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Meningioma: quais anticoncepcionais aumentam o risco?

Um estudo dinamarquês com 3 milhões de mulheres aponta os anticoncepcionais que elevam o risco de meningioma, com destaque para a injeção trimestral, e mostra que o risco desaparece após 5 anos.

Pílulas anticoncepcionais ao lado de imagem de ressonância magnética mostrando meningioma, tumor cerebral associado ao uso de hormônios.
Pílulas anticoncepcionais ao lado de imagem de ressonância magnética mostrando meningioma, tumor cerebral associado ao uso de hormônios.

Vários anticoncepcionais comuns, incluindo pílulas, DIU e injeção, estão associados a um risco maior de meningioma, um tumor geralmente benigno que cresce nas membranas que revestem o cérebro. É o que mostra um grande estudo dinamarquês que rastreou 3 milhões de mulheres por 25 anos. O dado que mais chama atenção veio da injeção trimestral de medroxiprogesterona (conhecida como Depo-Provera), com um risco quase 5 vezes maior em comparação a quem não usava o método.

Mas o trabalho também trouxe um achado que acalma: o risco extra não é permanente. Cinco anos depois de interromper o uso, a probabilidade volta ao mesmo patamar de quem nunca usou o anticoncepcional. “Esses achados são informações relevantes para as mulheres tratadas e para os médicos que prescrevem”, escrevem os autores.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Agência Dinamarquesa de Medicamentos, liderados por Dr. Charlotte Wessel Skovlund, e publicado no periódico JAMA Network Open em julho de 2026. O DOI do estudo é 10.1001/jamanetworkopen.2026.22603.

O que é meningioma e por que as mulheres são mais afetadas?

Meningioma é o tumor intracraniano mais comum em adultos. Responde por 38% a 42% de todos os tumores primários do sistema nervoso central. Ele surge nas meninges, as membranas que protegem o cérebro e a medula espinhal. Em cerca de 90% dos casos é benigno, mas ainda assim pode causar convulsões, dificuldades cognitivas e déficits neurológicos, muitas vezes exigindo cirurgia ou radioterapia.

As mulheres são desproporcionalmente afetadas. Na Dinamarca, onde o estudo foi feito, a incidência é de 17,9 casos por 100 mil mulheres contra 7,4 por 100 mil homens. Essa diferença sustenta a hipótese de que hormônios femininos têm papel no desenvolvimento do tumor. O motivo biológico é forte: até 87% dos meningiomas carregam receptores de progesterona, ou seja, o tumor tem “fechaduras” onde o hormônio pode se encaixar e estimular seu crescimento.

Estudo revela: anticoncepcionais que aumentam o risco de meningioma

O estudo usou registros nacionais de saúde da Dinamarca para montar um caso-controle aninhado. Foram incluídos 1.473 mulheres com diagnóstico de meningioma e 14.717 controles sem a doença, todas com idade entre 15 e 59 anos. A idade mediana das participantes era de 48 anos. Os pesquisadores cruzaram as prescrições de anticoncepcionais hormonais com o registro de câncer e calcularam as chances de desenvolver o tumor para cada tipo de progestógeno (a versão sintética da progesterona presente nos contraceptivos).

Os números revelam um cenário que varia bastante conforme o método. Para a injeção de medroxiprogesterona, a razão de chances (OR, na sigla em inglês) foi de 4,55 – ou seja, a chance foi 4,55 vezes maior em relação a quem nunca usou anticoncepcional hormonal. O intervalo de confiança de 95% ficou entre 2,19 e 9,45, o que indica que o resultado é estatisticamente significativo.

Traduzindo para o risco absoluto: os pesquisadores calcularam o “número necessário para causar dano” (NNH, na sigla em inglês). Para mulheres de 45 a 49 anos que usam a injeção por um ano, seriam necessárias cerca de 4.337 usuárias para que um caso adicional de meningioma aparecesse. Em faixas etárias mais jovens, o número é bem maior – na casa dos milhões – porque a incidência natural do tumor é muito mais baixa.

Pílula e DIU: o risco existe, mas é menor

Entre as pílulas combinadas (que juntam estrogênio e progestógeno), vários princípios ativos mostraram associação com meningioma. O desogestrel liderou com OR de 1,66 (intervalo de confiança 1,31-2,10), seguido por ciproterona (OR 1,61), drospirenona (OR 1,58), gestodeno (OR 1,44) e levonorgestrel (OR 1,40). Para norgestimato e noretisterona em pílulas combinadas, os intervalos de confiança cruzaram o valor nulo, portanto a associação não ficou confirmada.

Já as pílulas só de progestógeno trouxeram um sinal de alerta para o desogestrel, com OR de 1,73 (IC 1,17-2,56). A noretisterona nessa categoria não mostrou associação relevante (OR 0,95).

