Você já reparou na calçada do seu bairro? Se ela é larga, sombreada por árvores, tem rampas de acesso e faixas de pedestre bem sinalizadas, há uma chance enorme de você ter diploma de curso superior, pele clara e mais de 60 anos. O que parece um detalhe urbano é, na verdade, um dos retratos mais nítidos da desigualdade brasileira, e um estudo inédito acaba de colocar uma lupa sobre isso.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo foram a campo (ou melhor, às imagens de satélite e ao Google Street View) para medir, centímetro por centímetro, a qualidade do ambiente ao redor da casa de 1.434 adultos paulistanos. Eles não olharam só se havia uma calçada, mas como ela era: se havia árvores, bancos, iluminação, lixo, buracos, comércio por perto, sinalização.
O resultado escancarou um abismo: as melhores estruturas para caminhar e se exercitar ao ar livre se concentram nas regiões centrais e nos bolsos da cidade onde mora gente com mais estudo e pele mais clara.
O levantamento integra a coorte ISA–Atividade Física e Ambiente, liderada pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, com dados coletados entre 2020 e 2021.
A análise do ambiente em microescala foi publicada em artigo científico que tem como primeiro autora Elaynne Silva de Oliveira, e está disponível na literatura com o título original: “Differences in the microenvironment for leisure physical activity and commuting in São Paulo”.
O que a gente chama de microescala? Por que ela interfere na sua saúde?
Antes de mostrar os números, vale traduzir o termo. Quando urbanistas e epidemiologistas falam em “microescala do ambiente construído”, estão se referindo àquilo que está bem debaixo do seu nariz quando você sai de casa: a largura e a conservação da calçada, a presença de uma árvore que faz sombra, a rampa na esquina, a faixa de pedestres, o poste de luz, a placa de trânsito, o grafite na parede. É o detalhe que faz você se sentir seguro — ou não — para caminhar até a padaria ou dar uma volta no quarteirão.
O método usado no estudo se chama MAPS Global (Microscale Audit of Pedestrian Streetscapes), uma ferramenta internacional que funciona como um checklist minucioso: 148 itens são avaliados em cada rota. Auditores treinados percorrem virtualmente as ruas pelo Google Street View, registrando o que existe e em que estado está. “Não é se o bairro tem parque; é se a calçada que leva até ele é caminhável”, resume o raciocínio.
Como o estudo radiografou as ruas de São Paulo?
A equipe georreferenciou 1.205 endereços residenciais dos participantes e, a partir de cada um, traçou uma rota de 400 a 725 metros, a distância que a maioria das pessoas consegue percorrer em até dez minutos a pé.
As vias foram inspecionadas nos dois lados, totalizando 11.276 segmentos de rua e 11.222 cruzamentos analisados. O trabalho consumiu, em média, 25,8 minutos por rota e se estendeu de dezembro de 2020 a setembro de 2022.
Os resultados foram agrupados em escalas que medem coisas como uso misto do solo (se há comércio e serviços perto das casas), estética, infraestrutura para pedestres, presença de árvores, qualidade das calçadas, acessibilidade e segurança nos cruzamentos. Cada pessoa recebeu uma nota para o ambiente ao redor da sua residência.
Centro de São Paulo lidera; extremos sul e leste ficam para trás
A primeira desigualdade que salta aos olhos é geográfica. Os moradores da região Centro-Oeste — que abrange bairros como Pinheiros, Jardins, Bela Vista e Butantã — desfrutam dos maiores escores gerais de ambiente.
Comparada às demais coordenadorias de saúde (Norte, Sul, Sudeste e Leste), a região central teve notas significativamente superiores em estética, cobertura de árvores, acessibilidade, estrutura de calçadas e segurança nos cruzamentos (p < 0,001). É lá também que se registrou a menor pontuação em “características negativas de calçada”, ou seja, menos buracos, menos lixo acumulado, menos barreiras.
No extremo oposto está a região Sul, que inclui distritos como Capão Redondo, Jardim Ângela e Grajaú, onde os escores de estética e de infraestrutura amigável ao pedestre foram os mais baixos entre todas as áreas. Isso significa menos ruas arborizadas, calçadas em pior estado e menos equipamentos que convidem à caminhada ou ao lazer ao ar livre.
Quem vive nos melhores bairros? A resposta está no diploma e na cor da pele
A geografia, porém, é só o espelho de um padrão mais profundo. Quando os pesquisadores cruzaram as notas do ambiente com o perfil dos moradores, o contraste ficou ainda mais contundente.
Indivíduos com curso superior completo ou incompleto moravam em áreas com pontuação significativamente maior nos quesitos estética, presença de árvores, qualidade das calçadas, acessibilidade e escore geral, e, ao mesmo tempo, tinham menos características negativas na calçada (p < 0,001). Na outra ponta, quem tinha até o ensino fundamental residia em locais com as piores condições de calçada.
O recorte por cor da pele seguiu a mesma trilha.
Quem se autodeclarou branco ou amarelo vivia em ruas com melhor infraestrutura para pedestres, mais acessibilidade, mais árvores e cruzamentos mais seguros. Já as pessoas pretas e pardas residiam em áreas com calçadas significativamente piores. Curiosamente, o entorno das moradias de pretos e pardos também apresentou maior diversidade de comércio e serviços, um reflexo de padrões históricos de ocupação periférica, onde a necessidade de serviços próximos muitas vezes compensa a carência de estrutura pública.
