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Diagnóstico psiquiátrico é confiável? Só 55% de concordância

Estudo com 1.038 psiquiatras de 19 países mostra que dois médicos só concordam no diagnóstico em cerca de 55% dos casos.

O diagnóstico psiquiátrico é confiável? Duas psiquiatras analisam caso clínico em imagem que ilustra o estudo.
O diagnóstico psiquiátrico é confiável? Duas psiquiatras analisam caso clínico em imagem que ilustra o estudo.
Resumo em 15 segundos
  • Os autores, porém, chamam a atenção para um detalhe que muda a leitura dos números: os desacordos não são aleatórios.
  • Se um dá 9 e o outro dá 4, ficou claro que a rubrica não está orientando a correção como deveria.
  • Na estatística usada pelos autores, isso equivale a uma confiabilidade modesta: alfa de Krippendorff de 0,48, numa escala em que 1 seria concordância perfeita.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Afinal, o diagnóstico psiquiátrico é confiável? Um estudo internacional com 1.038 psiquiatras de 19 países traz uma resposta desconfortável: dois médicos que avaliam os mesmos pacientes só concordam em cerca de 55% dos casos. O índice, publicado na Frontiers in Psychiatry, lembra o que já se via nos anos 1970, época que motivou a criação dos critérios padronizados de diagnóstico usados até hoje.

Os autores, porém, chamam a atenção para um detalhe que muda a leitura dos números: os desacordos não são aleatórios. Casos de esquizofrenia foram frequentemente interpretados como TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), transtorno de personalidade ou transtorno bipolar. Para a equipe, isso indica que o problema não está apenas na prática clínica, mas também na forma como os transtornos mentais são definidos e separados uns dos outros.

Dados do estudo: o trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Copenhague e publicado em 29 de julho de 2026 na Frontiers in Psychiatry. Mateo Boberg é o primeiro autor; Julie Nordgaard e Mads Gram Henriksen também aparecem como autores. A pesquisa reuniu 1.038 médicos que atuam em psiquiatria adulta em 19 países, de dois continentes, e somou 1.902 avaliações de nove casos clínicos escritos, as chamadas vinhetas. Todos usaram a CID-10, a Classificação Internacional de Doenças da OMS. DOI: 10.3389/fpsyt.2026.1891625.

O que é um diagnóstico psiquiátrico confiável?

Um diagnóstico confiável é aquele que não depende de quem o faz: dois profissionais, diante do mesmo quadro, tendem a chegar à mesma conclusão. No jargão técnico, isso se chama confiabilidade entre avaliadores, ou inter-rater reliability.

Uma analogia ajuda. Pense em dois professores corrigindo a mesma redação com a mesma rubrica. Se um dá 9 e o outro dá 4, ficou claro que a rubrica não está orientando a correção como deveria. O estudo fez algo parecido com a psiquiatria: entregou os mesmos casos escritos a muitos médicos e comparou os diagnósticos que eles deram.

Além da concordância entre médicos, a equipe mediu a acurácia: cada caso tinha um diagnóstico de referência predefinido, e as respostas foram comparadas com ele.

O que o estudo encontrou?

Quando dois psiquiatras avaliaram o mesmo caso, a concordância ficou em cerca de 55%. Em quase metade das vezes, eles saíram com interpretações diferentes. Na estatística usada pelos autores, isso equivale a uma confiabilidade modesta: alfa de Krippendorff de 0,48, numa escala em que 1 seria concordância perfeita.

A acurácia global foi de 66%, ou seja, em 66% das avaliações o diagnóstico dado pelo médico coincidiu com o diagnóstico de referência. Os piores índices de acurácia apareceram nos casos que retratavam transtornos do espectro da esquizofrenia.

Isso aconteceu em condições padronizadas: casos escritos, critérios da CID-10 para todos e sorteio de dois casos por médico.

Esquizofrenia, TOC e os casos mais difíceis

Os casos que mais dividiram os participantes foram os do espectro da esquizofrenia. Na fronteira entre esquizofrenia e transtorno esquizotípico, a concordância ficou bem abaixo de 50%, segundo o primeiro autor, Mateo Boberg.

Também houve um padrão claro de confusão: a esquizofrenia foi frequentemente registrada como TOC, transtorno de personalidade ou transtorno bipolar. Para os pesquisadores, esse tipo de padrão é um sinal de que as categorias diagnósticas não estão tão bem delimitadas quanto pareciam.

Por que dois psiquiatras podem dar diagnósticos diferentes?

Uma razão é que os sintomas se sobrepõem. Pensamentos obsessivos, por exemplo, podem aparecer tanto no TOC quanto na esquizofrenia. Diante desse emaranhado, dois clínicos experientes podem dar peso diferente aos mesmos sinais.

