Um mesmo diagnóstico de depressão pode esconder realidades biológicas opostas. A pessoa que perde o apetite, emagrece e mal consegue dormir vive uma forma de adoecimento diferente daquela que sente fome constante, ganha peso e passa horas a mais na cama, ainda que os manuais psiquiátricos atuais tratem os dois extremos como equivalentes.
Um novo estudo genético de grande escala acaba de fornecer as evidências mais robustas até agora de que essas diferenças não são superficiais: a depressão atípica, marcada por aumento de apetite ou peso e sono excessivo, tem assinatura genética própria, parcialmente distinta da depressão com insônia e perda de peso.
O trabalho, feito por um consórcio internacional e disponível como preprint no servidor medRxiv (ainda aguardando revisão por pares), analisou dados de centenas de milhares de pessoas de ascendência europeia. Os pesquisadores identificaram 27 regiões do genoma associadas aos diferentes subtipos de depressão e mostraram que o grupo atípico se sobrepõe geneticamente à obesidade, à síndrome metabólica e a marcadores de inflamação. Enquanto o grupo oposto caminha na direção contrária. A depressão, pelo visto, não é uma coisa só.
O estudo é o maior já feito com esse recorte e foi publicado em julho de 2026. O DOI do artigo é 10.64898/2026.07.02.26357101v1.
O que a psiquiatria chama de depressão atípica?
O termo depressão atípica não significa “rara” ou “esquisita”. Ele surgiu nos anos 1950 para descrever pacientes que, ao contrário do quadro clássico de profunda tristeza e perda de peso, mantinham alguma reatividade ao ambiente, sentiam mais fome, ganhavam peso e dormiam demais. Com o tempo, esses sintomas passaram a ser chamados de “sintomas atípicos de energia” — em inglês, a sigla é AERS, de atypical energy-related symptoms.
No manual diagnóstico atual (DSM-5-TR), essa distinção perdeu força. Ganhar ou perder peso, dormir de mais ou de menos, contam pontos iguais para o diagnóstico de depressão maior. O que o novo estudo fez foi testar se há base biológica para tratar esses extremos como coisas diferentes — e a resposta, segundo os dados, é sim.
Como o estudo dividiu os grupos com base nos sintomas?
Os pesquisadores harmonizaram questionários diagnósticos de oito grandes coortes populacionais do Reino Unido, Austrália, Estônia e outros países. Para entrar na análise, a pessoa precisava ter tido um episódio depressivo maior ao longo da vida, com pelo menos cinco dos nove sintomas do DSM-5. Depois, os cientistas olharam para a direção dos sintomas de apetite/peso e sono na pior fase da doença.
Quem apresentou ganho de peso ou aumento de apetite junto com sono excessivo (hipersonia) entrou no grupo chamado AERS+. Esses são os representantes da depressão atípica no estudo. Quem teve perda de peso ou apetite reduzido combinado com insônia formou o grupo AERS− — o polo mais próximo da depressão dita “melancólica” clássica. Todos os outros casos de depressão que não se encaixavam perfeitamente em um desses extremos foram classificados como “Não categorizados”.
O grupo Não categorizado foi o maior, aparecendo em mais da metade dos casos. O AERS− foi mais comum que o AERS+ em quase todas as coortes. Mas o fato de o AERS+ ser menos frequente não o torna menos importante: na verdade, ele se mostrou o mais singular do ponto de vista genético.
Uma arquitetura genética diferente para cada subtipo
A equipe realizou estudos de associação genômica ampla (os chamados GWAS) para cada subtipo, comparando os grupos de deprimidos com centenas de milhares de controles saudáveis. O AERS+ envolveu 12.852 casos e 334.919 controles (tamanho efetivo da amostra de 47.858). O AERS− somou 44.910 casos e 336.614 controles (tamanho efetivo de 156.624). O grupo Não categorizado foi o maior, com 66.586 casos e 336.614 controles (tamanho efetivo de 215.828).
Ao todo, foram encontradas 27 regiões do genoma (loci) associadas aos subtipos, sendo quatro para o AERS+, 10 para o AERS− e 13 para o grupo Não categorizado. Várias dessas regiões já haviam sido associadas à depressão em estudos anteriores, mas o dado novo está na força e na direção desses sinais genéticos.
O AERS+ teve a maior herdabilidade entre os subtipos: 10,9% de chance de ser explicada por variantes genéticas comuns, contra 7,9% do AERS− e 8,6% do grupo Não categorizado. Mais intrigante ainda: a arquitetura do AERS+ parece depender de um número menor de variantes genéticas — cerca de 1,7% dos marcadores analisados, contra 2,9% no AERS− e 5,3% no grupo Não categorizado. Ter menos peças genéticas envolvidas, porém com efeitos maiores, sugere um mecanismo biológico mais concentrado, o que é uma pista valiosa para quem busca alvos terapêuticos.
