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Cirurgia de mudança de sexo: como é feita, etapas e recuperação (MTF e FTM)

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Equipe de cirurgiões e enfermeira durante procedimento em centro cirúrgico
Foto: National Cancer Institute (NIH), domínio público, via Wikimedia Commons
Resumo em 15 segundos
  • Não é uma cirurgia só: cada pessoa trans escolhe quais procedimentos fazer, ou nenhum.
  • Meta-análise com 7.928 pacientes estimou o arrependimento em cerca de 1%.
  • As complicações são frequentes: 32,5% após vaginoplastia, e a faloplastia tem as taxas mais altas.
  • No Brasil, a Resolução CFM 2.427/2025 exige 21 anos para cirurgias com efeito esterilizante.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

A cirurgia de mudança de sexo, chamada tecnicamente de cirurgia de redesignação sexual ou de afirmação de gênero, não é uma operação única: é um conjunto de procedimentos que cada pessoa trans escolhe, ou não, ao longo de um processo que costuma levar anos. Ele começa com acompanhamento médico e psicológico e, em geral, passa pela hormonioterapia antes de chegar ao centro cirúrgico.

Este guia explica como são feitos os principais procedimentos nas transições do masculino para o feminino (MTF) e do feminino para o masculino (FTM), o que dizem os estudos sobre resultados, complicações e arrependimento, e quais são as regras em vigor no Brasil em 2026.

O que é a cirurgia de redesignação sexual?

São procedimentos que modificam características do corpo, genitais ou não, para aproximá-lo da identidade de gênero da pessoa. O objetivo clínico é aliviar a disforia de gênero, o sofrimento causado pela incongruência entre o gênero vivido e o corpo. A diretriz internacional mais usada, os Standards of Care versão 8 da WPATH (Associação Profissional Mundial para a Saúde Transgênero), publicada em 2022, trata cada cirurgia como uma opção individual, e não como etapa obrigatória.

Na prática, isso significa que muitas pessoas trans fazem só parte dos procedimentos, e muitas não fazem nenhum. Desde 2018, por decisão do Supremo Tribunal Federal, a cirurgia também não é exigida para mudar nome e gênero nos documentos.

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Como é feita a cirurgia de masculino para feminino (MTF)?

O procedimento genital mais comum é a vaginoplastia, que constrói vulva e canal vaginal. Há três abordagens principais:

  • Inversão peniana: a pele do pênis é invertida para revestir o novo canal, e a pele do escroto costuma formar os grandes lábios. É a técnica mais usada no mundo.
  • Vaginoplastia com segmento intestinal: usa um trecho do cólon para revestir o canal. Costuma ser indicada quando há pouca pele disponível ou em cirurgias de revisão.
  • Vaginoplastia com peritônio: técnica mais recente, que usa a membrana que reveste o abdômen, geralmente por videolaparoscopia ou cirurgia robótica.

Na mesma cirurgia ou em etapas separadas são feitas a orquiectomia (retirada dos testículos), a clitoroplastia, que forma um clitóris sensível a partir da glande, e a labioplastia. Fora da região genital, os procedimentos mais procurados são o implante mamário e a cirurgia de feminização facial.

Depois da vaginoplastia, a paciente precisa fazer dilatações com moldes durante meses, e depois com menor frequência por tempo indeterminado, para manter a profundidade do canal.

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Como é feita a cirurgia de feminino para masculino (FTM)?

A cirurgia mais procurada por homens trans é a mastectomia masculinizadora (a “top surgery”), que retira o tecido mamário e remodela o tórax. Costuma ser o primeiro e, muitas vezes, o único procedimento. A recuperação inicial leva algumas semanas.

A histerectomia, retirada do útero e, às vezes, dos ovários, é outra opção frequente. Para quem deseja cirurgia genital, há dois caminhos:

  • Metoidioplastia: libera o clitóris, que cresce com o uso de testosterona, para formar um pênis pequeno. Preserva a sensibilidade erógena, mas em geral não permite penetração.
  • Faloplastia: constrói um pênis maior com um retalho de pele e tecido, geralmente do antebraço (retalho radial) ou da coxa, em várias etapas. A ereção depende de uma prótese implantada numa cirurgia posterior.

A faloplastia é a mais complexa de todas as cirurgias de afirmação de gênero. O ponto crítico é a nova uretra: numa revisão publicada na Clinical Anatomy, o urologista Richard Santucci relata que o estreitamento da uretra (estenose) chega a 51% dos casos na técnica com antebraço e só cai para 23% a 35% nas mãos dos cirurgiões mais experientes.

O que dizem os estudos sobre resultados e complicações?

As taxas de complicação não são baixas, e isso faz parte da decisão. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2017 na Clinical Anatomy reuniu 13 estudos e 1.684 pacientes submetidas a vaginoplastia: 32,5% tiveram alguma complicação e 21,7% precisaram de nova cirurgia por motivos não estéticos. A mais comum foi o estreitamento da abertura da uretra (14,4%). Os autores ressaltam que técnicas e critérios de registro variam muito entre os centros, o que dificulta comparar resultados.

