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Veneno de sapo para depressão: o que dois ensaios mostram

Dois ensaios de fase 2b testaram a mebufotenina do veneno de sapo na depressão resistente; um teve 57,5% de remissão em oito dias.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

8 min de leitura ·

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Sapo americano visto de perto, descansando sobre a palma da mão humana em ambiente natural.
Foto: David Coleman / Pexels
Resumo em 15 segundos
  • Um ensaio com 81 pacientes teve remissão de 57,5% com mebufotenina inalada e 0% com placebo.
  • Outro ensaio, com 193 pacientes, comparou três doses de spray nasal.
  • O crítico Chittaranjan Andrade estimou melhora média de cerca de 30% e apontou ressalvas.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Uma substância que existe no veneno do sapo do deserto de Sonora fez com que 57,5% dos pacientes de um ensaio saíssem da depressão em oito dias. No grupo que recebeu placebo, ninguém chegou lá. O dado é do menor de dois estudos de fase 2b que testaram a mebufotenina, o 5-MeO-DMT, contra a depressão resistente ao tratamento, e é ele que dá peso à expressão veneno de sapo para depressão.

O outro ensaio, maior, não teve placebo: 193 pessoas receberam uma dose única de spray nasal em três dosagens diferentes. Ali, o número que chama a atenção não é a remissão, e sim o relógio. A experiência psicodélica passa em cerca de uma hora e a maioria dos pacientes estava liberada para ir embora em duas. A ressalva vem de um pesquisador que não participou do trabalho: na média, o paciente ficou cerca de 30% melhor. E nenhuma das formulações é remédio aprovado.

Dados do estudo: o ensaio do spray nasal foi conduzido por David Feifel e colegas, em instituições da Austrália, da Europa e dos Estados Unidos, com financiamento da AtaiBeckley, subsidiária da farmacêutica Eli Lilly. Foi divulgado em 27 de outubro de 2026 e publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), segundo a ScienceAlert. O ensaio controlado por placebo foi liderado por Wiesław J. Cubała e colegas, em 16 centros da Europa, e saiu na JAMA Psychiatry em junho de 2026, com o DOI 10.1001/jamapsychiatry.2026.0096.

O que é a mebufotenina, a substância por trás do veneno de sapo para depressão?

A mebufotenina é uma molécula psicoativa, ou seja, que altera a percepção, a sensação de tempo e o humor, encontrada no veneno do sapo Incilius alvarius, o sapo do deserto do Sonora. Quimicamente, é o 5-MeO-DMT, primo da DMT, com uma diferença que os pesquisadores destacam: os efeitos visuais tendem a ser bem menos intensos.

Agora, vale separar três coisas que costumam vir embaladas no mesmo nome. A primeira é o veneno do sapo em si. A segunda é a droga de rua conhecida como bufo, geralmente vendida como veneno seco do animal, que carrega mebufotenina e também bufotenina (5-HO-DMT). A terceira é o que foi testado nos ensaios: uma versão sintética e pura de 5-MeO-DMT.

Essa distinção não é preciosismo. É o que permite saber a dose exata e comparar resultados entre pacientes. E é também o motivo pelo qual nada do que está descrito aqui serve como receita caseira: os protocolos usaram a molécula isolada, não o veneno do animal.

O ensaio de 193 pacientes: spray nasal, três doses e alta em cerca de duas horas

O estudo maior reuniu 193 pessoas com depressão maior moderada a grave. Depressão resistente ao tratamento, no vocabulário dos ensaios, é aquela que não responde a dois a cinco antidepressivos orais. Era exatamente o perfil do grupo: todos já tinham tentado de dois a cinco durante o episódio atual, sem efeito.

Cada participante recebeu uma dose única do spray nasal de benzoato de mebufotenina, com 0,3 mg, 8 mg ou 12 mg, sem saber qual delas. Antes, durante e depois da experiência, houve apoio psicológico, seguindo o protocolo de ambientação típico dos tratamentos psicodélicos.

A sessão é curta. A maioria dos pacientes estava pronta para deixar o atendimento em cerca de duas horas, depois de confirmar que os efeitos agudos tinham passado. “Esse retorno rápido ao estado normal, junto com a dose pouco frequente indicada pela longa durabilidade do efeito antidepressivo depois de uma dose única, pode oferecer vantagens importantes para pacientes e clínicos”, escreveram Feifel e colegas. A comparação deles: a escetamina e a estimulação magnética transcraniana exigem retratamento frequente, enquanto psilocibina e LSD pedem de quatro a doze horas de monitoramento.

Na comparação entre as doses, as de 12 mg e 8 mg melhoraram os escores de depressão em 5,3 e 6,2 pontos mais do que a dose mais baixa, de 0,3 mg. A de 8 mg foi a escolhida para a fase 3, por parecer o melhor equilíbrio entre segurança e eficácia. Nessa etapa, a substância será testada em um grupo bem maior e comparada a tratamentos que já existem.

O efeito começa perto do segundo dia e dura pelo menos oito semanas

Na maioria dos pacientes, o benefício apareceu cerca de dois dias depois da sessão e continuou por pelo menos oito semanas. É um ritmo bem diferente do que se costuma ver com antidepressivos convencionais, que levam semanas para mostrar efeito. Só que essa comparação não foi feita frente a frente no estudo.

