A geometria sempre foi tratada como uma das fronteiras que separavam a inteligência humana da de outros primatas. A gente reconhece um quadrado perfeito, percebe quando dois lados são paralelos e nota a simetria de um hexágono quase sem pensar. A explicação tradicional para essa habilidade sempre foi a de que nós, humanos, usamos um sistema simbólico e abstrato para interpretar formas, algo que os outros primatas simplesmente não fariam. Um novo estudo acaba de mostrar que essa história é bem diferente.
Publicada nos Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa revela que macacos não só possuem intuição geométrica como compartilham com a gente um mesmo “espaço representacional” para processar formas. Em vez de uma divisão categórica entre espécies, o que existe é uma continuidade quantitativa.
“As raízes da intuição geométrica se estendem mais profundamente na cognição dos primatas do que uma faculdade simbólica exclusivamente humana poderia prever”, concluem os autores.
O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Jialin Li, Isabelle Boni, Logan R. Sandwick, Emily M. Sanford e Caroline M. DeLong e publicado em 20 de julho de 2026, com o DOI 10.1073/pnas.2532934123.
Como a gente processa (e sempre achou que só a gente processava) uma forma?
Quando você olha para um triângulo, seu cérebro não está apenas vendo três linhas. Ele está, em milésimos de segundo, identificando ângulos, comparando o comprimento dos lados e verificando se existe algum eixo de simetria. Essa capacidade de destrinchar uma figura em partes discretas — pontos, retas e ângulos — e avaliar suas relações é o que os cientistas chamam de representação simbólica da geometria. É como se a mente lesse a forma como um engenheiro lê uma planta baixa, e não só como uma mancha visual.
A hipótese rival sempre foi a de que outros primatas se apoiariam apenas em códigos perceptuais contínuos, ou seja, na aparência geral e bruta da imagem, sem decompor suas propriedades abstratas. A diferença seria qualitativa: um salto entre um modo de pensar e outro. O novo estudo testou justamente essa fronteira.
O que o estudo encontrou?
A equipe de psicologia usou uma tarefa clássica de correspondência (match-to-sample) em telas sensíveis ao toque. O participante — humano ou não — via uma forma geométrica e precisava encontrar o melhor par entre várias alternativas que variavam em tamanho, regularidade e grau de rotação. Antes de cada rodada, tocava um pequeno retângulo branco para sinalizar que estava pronto.
Quatro grupos participaram: macacos rhesus, babuínos, crianças em idade pré-escolar dos Estados Unidos e adultos de comunidades indígenas Tsimané, no Brasil. Os pré-escolares e os adultos Tsimané foram mais precisos no geral. Mas o dado que bagunçou a teoria da exclusividade humana veio dos macacos: eles se mostraram sensíveis a características geométricas como simetria e paralelismo.
Os autores escrevem que, “em vez de uma divisão categórica, descobrimos que macacos e humanos compartilham um espaço representacional comum, apoiando-se em códigos perceptuais com contribuições graduadas de características abstratas ou simbólicas”. Em outras palavras, a diferença é de grau, não de tipo.
Por que esse estudo importa para a ciência — e para o Brasil?
A presença dos Tsimané no estudo dá ao achado uma ancoragem importante. Trata-se de um povo indígena com pouca ou nenhuma instrução formal em matemática, e ainda assim seu desempenho em geometria é sofisticado. Isso se alinha com uma pesquisa anterior com os Munduruku, da Amazônia, que também demonstrou conhecimento geométrico básico mesmo sem escolarização. O recado é claro: a intuição para formas não depende de aulas de geometria — ela parece ser parte do equipamento cognitivo básico dos primatas, incluindo os humanos em diferentes contextos culturais.
Para a ciência brasileira, o resultado reforça a relevância de estudar a cognição em populações tradicionais, que ajudam a separar o que é universal do que é produto da cultura. A geometria, ao que tudo indica, está mais para um idioma nativo do cérebro de primata do que para uma segunda língua aprendida na escola.
O papel da invariância de rotação
Um dos achados mais contraintuitivos veio quando as formas estavam giradas. Os macacos mostraram uma dependência maior de características simbólicas ao processar figuras rotacionadas do que as crianças pequenas com figuras não rotacionadas. Isso sugere que o que parece ser uma representação simbólica pode, em boa parte, emergir de um mecanismo mais básico: a codificação invariante à rotação, ou seja, a capacidade de reconhecer que um quadrado continua sendo um quadrado mesmo depois de girar 45 graus.