Some-se a isso a complexidade da CID-10, que reúne mais de 200 categorias diagnósticas. “Não se trata de psiquiatras fazendo um trabalho ruim”, afirma Julie Nordgaard, professora e psiquiatra da Universidade de Copenhague. “Apesar da existência dos sistemas diagnósticos, os clínicos continuam divergindo em como interpretam os sintomas e em quais características consideram mais importantes.”

O impacto para pacientes e para a pesquisa

Para o paciente, a consequência mais direta é o risco de receber diagnósticos diferentes e, com eles, tratamentos diferentes, sem que o quadro clínico tenha mudado. O comunicado da Universidade de Copenhague resume: o resultado levanta preocupações sobre possíveis erros de diagnóstico, tratamentos inadequados e problemas na pesquisa psiquiátrica.

Na pesquisa, o risco é mais sutil. Um estudo que pretende testar um tratamento para transtorno de personalidade pode, sem saber, incluir participantes que têm esquizofrenia. Aí fica difícil dizer se o efeito observado se deve ao tratamento para um ou para outro transtorno. “Qual condição o tratamento está tendo — ou não tendo — efeito?”, questiona o professor Mads Gram Henriksen.

O que o estudo ainda não explica?

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Os autores não oferecem uma solução pronta. O que eles fazem é defender um recuo estratégico: desenvolver descrições mais precisas dos transtornos psiquiátricos e, possivelmente, reduzir o número de categorias. A própria CID-10, lembram, reúne mais de 200 diagnósticos, e muitos quadros psiquiátricos são inerentemente multifacetados.

Também é preciso situar o alcance do achado: a pesquisa mediu a concordância com casos escritos, sem acompanhar pacientes reais ao longo do tratamento. Mesmo assim, em condições controladas e com o mesmo sistema de classificação, a taxa de acordo ficou em 55%. Na conclusão do artigo, a variação observada é descrita como reflexo de diferenças sistemáticas de interpretação clínica e de ambiguidades na classificação, e não como erro ao acaso.

Por que isso importa?

A pergunta sobre se o diagnóstico psiquiátrico é confiável não é uma curiosidade acadêmica. É a base para que pessoas com o mesmo transtorno recebam tratamentos parecidos, para que um estudo saiba exatamente o que está medindo e para que anos de pesquisa se traduzam em melhora real do cuidado.

Como os autores escrevem, maior concordância diagnóstica é pré-requisito para os avanços de que o cuidado em saúde mental precisa. Até que a classificação fique mais precisa, o diagnóstico psiquiátrico continuará sendo, em parte, uma aposta interpretativa.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um psiquiatra ou de outro profissional de saúde.

Fontes

  • Artigo original: “Reliability of psychiatric diagnoses in the 21st century”, de Boberg et al., Frontiers in Psychiatry, 29 jul. 2026. DOI: 10.3389/fpsyt.2026.1891625.
  • Comunicado à imprensa da Universidade de Copenhague: “New study: Psychiatrists agree on a diagnosis in only 55% of cases”, EurekAlert!, 9 set. 2026.
  • EurekAlert! (AAAS), plataforma de divulgação do comunicado da Universidade de Copenhague, 9 set. 2026.

Perguntas frequentes

Diagnóstico psiquiátrico é confiável?

Para os autores do estudo, a confiabilidade ainda é limitada: dois psiquiatras concordam no mesmo diagnóstico em cerca de 55% dos casos, mesmo usando critérios padronizados. Isso não quer dizer que todo diagnóstico esteja errado, mas que há uma margem grande de discordância.

Quantos por cento dos casos os psiquiatras concordam no diagnóstico?

Em cerca de 55% dos casos avaliados no estudo. A pesquisa contou com 1.038 médicos, que produziram 1.902 avaliações de nove casos clínicos escritos.

Por que dois psiquiatras podem dar diagnósticos diferentes?

Porque sintomas de transtornos diferentes podem se sobrepor e porque os médicos divergem sobre quais sintomas são mais importantes. A CID-10 reúne mais de 200 diagnósticos, o que aumenta as possibilidades de leitura do mesmo caso.

Quais transtornos psiquiátricos são mais difíceis de diagnosticar?

No estudo, os casos do espectro da esquizofrenia foram os mais difíceis. Casos na fronteira entre esquizofrenia e transtorno esquizotípico tiveram concordância abaixo de 50%, e a esquizofrenia foi frequentemente confundida com TOC, transtorno de personalidade ou transtorno bipolar.

Como a falta de concordância diagnóstica afeta pacientes e pesquisas?

Para pacientes, o risco é receber diagnósticos e tratamentos que mudam ao longo do tempo. Para a pesquisa, o risco é estudar um grupo que mistura transtornos diferentes, o que torna os resultados difíceis de interpretar.

Ilustração gerada por inteligência artificial.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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