Drogas ilícitas e AVC têm uma relação que vai além da cocaína. Uma nova análise com mais de 100 milhões de participantes, uma marca que poucas pesquisas em saúde alcançam, mostrou que maconha, cocaína e anfetaminas aparecem associadas ao derrame. E, desta vez, os pesquisadores usaram a genética para argumentar que essa ligação pode ser de causa e efeito, não apenas coincidência.
O trabalho combinou duas abordagens complementares: revisou 32 estudos observacionais e aplicou a técnica de randomização mendeliana, que usa variações genéticas para testar se um fator realmente influencia um desfecho. O resultado reforça o que a medicina já desconfiava: o uso de substâncias ilícitas merece um lugar na lista de fatores de risco do AVC.
A análise é assinada por Megan Ritson, Hugh S Markus e Eric L Harshfield e foi publicada no International Journal of Stroke (volume 21, número 6), em 8 de março de 2026. O DOI é 10.1177/17474930261418926. O protocolo foi registrado no PROSPERO (CRD420251053702) em 20 de maio de 2025, e o estudo recebeu financiamento da British Heart Foundation. Ao todo, os autores revisaram 2.742 artigos até chegar aos 32 incluídos na meta-análise.
O que é randomização mendeliana e por que ela importa?
Randomização mendeliana é uma técnica estatística que usa variações genéticas herdadas ao acaso como uma espécie de sorteio natural para testar se um fator tem efeito causal sobre uma doença.
O problema que ela resolve é o da confusão. Quem usa droga costuma ter outros hábitos que também fazem mal, como fumar e beber. Então, como saber se a droga é a culpada? A randomização mendeliana compara pessoas por genes que predispõem ao comportamento. Como os genes são definidos na concepção, eles não mudam com o estilo de vida. Se quem carrega essas variantes genéticas tem mais AVC, essa é uma pista forte de que a substância, e não o resto, está por trás do risco.
Drogas ilícitas e AVC: o que o estudo encontrou?
Na meta-análise, que soma os resultados dos 32 estudos observacionais, três drogas apareceram associadas ao AVC. Cocaína: OR 1,96 (intervalo de confiança de 95%: 1,27–3,01). Anfetaminas: OR 2,22 (1,40–3,53). Maconha: OR 1,37 (1,14–1,65). Opioides não mostraram associação significativa (OR 1,20; 0,52–2,74).
Esses números são riscos relativos. Eles comparam a chance de AVC em quem usa a substância com a chance em quem não usa, mas não informam o risco absoluto — ou seja, quantos AVCs por mil habitantes acontecem em cada grupo. Em outras palavras: um OR de 2,22 significa que, na literatura reunida, o grupo de usuários de anfetaminas teve mais que o dobro de chance de AVC. Não diz, porém, se isso representa um evento raro ou comum em termos absolutos.
Em pessoas com menos de 55 anos, as associações se mantiveram. As anfetaminas subiram para OR 2,74, a cocaína ficou em OR 1,97 e a maconha em OR 1,14. Os opioides, por outro lado, apareceram com OR 0,36 — um risco menor —, mas os próprios autores atribuem isso a viés de seleção e ao tamanho pequeno da amostra, não a um efeito protetor.
O que a análise genética acrescentou?
Na segunda parte do estudo, os pesquisadores olharam para sete exposições relacionadas a substâncias e para vários tipos de AVC. O transtorno por uso de substâncias, analisado como um todo, apareceu associado a AVC em geral (OR 1,33) e, de forma mais forte, a hemorragia intracerebral, ou seja, sangramento dentro do cérebro (OR 7,79). Esse último número é alto, mas o intervalo de confiança é largo (3,46–17,54), o que pede cautela.
Drogas específicas apareceram ligadas a subtipos de AVC. O transtorno por uso de cannabis se associou a AVC em geral (OR 1,11) e a AVC de grandes artérias (OR 1,35). A dependência de cocaína se associou a AVC cardioembólico, causado por um coágulo que viaja do coração ao cérebro (OR 1,08), e a hemorragia intracerebral (OR 1,38).
O uso problemático e a dependência de álcool também apareceram ligados a AVC de grandes artérias (OR 2,00) e cardioembólico (OR 1,51). A dependência de nicotina não mostrou associações significativas com nenhum subtipo. E as anfetaminas, apesar da associação forte na meta-análise, não puderam ser avaliadas na análise genética por falta de instrumentos genéticos adequados.
Há ainda uma divergência interna que merece registro: na meta-análise, os opioides não tiveram associação com AVC; na análise genética, que focou principalmente em opioides prescritos, houve uma associação modesta (OR 1,05). Os autores interpretam esse resultado com cautela.
O que isso significa na prática?