Efeitos colaterais da mebufotenina: dor de cabeça, náusea e um caso de pânico

A maior parte dos participantes teve algum efeito colateral, mas quase todos foram leves ou moderados: dor de cabeça, náusea e dor no nariz. Passaram rápido e apareceram só no dia da dose. Uma pessoa teve dois ataques de pânico graves durante o tratamento.

No ensaio controlado por placebo, o período de comparação não registrou nenhum evento adverso grave ou sério. Vale saber que “grave” e “sério”, em pesquisa clínica, são categorias técnicas, não sinônimos de “desagradável”.

Um segundo ensaio, agora com placebo: 57,5% de remissão com a mebufotenina inalada

O estudo assinado por Cubała e colegas tem outro desenho, e os números dos dois não devem ser somados. Foram avaliadas 128 pessoas, e 81 foram sorteadas em 16 centros europeus, entre maio de 2023 e março de 2025. Os participantes tinham de 18 a 64 anos, não respondiam a dois a cinco antidepressivos orais e estavam com o episódio atual há até dois anos. A média de idade era de 41,6 anos no grupo da mebufotenina e 43,9 no placebo; mulheres eram 60,0% e 53,7%, respectivamente.

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A intervenção durou um dia: até três doses escalonadas de GH001, a mebufotenina inalada, com 6 mg, 12 mg e 18 mg, ou um regime de placebo, sorteados meio a meio. O desfecho principal foi a mudança no escore da Escala de Depressão de Montgomery-Åsberg, que vai de 0 a 60 e, quanto maior, mais grave. Entre o início e o oitavo dia, a queda foi 15,5 pontos maior com GH001 do que com placebo (p < 0,001; tamanho de efeito de −2,0).

No oitavo dia, 23 dos 40 pacientes do grupo GH001 (57,5%) estavam em remissão, contra nenhum dos 41 do placebo. Ali, remissão significa escore de 10 ou menos na escala. São dois retratos diferentes da mesma molécula: um ensaio comparou três doses entre si; o outro, a substância contra placebo.

A conta de Andrade: melhora de cerca de 30% e uma definição frouxa de “resistente”

Chittaranjan Andrade, pesquisador de psicofarmacologia do Instituto Nacional de Saúde Mental e Neurociências da Índia, não participou dos ensaios, mas escreveu um comentário sobre o trabalho, também publicado na JAMA. A leitura dele é menos entusiasmada. “O efeito antidepressivo foi incompleto”, escreveu. Em média, o paciente ficou cerca de 30% melhor, e as taxas de resposta e de remissão ficaram abaixo das vistas, por exemplo, com cetamina e eletroconvulsoterapia.

Andrade também questiona o rótulo. Nenhum paciente do ensaio do spray nasal havia passado por cetamina ou eletroconvulsoterapia, ou seja, o grupo não era o mais difícil de todos. Na avaliação dele, “difícil de tratar” descreve melhor essas pessoas do que “resistente ao tratamento”.

Há mais duas ressalvas. O estudo excluiu qualquer paciente que relatasse ideação suicida, então não se sabe como a molécula se comportaria nesse grupo. E, como foi testada como monoterapia, sozinha, sem outro antidepressivo, a pesquisa não indica quando nem como fazer a transição para um antidepressivo convencional, nem se a própria mebufotenina serviria para manutenção.

A mebufotenina ainda não é remédio aprovado para depressão

Não. Nenhuma das formulações está aprovada para tratar depressão, e a molécula está na faixa mais restrita de classificação de drogas (Schedule 1/Class A), o que limita pesquisa e uso. A ScienceAlert resume: ainda há um longo caminho até ver a substância em uso médico fora de ambientes de pesquisa.

O próximo passo é a fase 3 com a dose de 8 mg do spray nasal. Ensaios dessa etapa recrutam muito mais gente e comparam o candidato a tratamentos que já existem. É ali que o tamanho real do efeito costuma ficar mais claro — incluindo para quem convive com uma depressão que já resistiu a várias tentativas de tratamento.

Importante: este texto é informativo; não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

Fontes

Perguntas frequentes

A mebufotenina é a mesma coisa que o veneno do sapo?

A mebufotenina (5-MeO-DMT) é uma das moléculas presentes no veneno do sapo do deserto de Sonora, mas os ensaios usaram uma versão sintética e pura, não o veneno. A droga de rua conhecida como bufo costuma ser vendida como veneno seco do animal e contém também bufotenina.

A mebufotenina foi testada em pessoas com risco de suicídio?

Não. O ensaio do spray nasal excluiu pacientes que relatavam ideação suicida, então não é possível saber, a partir desses resultados, como a mebufotenina se comporta nesse grupo.

Já existe previsão de aprovação da mebufotenina para depressão?

Não há data. A formulação de 8 mg do spray nasal vai entrar na fase 3, que testa a substância em um grupo maior e a compara com tratamentos existentes; até lá, a mebufotenina segue restrita à pesquisa.

Foto: David Coleman no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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