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Quais são os riscos da reposição hormonal?

Revisão Cochrane com 45.660 mulheres: a terapia combinada provavelmente aumenta o risco de câncer de mama; o estrogênio isolado, não.

Riscos da reposição hormonal: imagem referente ao tratamento
Riscos da reposição hormonal: imagem referente ao tratamento
Resumo em 15 segundos
  • A busca por estudos foi atualizada até 26 de setembro de 2024.
  • Na prática, é quase sempre estrogênio, sozinho ou acompanhado de um progestágeno.
  • O outro braço do WHI acompanhou 10.739 mulheres na pós-menopausa que haviam passado por histerectomia.
  • São reduções relativas, medidas em mulheres acima de 60 anos, a maioria já na pós-menopausa.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

A pílula que alivia os calores da menopausa não pesa igual para todo mundo. Uma revisão Cochrane atualizada, que reuniu 24 estudos com 45.660 mulheres, mostra que os riscos da reposição hormonal mudam conforme a fórmula usada. A terapia combinada, de estrogênio mais progestágeno (hormônio natural ou sintético que atua nos receptores de progesterona) provavelmente aumenta o risco de câncer de mama. A terapia só com estrogênio não mostrou esse aumento. As duas, porém, parecem elevar o risco de AVC e de doença na vesícula que exige cirurgia.

Quase 70% das informações vêm de dois estudos grandes: o HERS, de 1998, e o programa Women’s Health Initiative, o WHI, também de 1998, que trazia dois braços de tratamento hormonal. A maioria das participantes era de mulheres americanas na pós-menopausa, com uma ou mais doenças associadas, e a idade média na maior parte dos estudos passava dos 60 anos. Só um dos estudos olhou especificamente para mulheres na perimenopausa, a fase de transição que antecede a menopausa.

Dados do estudo: a revisão foi conduzida por Dr. Bofill Rodriguez M e colaboradores e publicada na Cochrane Library, em 2026, como atualização de uma revisão que saiu pela primeira vez em 2005. A busca por estudos foi atualizada até 26 de setembro de 2024. Foram incluídos 24 ensaios clínicos randomizados e duplo-cegos, com 45.660 participantes, comparando o uso de hormônios por pelo menos um ano com placebo. DOI: 10.1002/14651858.CD004143.pub7.

O que é terapia de reposição hormonal e por que o tipo importa?

Terapia de reposição hormonal, a chamada TRH, é o uso de hormônios para repor o que os ovários param de produzir depois da menopausa. Na prática, é quase sempre estrogênio, sozinho ou acompanhado de um progestágeno.

E por que essa diferença importa tanto? Pense num ingrediente base de cozinha: o mesmo estrogênio, com ou sem o progestágeno ao lado, vira duas receitas diferentes dentro do corpo. Segundo a revisão, é aí que o perfil de risco se separa. No WHI, as mulheres foram alocadas no braço combinado ou no de estrogênio isolado conforme tivessem ou não útero.

Quais são os riscos da reposição hormonal na menopausa?

Os números centrais vêm do braço combinado do WHI. Ali, 16.608 mulheres na pós-menopausa com útero intacto tomaram estrogênio equino conjugado mais acetato de medroxiprogesterona, ou placebo, e os desfechos foram medidos numa média de 5,6 anos de acompanhamento.

Os autores relatam que a terapia combinada:

  • provavelmente aumenta o risco de câncer de mama (risco relativo de 1,27, algo como 27% a mais, com intervalo de confiança de 1,03 a 1,56; certeza moderada);
  • pode aumentar o risco de AVC (risco relativo de 1,39, intervalo de 1,09 a 2,09; baixa certeza);
  • pode aumentar o risco de tromboembolismo venoso, a trombose (risco relativo de 2,03, ou cerca do dobro, intervalo de 1,55 a 6,64; baixa certeza);
  • pode aumentar a doença na vesícula que exige cirurgia (risco relativo de 1,64, intervalo de 1,30 a 2,06; baixa certeza);
  • provavelmente reduz o risco de todas as fraturas clínicas (risco relativo de 0,78, intervalo de 0,71 a 0,86; certeza moderada).

Para eventos coronários (risco relativo de 1,17; intervalo de 0,95 a 1,44) e câncer de pulmão (risco relativo de 1,06; intervalo de 0,77 a 1,46), a conclusão foi de que a terapia combinada provavelmente faz pouca ou nenhuma diferença.

Um detalhe que muda tudo na leitura: esses são riscos relativos. O material não traz o número absoluto de casos, ou seja, quantas mulheres de cada mil foram afetadas. Sem essa base, “27% a mais” não quer dizer “27 em cada 100”. É uma comparação entre os grupos do estudo, não um retrato do seu risco pessoal.

Estrogênio isolado: o risco é diferente após a histerectomia

O outro braço do WHI acompanhou 10.739 mulheres na pós-menopausa que haviam passado por histerectomia. Elas tomaram só estrogênio equino conjugado, ou placebo, com média de sete anos de acompanhamento. Aqui o quadro muda em pelo menos um ponto central.