O AVC é a terceira causa de morte e incapacidade combinadas no mundo, e o estudo lembra que a carga global da doença cresceu 70% entre 1990 e 2021. A maior parte desse peso vem de fatores modificáveis. Se o uso de substâncias ilícitas é um deles, avaliar esse hábito deixa de ser questão de julgamento e passa a ser estratégia de saúde pública.
Para você, que nunca usou droga ilícita, a informação ainda importa. Saber que a maconha, muitas vezes vista como inofensiva, apareceu associada ao derrame ajuda a ter conversas mais honestas sobre prevenção. O estudo não diz que todo usuário terá um AVC — longe disso. Ele mostra que, na média, o risco relativo é maior, e que tratar o uso problemático é uma intervenção possível.
O que o estudo ainda não explica?
Os autores listam limitações importantes. A primeira é a heterogeneidade: os estudos observacionais eram muito diferentes entre si, com valores de heterogeneidade acima de 95% em várias análises. Isso reduz a precisão das estimativas.
Há também a questão da generalização. Dos 32 estudos incluídos, 27 foram realizados nos Estados Unidos — e todos os estudos de cocaína eram americanos. A maioria dos dados veio de registros hospitalares, o que pode introduzir viés de seleção. Na parte genética, a análise foi restrita a populações de ancestralidade europeia, e para algumas drogas os critérios estatísticos precisaram ser relaxados. A dependência de cocaína, por exemplo, ficou limitada aos 100 principais marcadores genéticos.
Os mecanismos exatos também não foram medidos neste estudo. Os autores citam como hipóteses a vasoconstrição cerebral, os picos de pressão arterial e a aceleração da aterosclerose, mas não os testaram diretamente. Além disso, muitos estudos não informaram há quanto tempo a pessoa usou a substância, o que limita análises sobre o efeito do tempo de uso.
Por que isso importa?
Este é o trabalho mais abrangente até aqui a olhar para várias drogas ilícitas ao mesmo tempo e a cruzar observação com genética. A consistência entre as duas abordagens é o que dá força à conclusão: a associação entre algumas drogas e o AVC dificilmente é só uma coincidência estatística.
Não é uma prova absoluta, ciência raramente é. Mas é um lembrete de que o derrame raramente tem uma causa única. Na lista do que uma pessoa pode controlar para reduzir o risco, o uso de substâncias ilícitas agora tem um lugar mais claro. Diferente da idade ou da genética, é um fator que dá para modificar. E isso, no fim das contas, é uma notícia útil.
Fontes
- Ritson M, Markus HS, Harshfield EL. “Does illicit drug use increase stroke risk? A systematic review, meta-analyses, and Mendelian randomization analysis.” International Journal of Stroke, vol. 21, n. 6, 2026. DOI: 10.1177/17474930261418926
- Material suplementar do estudo (tabelas, figuras e análises de sensibilidade), disponível na página do artigo.
- Registro PROSPERO CRD420251053702, citado no artigo como protocolo pré-registrado em 20 de maio de 2025.
Perguntas frequentes
Drogas ilícitas podem causar AVC?
Segundo o estudo, várias drogas ilícitas aparecem associadas ao AVC, e a análise genética sugere que parte dessa associação é causal. A evidência é mais forte para cocaína, anfetaminas e maconha; para opioides, a meta-análise não encontrou associação significativa.
Cocaína pode causar derrame?
Sim. Na meta-análise, a cocaína apareceu associada a quase o dobro de chance de AVC (OR 1,96) em relação a quem não usa. A análise genética também associou a dependência de cocaína a AVC cardioembólico (OR 1,08) e a hemorragia intracerebral (OR 1,38).
Maconha aumenta o risco de AVC?
Sim, segundo o estudo. O uso de maconha apareceu associado a um aumento de 37% na chance de AVC (OR 1,37), com o excesso concentrado no AVC isquêmico. A análise genética associou o transtorno por uso de cannabis a AVC em geral (OR 1,11) e a AVC de grandes artérias (OR 1,35).
Qual droga aumenta mais o risco de derrame?
Na meta-análise, as anfetaminas tiveram a maior associação (OR 2,22), seguidas pela cocaína (OR 1,96) e pela maconha (OR 1,37). Opioides não mostraram associação significativa no conjunto dos estudos observacionais.
O que é randomização mendeliana?
É uma técnica que usa variações genéticas herdadas ao acaso como instrumento para testar se um fator influencia de verdade um desfecho. Ela ajuda a separar o que é causa do que é apenas associação, porque os genes são definidos no nascimento e não mudam com o comportamento.
Como as drogas aumentam o risco de derrame?
Os autores citam mecanismos como vasoconstrição cerebral, picos de pressão arterial e aceleração da aterosclerose, mas esses mecanismos são hipóteses discutidas no artigo, não foram medidos no estudo.
Foto: Miguel Á. Padriñán no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