A correlação genética entre AERS+ e AERS− foi de apenas 0,64 (em uma escala de 0 a 1). Em termos simples, os dois grupos compartilham uma parte considerável da base genética, mas estão longe de ser a mesma coisa. A análise geométrica do estudo mostrou que a distância genética entre o AERS+ e o AERS− é maior do que a distância entre o AERS− e os controles saudáveis.
O elo metabólico que separa um tipo do outro
Quando os cientistas cruzaram os dados genéticos dos subtipos de depressão com os de dezenas de outras características — de índice de massa corporal (IMC) a doenças cardíacas e níveis de colesterol —, o resultado foi uma assimetria notável. O AERS+ apresentou correlação genética positiva e significativa com IMC (0,39), síndrome metabólica (0,36), diabetes tipo 2 e doença coronariana. Já o AERS− mostrou correlação negativa com o IMC (−0,11), ou seja, quanto maior a carga genética para esse tipo de depressão, menor a predisposição genética ao excesso de peso.
Essa divergência se repetiu nos biomarcadores do metabolismo. O AERS+ se associou geneticamente a níveis mais altos de triglicerídeos, partículas maiores de VLDL (um tipo de colesterol ruim) e níveis mais baixos de HDL (o colesterol bom). Também apareceu uma ligação forte com a GlycA, um marcador composto de inflamação sistêmica — aliás, essa foi a associação mais forte entre todos os metabólitos testados (rg = 0,21). O AERS− não mostrou nenhuma correlação significativa nesse conjunto de marcadores metabólicos depois dos ajustes estatísticos.
Uma pergunta natural é: será que o AERS+ capturou simplesmente pessoas com IMC mais alto que têm depressão, sem nenhuma biologia própria? Os dados dizem que não. Quando os autores compararam o grupo AERS+ com casos de depressão pareados por IMC e sexo, o AERS+ continuou mostrando início mais precoce da doença, maior recorrência, mais incapacidade funcional e mais comorbidades psiquiátricas e físicas. Ou seja, a genética da depressão atípica não se reduz a “ser obeso e deprimido”.
Genes da obesidade que diferenciam os subtipos
Para ir direto ao ponto, os pesquisadores fizeram um confronto genético direto entre AERS+ e AERS− — uma análise de caso-controle dentro da própria depressão. Surgiram quatro loci com significância genômica, todos em genes famosos por sua associação com obesidade: FTO, ADCY3, TMEM18 e NEGR1.
Quando os cientistas ajustaram estatisticamente esses resultados pelo IMC (usando uma técnica chamada mtCOJO), os sinais nos genes de obesidade se atenuaram, mas a herdabilidade do confronto AERS+ vs. AERS− continuou significativa (caindo de 13,3% para 7,3%). E, no cenário ajustado, as correlações genéticas mais fortes do contraste entre os subtipos foram com solidão, neuroticismo e depressão maior — mostrando que a divisão entre os dois polos também envolve diferenças psiquiátricas e psicossociais que vão além do metabolismo.
Dois dos quatro loci do AERS+ mapearam perto do gene NEGR1, um regulador do crescimento neuronal envolvido na formação de conexões entre neurônios. Embora o NEGR1 seja mais conhecido por seu papel no peso corporal, ele também já foi ligado ao comportamento alimentar e a fenótipos depressivos em camundongos. Essas variantes eram independentes entre si e continuaram significativas mesmo depois do ajuste para IMC, com efeito três vezes maior no AERS+ do que nos outros grupos — um sinal que ficaria diluído se a análise juntasse todos os deprimidos em um bloco só.
O que a causalidade genética sugere, mas não garante?
Usando uma técnica de randomização mendeliana, que tenta inferir causalidade a partir de dados genéticos, os cientistas encontraram evidências de que uma maior predisposição genética à obesidade, à síndrome metabólica e ao acúmulo de gordura abdominal “empurra” o risco especificamente para o subtipo AERS+. Para o AERS−, a direção foi oposta: a predisposição metabólica alta se associou a um risco discretamente menor. As análises também sugerem que a relação é de mão dupla — o AERS+ também parece aumentar o risco genético para IMC e síndrome metabólica —, mas aqui os métodos que corrigem para pleiotropia (quando uma variante afeta várias características ao mesmo tempo) indicaram cautela com alguns resultados.
É essencial separar o que foi medido do que é interpretação. Os autores consideram que existem pelo menos duas leituras possíveis para essa conexão. Uma é que o IMC alto atue como um modificador do quadro depressivo, deslocando os sintomas na direção atípica sem necessariamente causar a doença. Outra é que a disfunção metabólica faça parte da via causal que leva a essa forma específica de depressão — com inflamação crônica, resistência à insulina ou desregulação do eixo hormonal do estresse como pontes biológicas possíveis. As duas hipóteses convivem no artigo, e os próprios autores dizem que é difícil separá-las com dados transversais.
Por que isso importa para você, esteja você no Brasil ou em qualquer lugar?