  • câncer de mama: risco relativo de 0,79, intervalo de 0,61 a 1,01 — pouca ou nenhuma diferença, com certeza moderada;
  • eventos coronários: risco relativo de 0,94, intervalo de 0,78 a 1,13 — pouca ou nenhuma diferença;
  • tromboembolismo venoso: risco relativo de 1,32, intervalo de 1,00 a 1,74 — pouca ou nenhuma diferença;
  • AVC: risco relativo de 1,33, intervalo de 1,06 a 1,67 — provavelmente aumenta;
  • doença na vesícula que exige cirurgia: risco relativo de 1,78, intervalo de 1,42 a 2,24 — provavelmente aumenta;
  • todas as fraturas clínicas: risco relativo de 0,73, intervalo de 0,65 a 0,80 — provavelmente reduz;
  • câncer de pulmão: risco relativo de 1,04, intervalo de 0,73 a 1,48 — baixa certeza.

Reposição hormonal e fraturas: a proteção óssea que apareceu

Nos dois grupos, o único desfecho claramente favorável foi o osso. A terapia combinada reduziu o risco de todas as fraturas clínicas em cerca de 22% (risco relativo de 0,78), e o estrogênio isolado em cerca de 27% (risco relativo de 0,73). São reduções relativas, medidas em mulheres acima de 60 anos, a maioria já na pós-menopausa. Então a resposta à pergunta “reposição hormonal reduz fraturas?” é sim, dentro desse contexto.

Por que esse debate interessa a qualquer mulher que chega à menopausa?

Não há neste estudo nenhum dado específico sobre o Brasil ou a América do Sul. As participantes eram, em sua maioria, mulheres americanas na pós-menopausa, com outras condições de saúde associadas. Ainda assim, a pergunta que a revisão tenta responder é universal: quando os sintomas da menopausa incomodam, por quanto tempo vale a pena manter a terapia hormonal?

Essa é uma decisão que depende de cada história clínica. O que a revisão oferece não é uma receita, e sim um mapa de para onde olhar. Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

Por que os resultados sobre reposição hormonal pedem cautela?

Os próprios autores fazem questão de frear as conclusões, e vale prestar atenção nos motivos.

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Primeiro, os dados vêm essencialmente de um único estudo, com hormônios por via oral. Segundo os autores, isso pode não representar os riscos da terapia hormonal usada hoje na prática clínica, onde existem outras fórmulas e outras formas de administração.

Depois, a faixa etária. Só cerca de 30% das mulheres tinham entre 50 e 59 anos no início dos estudos. Essa é justamente a faixa mais propensa a considerar a terapia hormonal para os sintomas vasomotores, como os calores. Ou seja, o grupo mais interessado na pergunta é o menos representado nos dados.

A maioria dos estudos foi julgada com baixo risco de viés na maior parte dos domínios, e a certeza geral das evidências para as principais comparações ficou em moderada. Nem tudo, porém, é firme: vários desfechos aparecem com baixa certeza, o que significa que pesquisas futuras podem mudar a leitura.

Por que isso importa?

A mensagem que fica não é “hormônio faz bem” nem “hormônio faz mal”. É que não existe resposta única. Combinado ou isolado, o tratamento mexe com riscos diferentes, em direções diferentes, e cada mulher e seu médico precisam pesar o que mais importa no caso dela.

Entender que esses números são relativos e medidos em grupos específicos é o que separa a informação honesta do susto. A ciência aqui não fecha uma porta. Ela mostra qual porta leva a quê.

Fontes

Perguntas frequentes

Quais são os riscos da reposição hormonal na menopausa?

Segundo a revisão Cochrane, a terapia combinada provavelmente aumenta o risco de câncer de mama e pode elevar os riscos de AVC, trombose e doença na vesícula que exige cirurgia. A terapia só com estrogênio não mostrou aumento de câncer de mama, mas provavelmente aumenta o risco de AVC e de doença na vesícula. Os dois tipos parecem reduzir o risco de fraturas.

A reposição hormonal causa câncer de mama?

Os estudos mostram associação, não causa comprovada. Na terapia combinada, o risco relativo de câncer de mama foi de 1,27 (cerca de 27% a mais), com certeza moderada. Na terapia só com estrogênio, foi de 0,79, com intervalo de confiança de 0,61 a 1,01, ou seja, pouca ou nenhuma diferença.

Reposição hormonal aumenta o risco de AVC?

Sim, é um dos riscos que aparecem nos dois tipos de terapia. No braço combinado, o risco relativo foi de 1,39; no de estrogênio isolado, de 1,33. São números relativos, e o material não traz a taxa absoluta.

Reposição hormonal só de estrogênio é mais segura?

Depende de qual risco estamos olhando. O estrogênio isolado não mostrou aumento do risco de câncer de mama nem de eventos coronários, mas continuou associado a mais AVC e mais doença na vesícula. Não dá para dizer que um tipo seja simplesmente mais seguro que o outro em todos os aspectos.

A reposição hormonal reduz o risco de fraturas?

Sim. Nos dois braços do WHI, o risco de todas as fraturas clínicas caiu: cerca de 22% na terapia combinada (risco relativo de 0,78) e cerca de 27% no estrogênio isolado (risco relativo de 0,73). São reduções relativas, em mulheres acima de 60 anos.

O que a revisão Cochrane diz sobre reposição hormonal?

Que os perfis de risco variam entre a terapia combinada e a só com estrogênio. A revisão reúne 24 estudos com 45.660 mulheres e conclui que o estrogênio isolado provavelmente faz pouca ou nenhuma diferença para eventos coronários e câncer de mama, e que a terapia combinada pode aumentar a trombose e provavelmente aumenta o risco de câncer de mama. Os autores alertam que os resultados vêm sobretudo de um estudo com hormônios orais e podem não refletir a prática atual.

Foto: Marta Branco no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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