Sobre arrependimento, a referência mais citada é uma revisão sistemática com meta-análise de 2021, na Plastic and Reconstructive Surgery Global Open. Ela reuniu 27 estudos e 7.928 pacientes e encontrou prevalência de arrependimento de cerca de 1% (intervalo de confiança de 95%: menos de 1% a 2%). Os próprios autores apontam as limitações: não há questionário padronizado para medir arrependimento, e o acompanhamento dos estudos é heterogêneo. Ou seja, o número é baixo, mas não é definitivo.

Quais são as regras no Brasil em 2026?

O SUS oferece o chamado Processo Transexualizador desde 2008. As regras de atendimento no sistema público estão na Portaria nº 2.803/2013 do Ministério da Saúde, que prevê cirurgias a partir dos 21 anos e dois anos de acompanhamento prévio por equipe multiprofissional, em hospitais habilitados. As vagas são poucas e as filas, longas.

Para os médicos, vale a Resolução nº 2.427/2025 do Conselho Federal de Medicina, publicada em abril de 2025, que substituiu as regras anteriores. Os pontos principais:

  • proíbe o uso de bloqueadores de puberdade para disforia de gênero em crianças e adolescentes;
  • permite a hormonioterapia só a partir dos 18 anos, depois de pelo menos um ano de acompanhamento psiquiátrico e endocrinológico;
  • exige pelo menos um ano de acompanhamento antes de qualquer cirurgia e proíbe, antes dos 21 anos, as cirurgias com potencial efeito esterilizante, em linha com a Lei nº 14.443/2022;
  • determina que, em casos de arrependimento ou destransição, o médico ofereça acolhimento e suporte.

A resolução é contestada no Supremo Tribunal Federal. Chegou a ser suspensa pela Justiça Federal do Acre em julho de 2025, mas o ministro Flávio Dino restabeleceu sua validade em outubro do mesmo ano, decisão mantida pela Primeira Turma. O julgamento definitivo ainda não havia ocorrido até a data desta atualização.

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Uma breve história da cirurgia de redesignação

Os primeiros registros são do começo do século XX. Em 1917, o médico americano Alan L. Hart fez uma histerectomia para viver como homem, um dos primeiros casos documentados de cirurgia motivada por identidade de gênero. Em 1931, em Berlim, Dora Richter passou por uma vaginoplastia no Instituto de Ciência Sexual de Magnus Hirschfeld. No mesmo ano morreu a pintora dinamarquesa Lili Elbe, após uma série de cirurgias que terminou numa tentativa de transplante de útero. Sua história inspirou o filme A Garota Dinamarquesa (2015).

A faloplastia já existia antes, para reconstruir o pênis após traumas: o cirurgião russo Nikolaj Bogoraz descreveu a primeira em 1936. O que o britânico Harold Gillies fez, entre 1946 e 1949, foi aplicá-la pela primeira vez a um homem trans, Michael Dillon. Muitos princípios da reconstrução com retalhos que ele desenvolveu ainda são usados.

Por que isso importa?

É um tema cercado de ruído, e informação correta ajuda tanto quem considera a cirurgia quanto quem só quer entender o debate. Os dados mostram três coisas ao mesmo tempo: as cirurgias podem aliviar um sofrimento real, o arrependimento é raro nos estudos disponíveis, e as complicações são frequentes o bastante para exigir decisão informada, cirurgião experiente e acompanhamento de longo prazo.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação de uma equipe de saúde especializada.

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Perguntas frequentes

Como é feita a cirurgia de mudança de sexo?

Não é uma cirurgia só, e sim um conjunto de procedimentos escolhidos por cada pessoa. Na transição de masculino para feminino, o principal é a vaginoplastia, geralmente por inversão peniana. Na de feminino para masculino, os mais comuns são a mastectomia masculinizadora e a histerectomia; a cirurgia genital pode ser a metoidioplastia ou a faloplastia.

Qual a idade mínima para a cirurgia no Brasil?

Pela Resolução CFM nº 2.427/2025, cirurgias com potencial efeito esterilizante só podem ser feitas a partir dos 21 anos, e todas exigem pelo menos um ano de acompanhamento prévio. No SUS, a Portaria nº 2.803/2013 prevê cirurgias a partir dos 21 anos, com dois anos de acompanhamento.

O SUS faz a cirurgia de redesignação sexual?

Sim. O Processo Transexualizador existe no SUS desde 2008 e inclui acompanhamento, hormonioterapia e cirurgias em hospitais habilitados pelo Ministério da Saúde. A oferta é limitada e a espera costuma ser longa.

Quantas pessoas se arrependem da cirurgia?

Uma meta-análise de 2021 com 27 estudos e 7.928 pacientes estimou o arrependimento em cerca de 1%. Os autores ressalvam que não há método padronizado para medir arrependimento e que o acompanhamento dos estudos varia.

Qual a diferença entre metoidioplastia e faloplastia?

A metoidioplastia forma um pênis pequeno a partir do clitóris aumentado pela testosterona, preservando a sensibilidade. A faloplastia constrói um pênis maior com tecido de outra parte do corpo, em várias etapas, e tem taxa bem mais alta de complicações na uretra.

Fontes

Foto: National Cancer Institute / NIH (domínio público)

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri. Atualizada em setembro de 2026.

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