A mensagem prática mais imediata é que juntar todos os tipos de depressão em uma única caixa pode esconder pistas valiosas — tanto para a ciência quanto para a clínica. O estudo mostra que, quando a gente separa os deprimidos pela direção dos sintomas de sono e apetite, emergem perfis genéticos e metabólicos distintos. Para quem vive a depressão atípica com ganho de peso e sono em excesso, essa distinção pode significar que, no futuro, o tratamento considere o estado metabólico como parte do alvo, e não como um efeito colateral a ser ignorado.
Os autores citam, por exemplo, que os agonistas de GLP-1 (medicamentos usados para obesidade e diabetes) mostraram efeitos modestos sobre sintomas depressivos em estudos anteriores. Diante dos novos dados, eles sugerem que futuras pesquisas investiguem se essas drogas ajudam mais justamente as pessoas com o perfil AERS+. É uma hipótese que merece estudo controlado, não uma recomendação.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios pesquisadores listam as limitações com transparência. A primeira e mais importante: todos os dados genéticos vieram de pessoas de ascendência europeia. A relação entre IMC e depressão varia conforme a ancestralidade, em populações do leste asiático, por exemplo, já foi observada uma relação causal inversa. Sem estudos multiétnicos, não dá para saber se esses resultados valem para todo mundo. Os autores reconhecem que essa é uma lacuna urgente, mas que faltam grandes bancos de dados com o detalhamento necessário dos sintomas de depressão em outras populações.
Outra limitação: o diagnóstico foi baseado em questionários retrospectivos (“qual foi o seu pior episódio depressivo?”), o que pode introduzir viés de memória. Além disso, a definição de sono excessivo e insônia variou sutilmente entre as coortes, e isso pode ter borrado um pouco as diferenças entre os subtipos — o que, na prática, tenderia a enfraquecer os resultados, não a inflá-los.
Os pesquisadores também alertam que não controlaram o uso de medicamentos psiquiátricos, que interferem no peso, no apetite e no sono. Não foi possível separar o que é biologia prévia do subtipo do que é efeito do tratamento ou da cronicidade da doença. E, por ser um desenho transversal, o estudo não consegue afirmar se os sintomas atípicos são estáveis ao longo da vida ou variam de um episódio para outro.
Talvez a ressalva mais honesta do artigo seja admitir que não se sabe, ainda, se a obesidade e a síndrome metabólica são causas, consequências ou apenas companhias de viagem da depressão atípica. O que os dados mostram — e mostram com força — é que a companhia é real e merece ser levada a sério.
Perguntas frequentes
O que é depressão atípica?
É uma forma de depressão maior em que a pessoa mantém alguma capacidade de reagir a eventos positivos e apresenta sintomas opostos aos da depressão clássica, como aumento de apetite, ganho de peso e sono excessivo (hipersonia). No estudo genético mais recente, ela foi identificada pelo grupo AERS+, que combina justamente essas duas características na pior fase do episódio depressivo.
Depressão com ganho de peso é diferente da depressão comum?
Sim, segundo os achados genéticos. O subtipo com ganho de peso e sono excessivo (AERS+) mostrou correlações genéticas positivas com obesidade e marcadores inflamatórios, enquanto o subtipo com perda de peso e insônia (AERS−) mostrou correlações negativas ou neutras com os mesmos traços metabólicos. A sobreposição genética entre esses dois extremos é parcial (correlação de 0,64), indicando que não são a mesma coisa do ponto de vista biológico.
Depressão com insônia e perda de peso é outro tipo?
Sim. O estudo classifica como AERS− o grupo que apresenta insônia (ou sono reduzido) combinado com perda de apetite ou peso. Esse perfil se aproxima do que historicamente se chamou de depressão melancólica e mostrou um padrão genético oposto ao da depressão atípica para vários traços metabólicos — inclusive com menor predisposição genética ao sobrepeso.
Por que a depressão engorda?
No subtipo atípico (AERS+), os dados indicam que a ligação entre depressão e ganho de peso tem raízes genéticas compartilhadas com a obesidade e a síndrome metabólica. A análise de randomização mendeliana sugere que a predisposição a um IMC mais alto pode favorecer o aparecimento desse tipo específico de depressão, embora os autores ressalvem que também é possível que a disfunção metabólica funcione mais como um modificador do quadro do que como causa direta. Ainda não há uma resposta definitiva sobre o que vem primeiro.
Fontes
- Estudo original: “Atypical energy-related symptoms define biologically distinct subtypes of major depressive disorder” – medRxiv, julho de 2026. DOI: 10.64898/2026.07.02.26357101v1.
- Dados complementares e tabelas de resultados disponíveis no manuscrito completo no servidor medRxiv.
- Referências citadas no estudo (GWAS de MDD, análises funcionais e coortes originais) podem ser consultadas no artigo completo.
Foto: Liza Summer no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