A idade também entrou na equação: participantes com 60 anos ou mais obtiveram os melhores escores em estética, arborização e qualidade das calçadas, além de viverem em locais com menos fatores negativos. “É plausível que idosos com maior estabilidade financeira e mais escolaridade estejam concentrados em áreas historicamente mais bem cuidadas”, observam os autores, sugerindo que o fator socioeconômico se sobrepõe à faixa etária.
Por que bairros periféricos têm menos árvores e calçadas piores?
A resposta a essa pergunta não cabe só na pandemia ou nas gestões recentes. O artigo remonta ao crescimento explosivo de São Paulo entre 1950 e os anos 2000, quando a população saltou de dois milhões para mais de 10 milhões de habitantes sem que houvesse planejamento urbano compatível.
“A urbanização desordenada gerou segregação espacial e desigualdade na oferta de infraestrutura”, sintetizam os pesquisadores.
As áreas que concentraram população de baixa renda e negra receberam menos investimento em saneamento básico, pavimentação, arborização e espaços públicos.
Mesmo as políticas mais recentes, como o Plano Diretor Estratégico de 2014 e o Plano de Mobilidade Urbana, que impulsionaram a criação de ciclovias, academias ao ar livre e praças, não conseguiram virar o jogo. Um estudo anterior do mesmo grupo (Teixeira et al.) mostrou que essas melhorias continuaram brotando preferencialmente em bairros de maior nível socioeconômico.
Esse novo trabalho confirma que, na escala das calçadas e esquinas, a lógica permanece a mesma.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores enumeram as limitações da pesquisa. É aí que mora a credibilidade do trabalho. A amostra, embora pulverizada por todas as regiões da cidade, não foi desenhada para representar estatisticamente os 11,4 milhões de paulistanos.
O traçado das rotas, que tinha como destino um centro comercial do mesmo setor censitário, nem sempre reflete o caminho real que o morador faz no dia a dia. Além disso, a análise depende das imagens do Google Street View, cuja atualização é menos frequente em bairros periféricos; algumas fotos datavam de 2010, o que pode mascarar melhorias ou pioras recentes.
Há ainda outro ponto importante: a pesquisa mediu a qualidade objetiva do ambiente, mas não investigou se as pessoas de fato usam esses espaços. Uma calçada excelente não garante que o morador a utilize; questões como violência, iluminação à noite e até o horário de trabalho pesam na decisão de sair de casa.
Por que isso importa para você, e para a cidade?
Em uma metrópole onde 46% dos deslocamentos são feitos a pé, segundo a Pesquisa Origem e Destino do Metrô, a qualidade das calçadas não é um luxo: é uma questão de saúde pública.
Ambientes com boa infraestrutura para caminhada estão associados a maior nível de atividade física, o que por sua vez reduz o risco de obesidade, doenças cardiovasculares e problemas de saúde mental. Se essa infraestrutura se concentra nas mãos (e nos pés) de quem já tem mais recursos, a cidade está reproduzindo, no asfalto, o mesmo ciclo de iniquidade que se vê na educação e na renda.
O recado do estudo é claro: políticas de planejamento urbano que não miram deliberadamente os bairros de menor renda e de maioria negra tendem a perpetuar, em vez de corrigir, as desigualdades históricas da capital.
“É necessário priorizar áreas de maior vulnerabilidade social para ampliar as oportunidades de atividade física e promover justiça espacial”, defendem os autores. Na prática, isso significa levar árvores, calçadas de verdade, faixas de pedestres e iluminação para onde elas nunca chegaram, exatamente os lugares onde mais gente depende do próprio pé para se locomover.
Fontes
- Differences in the microenvironment for leisure physical activity and commuting in São Paulo (artigo principal da coorte ISA–Atividade Física e Ambiente).
- Florindo et al. — perfil da coorte ISA–Atividade Física e Ambiente e detalhamento amostral.
- Estudo de Curitiba com MAPS (citado como referência 13 no artigo) — análise do ambiente construído no entorno de escolas.
- Pesquisa Origem e Destino do Metrô de São Paulo e dados do IBGE referentes ao Censo Demográfico 2022.
Perguntas frequentes
O que significa microescala do ambiente construído?
É a avaliação detalhada de elementos próximos ao pedestre, como a largura da calçada, a presença de árvores, bancos, iluminação, faixas de pedestres e o estado de conservação do piso — fatores que influenciam a decisão de caminhar ou se exercitar no bairro.
Quais regiões de São Paulo têm as melhores calçadas?
A região Centro-Oeste, que inclui bairros como Pinheiros e Jardins, apresentou os maiores escores de qualidade de calçadas, arborização, estética e acessibilidade segundo o estudo.
Existe relação entre escolaridade e acesso a áreas para atividade física?
Sim. Pessoas com curso superior residiam em áreas com calçadas significativamente melhores, mais árvores e mais estrutura de lazer do que aquelas com menor escolaridade.
Por que bairros periféricos têm menos árvores e calçadas piores?
O padrão reflete décadas de urbanização desordenada em São Paulo, com menor investimento público histórico em infraestrutura nas áreas que concentraram população de baixa renda e negra, como mostram os dados do estudo e de censos oficiais.
Pessoas negras têm menos acesso a espaços de lazer em São Paulo?
O estudo mostrou que pessoas autodeclaradas pretas e pardas residiam em áreas com calçadas significativamente piores e menos elementos de estética e arborização, embora o entorno tivesse maior mistura de comércio e serviços.
Matéria original: https://www.scielo.br/j/rsp/a/KWGkn7x5FZGZVJNKx7m9gmD/?format=html&lang=en
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