No caso dos DIUs hormonais, o de alta dose (52 mg de levonorgestrel) apresentou OR de 1,58 (IC 1,28-1,94), e o risco só ficou evidente após mais de um ano de uso. O DIU de baixa dose (13,5 mg ou 19,5 mg) não teve associação estatisticamente significativa (OR 1,14), mas os autores lembram que esse dispositivo entrou no mercado mais recentemente, e o tempo de uso das participantes foi curto, o que pode ter limitado a análise.

O risco some 5 anos depois de largar o anticoncepcional

Um dos resultados mais tranquilizadores do estudo é a trajetória do risco ao longo do tempo. A exposição no último ano foi a que veio acompanhada dos maiores riscos. Conforme os anos passam, a chance vai caindo – e depois de cinco anos sem o método, ela se iguala estatisticamente à de quem nunca usou. A única exceção parcial foi o desogestrel em pílula combinada, que manteve um sinal residual, mas ainda assim atenuado.

Esse comportamento reforça a plausibilidade biológica: se o progestógeno estimula o crescimento do tumor, tirar o estímulo tende a reverter o processo. A literatura médica já descreveu casos de meningiomas que cresceram durante a gravidez e regrediram após o parto, além de tumores que encolheram quando a terapia hormonal foi suspensa.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores apontam as limitações do trabalho. A primeira delas é que mulheres que removeram o DIU ou o implante antes do prazo recomendado – e não engravidaram nem trocaram de método – continuaram sendo contadas como expostas nos registros. Isso pode ter diluído o risco real, já que parte do tempo de “exposição” era, na verdade, de não uso.

Além disso, alguns progestógenos simplesmente não puderam ser avaliados por falta de casos suficientes. É o caso do etonogestrel (presente no implante e no anel vaginal), que está sob avaliação da Agência Europeia de Medicamentos. Para noretisterona e norgestimato em pílulas combinadas, o tempo médio desde a última exposição era muito longo, o que também dificulta conclusões firmes.

O estudo também não conseguiu estabelecer uma relação clara entre duração de uso e risco para todos os métodos. Em alguns casos, como o DIU de alta dose, o risco só apareceu após mais de um ano; em outros, a análise de duração não teve poder estatístico suficiente.

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Por que isso importa para você?

Milhões de mulheres no mundo usam anticoncepcionais hormonais diariamente. O meningioma, embora seja o tumor cerebral primário mais comum, continua sendo um evento raro – mesmo com o aumento de risco apontado pelo estudo, os números absolutos seguem pequenos. O que muda é a qualidade da informação disponível na hora de pesar benefícios e riscos.

Saber que o risco não é igual para todos os progestógenos, que ele se concentra no uso recente e que desaparece após a interrupção permite uma conversa mais honesta entre mulher e médico. Para quem tem histórico familiar de meningioma ou outros fatores que exijam cautela extra, esses dados podem orientar a escolha do método.

O conteúdo desta matéria é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Qualquer decisão sobre trocar ou suspender um anticoncepcional deve ser tomada em consulta médica.

Fontes

Perguntas frequentes

Anticoncepcional causa meningioma?

Sim, vários anticoncepcionais hormonais estão associados a um risco maior de meningioma, segundo o estudo dinamarquês. A associação não significa causalidade direta, e o risco absoluto é pequeno. O efeito aparece principalmente no uso recente e desaparece cerca de 5 anos após a interrupção.

Quais anticoncepcionais aumentam o risco de meningioma?

A injeção de medroxiprogesterona (Depo-Provera) apresentou o maior risco. Também mostraram associação as pílulas combinadas com ciproterona, desogestrel, drospirenona, gestodeno e levonorgestrel; a pílula só de progestógeno com desogestrel; e o DIU de alta dose (52 mg de levonorgestrel) após mais de um ano de uso.

Injeção anticoncepcional causa meningioma?

A injeção trimestral de medroxiprogesterona (Depo-Provera) foi o método com maior risco no estudo: uma razão de chances de 4,55, ou seja, uma chance quase 5 vezes maior em comparação a não usuárias. O intervalo de confiança de 95% (2,19 a 9,45) indica que o achado é estatisticamente significativo.

DIU aumenta o risco de meningioma?

O DIU de alta dose (52 mg de levonorgestrel) aumentou o risco em 58% (OR 1,58), um efeito que só ficou evidente após mais de um ano de uso. Já o DIU de baixa dose (13,5 mg ou 19,5 mg) não mostrou associação clara, mas o tempo curto de uso das participantes pode ter limitado a análise.

Por que o anticoncepcional causa tumor cerebral?

Até 87% dos meningiomas têm receptores de progesterona – estruturas na superfície das células tumorais onde o hormônio pode se encaixar e estimular o crescimento. Os progestógenos dos anticoncepcionais imitam a progesterona natural e, por isso, podem atuar sobre esses receptores. O mecanismo exato, porém, ainda é uma hipótese biológica, não uma relação de causa comprovada.

O risco de meningioma some após parar o anticoncepcional?

Sim. O estudo mostrou que o risco extra de meningioma praticamente desaparece cinco anos depois de interromper o uso do anticoncepcional hormonal. A exposição nos últimos 12 meses é a que concentra o maior risco.

Foto: Marta Branco no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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