Aqui, vale uma imagem para clarear: pense em uma roda girando. Você não precisa recalcular que aquilo é um círculo a cada novo ângulo; seu cérebro “trava” a identidade do objeto e ignora a rotação. Os macacos parecem fazer o mesmo com formas geométricas, e é justamente essa habilidade que puxa para cima o uso de características abstratas como simetria e paralelismo.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores são cuidadosos ao apontar as limitações do trabalho. A principal delas é que o estudo não consegue determinar a origem exata dessas diferenças de grau entre as espécies. As distinções podem refletir tanto variações genuínas na arquitetura cognitiva quanto diferenças em processos de domínio geral, como atenção ou memória de trabalho, que afetam o desempenho em qualquer tarefa.
Outro ponto em aberto é o quanto a experiência visual ao longo da vida molda essa intuição. Os macacos do estudo foram criados em cativeiro e realizaram a tarefa em um contexto artificial. Seria valioso investigar se populações selvagens, ou criadas em ambientes com diferentes demandas visuais, apresentam o mesmo padrão. Os autores também não afirmam que a geometria dos primatas seja idêntica — apenas que ela se distribui ao longo de um mesmo contínuo, sem um abismo qualitativo separando os humanos dos demais.
Para que saber disso?
Entender que compartilhamos a intuição geométrica com outros primatas muda a forma como a gente conta a história da nossa própria inteligência. A geometria não surge do nada no cérebro humano — ela tem raízes profundas, evolutivamente antigas, que já estavam presentes em ancestrais comuns. Isso não diminui o que somos, mas mostra que a nossa relação com os outros primatas é mais íntima e matizada do que gostamos de admitir.
Também serve de lembrete de que o pensamento abstrato não é um interruptor que se acendeu só na nossa espécie. Ele parece emergir, em doses diferentes, sempre que um cérebro de primata precisa dar sentido a um mundo cheio de formas — sejam as retas de uma folha ou os galhos retorcidos de uma árvore.
Fontes
- Li, J., Boni, I., Sandwick, L. R., Sanford, E. M., & DeLong, C. M. (2026). Continuity in geometric intuition between humans and monkeys. Proceedings of the National Academy of Sciences. DOI: 10.1073/pnas.2532934123
- Reese, D. (2026). Monkeys Interpret Shapes Similarly to Humans. Nautilus. Acesso em: nautil.us/monkeys-interpret-shapes-similarly-to-humans-1282814
- Dehaene, S., Izard, V., Pica, P., & Spelke, E. (2006). Core knowledge of geometry in an Amazonian indigene group. Science. (Estudo com os Munduruku, citado como contexto pela reportagem da Nautilus.)
Perguntas frequentes
Macacos têm intuição geométrica?
Sim. O estudo da PNAS mostrou que macacos rhesus e babuínos são sensíveis a características geométricas como simetria e paralelismo, compartilhando com humanos um mesmo espaço representacional para processar formas.
Humanos são os únicos com raciocínio geométrico?
Não. A pesquisa desafia a ideia de que o raciocínio geométrico é uma marca exclusiva da inteligência humana, revelando uma continuidade quantitativa entre as espécies em vez de uma divisão categórica.
O que o estudo da PNAS descobriu sobre macacos e geometria?
Publicado em julho de 2026, o estudo descobriu que macacos combinam representações perceptuais com códigos abstratos ou simbólicos ao processar formas geométricas, e que dependem ainda mais desses códigos ao lidar com figuras rotacionadas do que crianças pequenas com figuras não rotacionadas.
Macacos entendem simetria e paralelismo?
Sim. Tanto os macacos rhesus quanto os babuínos demonstraram sensibilidade a essas propriedades geométricas nos testes de correspondência de formas do estudo.
Qual a diferença entre humanos e macacos na geometria?
Os grupos humanos (pré-escolares e adultos Tsimané) foram mais precisos no geral, mas a diferença é de grau, não de tipo. Ambos compartilham o mesmo modo fundamental de representar formas geométricas, com variações quantitativas ao longo de um contínuo.
Foto: Steve A Johnson no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





