Resumo em 15 segundos
- Na edição de 2015, com 33 países, o topo do ranking ficou com o México, seguido por Índia e Brasil.
- Mede percepção calibrada — a distância entre o país imaginado e o país real.
- Os britânicos se destacaram pelo exagero: estimaram 59% contra 23% reais.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
O chamado “Índice de Ignorância” é fabricado pelo instituto Ipsos a partir da pesquisa Perils of Perception, e ele mede uma coisa bem específica: o tamanho do erro entre o que as pessoas acham que acontece no próprio país e o que os dados mostram.
Na edição de 2015, com 33 países, o topo do ranking ficou com o México, seguido por Índia e Brasil. Na edição seguinte, com 40 países, o Brasil apareceu em sexto lugar entre os menos precisos.
Antes de rir ou se ofender, vale entender o que o índice não mede — porque a resposta mais interessante da pesquisa não é quem erra mais, e sim a direção em que todo mundo erra.
O que a pesquisa realmente mede
A Ipsos faz perguntas factuais e verificáveis sobre a demografia do país do entrevistado: quantos são imigrantes, qual a idade média da população, quanto da riqueza está concentrada no topo, qual a proporção de pessoas acima do peso.
Depois compara cada resposta com a estatística oficial. O índice é a média desses desvios.
Ou seja: não é teste de conhecimentos gerais, não mede escolaridade e não avalia inteligência. Mede percepção calibrada — a distância entre o país imaginado e o país real. O rótulo “ignorância” é escolha de marketing do próprio instituto, e atrapalha mais do que ajuda a entender o achado.
Como resumiu Bobby Duffy, então diretor do instituto de pesquisas sociais da Ipsos MORI: em todos os 33 países do estudo, as populações erraram muito. Ninguém acerta.
Imigração: o erro mais consistente do mundo
Perguntadas quantas pessoas ao redor são imigrantes, as populações responderam, em média, uma em cada quatro. O número real é menos de uma em dez.
O caso extremo foi a Argentina: os entrevistados estimaram que 30% da população do país é imigrante, quando a proporção real era de 5% — um erro de seis vezes.
Desigualdade: erram para os dois lados
Sobre concentração de renda, a percepção global foi de que o 1% mais rico detém quase metade de toda a riqueza do país. O valor real fica mais perto de um terço.
Os britânicos se destacaram pelo exagero: estimaram 59% contra 23% reais.
Mas há uma inversão curiosa. Nas edições seguintes, o Brasil apareceu entre os poucos países que subestimam a concentração de riqueza no 1% do topo — erra na direção contrária da maioria.
Idade média: o Brasil errou feio
Aqui está o dado mais chamativo para o leitor brasileiro. Perguntados sobre a idade média da população do país, os entrevistados globais chutaram 50 anos, contra 37 reais.
Os brasileiros foram os que mais se distanciaram: responderam 56 anos quando a idade média no país era de 31. Quase o dobro.
É um erro que diz algo sobre autoimagem: um país jovem que se enxerga velho.
Obesidade: a exceção que confirma a regra
A obesidade foi o único item da lista em que as pessoas subestimaram o problema. A estimativa média para a proporção de pessoas acima do peso ou obesas foi de 40%, contra 54% reais.
O caso mais discrepante foi a Arábia Saudita: os entrevistados imaginaram pouco mais de 25%, quando o número real girava em torno de 70%.
O padrão por trás dos erros
Junte os resultados e aparece uma regularidade. As pessoas superestimam aquilo que as preocupa — imigração, desigualdade, criminalidade — e subestimam o que é incômodo de encarar, como a própria obesidade.
O balanço de 2024, que fecha uma década de pesquisa, confirma o padrão em 30 países: superestimação sistemática de taxas de homicídio, da concentração de riqueza no 1% e da parcela de imigrantes na população.
A explicação mais aceita para isso não é falta de informação. É o modo como a informação chega: o que é raro e ameaçador ocupa desproporcionalmente o noticiário e a conversa, enquanto o comum e estável não vira assunto. A mente estima frequência pela facilidade com que os exemplos vêm à cabeça.
E de quem as pessoas culpam?
O balanço de 2024 traz um dado sobre a percepção da própria percepção: 45% dos entrevistados, na média de 30 países, apontam as redes sociais como principal responsável pelas percepções equivocadas.
A pesquisa também encontrou uma diferença por hábito de consumo de informação: quem se informa por TV, rádio ou jornal demonstra mais confiança em cientistas e em instituições do que quem depende de aplicativos de mensagem, redes sociais ou boca a boca.
Outro número do mesmo levantamento dá a dimensão do problema de confiança: um em cada quatro entrevistados (24%) não acredita que as eleições em seu país produzam resultados confiáveis.
Por que isso importa
Percepção errada não é detalhe acadêmico: é a matéria-prima da opinião pública. Quem acredita que um quarto da população é imigrante avalia políticas migratórias em cima de um país que não existe.
O valor da pesquisa está menos no ranking e mais no espelho que ela oferece. A pergunta útil não é “qual país é o mais ignorante”, e sim “em qual direção eu estou errando, e por quê”.
Perguntas frequentes
O que é o Índice de Ignorância?
É um ranking criado pelo instituto Ipsos a partir da pesquisa Perils of Perception. Ele mede o tamanho médio do erro entre o que as pessoas acham que acontece no próprio país e o que os dados oficiais mostram.
Quais são os países mais ignorantes segundo a pesquisa?
Na edição de 2015, com 33 países, o topo foi ocupado por México, Índia e Brasil. Na edição seguinte, com 40 países, a Índia foi a menos precisa e o Brasil apareceu em sexto.
O índice mede inteligência ou escolaridade?
Não. Ele mede apenas o desvio entre percepção e estatística sobre temas como imigração, idade média, desigualdade e obesidade. O rótulo “ignorância” é escolha do próprio instituto e não corresponde ao que é avaliado.
Em que o Brasil mais errou?
Na idade média da população: os brasileiros responderam 56 anos quando a média real era de 31. Também apareceu entre os poucos países que subestimam a concentração de riqueza no 1% mais rico.
Por que as pessoas erram tanto?
Porque superestimam sistematicamente aquilo que as preocupa — imigração, desigualdade, criminalidade — e subestimam o que é incômodo, como a obesidade. O que é raro e ameaçador ocupa mais espaço no noticiário e na conversa, e a mente estima frequência pela facilidade de lembrar exemplos.
Fontes
- Pesquisa Perils of Perception, do instituto Ipsos — página do projeto com todas as edições.
- Dados do ranking e das perguntas sobre imigração, desigualdade, idade média e obesidade: edição de 2015 e edição seguinte, com 40 países.
- Padrões consolidados após uma década de pesquisa, dados sobre redes sociais e confiança em eleições: balanço de 2024.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





