção.

Fontes

  • Weber JS, et al. Individualised neoantigen therapy mRNA-4157 (V940) plus pembrolizumab versus pembrolizumab monotherapy in resected melanoma (KEYNOTE-942): a randomised, phase 2b study. The Lancet, 2024. DOI: 10.1016/S0140-6736(23)02268-7
  • Terai M, Sato T. Individualised neoantigen cancer vaccine therapy. The Lancet, 2024.
  • Ott PA, et al. An immunogenic personal neoantigen vaccine for patients with melanoma. Nature, 2017.
  • Vansteenkiste JF, et al. Efficacy of the MAGE-A3 cancer immunotherapeutic as adjuvant therapy in patients with resected MAGE-A3-positive non-small-cell lung cancer (MAGRIT). Lancet Oncology, 2016.

Foto: https://kaboompics.com/ no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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