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Axolote mostra sua inteligência e surpreende cientistas

Estudo com 22 axolotes mostra que eles escolhem a abertura maior para passar e mantêm a preferência até no escuro total.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Axolote nadando: estudo revela a inteligência do axolote ao distinguir tamanhos de aberturas na água
Axolote nadando: estudo revela a inteligência do axolote ao distinguir tamanhos de aberturas na água
Resumo em 15 segundos
  • O axolote Ambystoma mexicanum escolheu a abertura maior em 94 dos 120 testes de um experimento.
  • Todos os 22 axolotes analisados preferiram a passagem maior, até na menor diferença testada, de 2,9 cm².
  • O estudo sugere que os axolotes podem usar a linha lateral, órgão que capta vibrações na água.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Todo dia, um axolote precisa decidir por onde passar. No fundo lamacento dos canais do México, onde vive o Ambystoma mexicanum, pedras e troncos formam aberturas de tamanhos diferentes, e errar pode significar ficar preso, se machucar ou tornar-se presa fácil. Um novo estudo, publicado na revista Animal Behaviour, acompanhou 22 desses animais e mostrou que eles não escolhem ao acaso: preferem, quase sempre, a abertura maior.

O detalhe que muda a conversa é outro. A preferência dos axolotes continuou firme no escuro total, quando praticamente não havia luz para enxergar. Isso empurra a discussão sobre a inteligência do axolote para além dos olhos: talvez o bicho se oriente com outros sentidos, algo que a ciência ainda não tinha testado nessa espécie.

Dados do estudo: o trabalho foi liderado por Oxána Bánszegi e Péter Szenczi, com Marcos Rosetti, Santiago Trujillo Carreño, Natalia Serrano Torres, Jessica Cristina Marín-Llera e Jesús Chimal-Monroy. Os experimentos aconteceram no Laboratório de Morfogênese e Regeneração do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), e o artigo saiu na revista Animal Behaviour. O DOI é 10.1016/j.anbehav.2026.123618.

O que é discriminação de quantidade (e o que é a Lei de Weber)?

Discriminação de quantidade é a capacidade de perceber diferenças entre grandezas: qual de duas coisas é maior, ou quantos itens há em cada grupo. É a mesma habilidade que você usa ao escolher a fatia maior de bolo sem contar nada. Nos animais, ela costuma estar ligada a decisões que pesam na sobrevivência, como onde há mais comida e qual caminho oferece menos risco.

Uma ideia central nesses estudos é a Lei de Weber. Em vez da diferença absoluta, ela olha para a proporção entre dois valores. Funciona mais ou menos assim: perceber a diferença entre uma bola de tênis e uma de basquete é moleza, mas notar a diferença de poucos centímetros entre duas malas parecidas já é bem mais difícil. A pergunta do grupo era se os axolotes seguem essa mesma lógica ao medir buracos.

Como o experimento funcionou e o que os axolotes escolheram?

Os pesquisadores testaram 24 axolotes jovens, de cerca de 7 meses e aproximadamente 16 cm de comprimento, mais ou menos o tamanho de uma caneta. Cada animal vivia sozinho em um aquário, com água entre 15 e 16 °C. Uma placa cinza com dois furos circulares foi colocada dentro do tanque, dividindo o espaço. Para ir de um lado ao outro, o bicho tinha que atravessar por um dos buracos.

Os dois furos sempre tinham tamanhos diferentes, em seis combinações. Na maioria delas, o menor ficava fixo em 3,5 cm de diâmetro, enquanto o outro variava de 4 cm a 6 cm. O teste durou 18 dias por animal, ou 432 horas de observação.

A resposta foi clara

Dos 24 axolotes, dois foram descartados por se moverem pouco, menos de 10 travessias em 72 horas. Entre os 22 restantes, todos escolheram o buraco maior significativamente mais vezes do que o menor. No total, foram 120 testes, e em 94 deles a preferência pela abertura grande apareceu de forma estatisticamente significativa.

Os animais perceberam até diferenças pequenas: a menor delas tinha 2,9 cm² de área entre os dois buracos, o que corresponde a uma proporção de 0,75 entre eles. É um limite mais fino do que o visto em outras salamandras testadas antes em contexto de alimentação, que paravam em 0,67, mas os autores atribuem a diferença ao método, não a uma suposta vantagem dos axolotes.

Infográfico detalhando a metodologia do estudo.
Infográfico explicando a metodologia do estudo.

Um padrão curioso surgiu quando os furos ficavam maiores. Quanto maior a área total das duas aberturas juntas, menor a preferência pelo buraco grande. Ou seja: quando os dois já eram folgados, o axolote ficava menos exigente. Pelo melhor modelo ajustado aos dados, a escolha foi guiada principalmente pela diferença absoluta de área entre os buracos, e não pela proporção, como prevê a Lei de Weber.

Só que os próprios autores fazem uma ressalva importante. A diferença absoluta e a proporção entre os buracos estavam fortemente correlacionadas no experimento, então não dá para cravar qual mecanismo perceptual está por trás da decisão. O que se pode afirmar com segurança é que o comportamento é compatível com uma escala weberiana, não que isso esteja provado.

Os testes também compararam dia e noite. À noite, os axolotes atravessaram menos vezes, mas continuaram preferindo o buraco maior. E não houve sinal de aprendizado ao longo dos três dias de cada teste: o desempenho não melhorou com o tempo.

Axolote é inteligente? O que o estudo sobre a inteligência da espécie mostra

Se “inteligente” significa resolver problemas do dia a dia, o estudo dá um sim modesto. Escolher a passagem maior exige avaliar o ambiente e agir de acordo, uma habilidade cognitiva básica, mas real. O axolote é um animal pouco estudado nesse quesito, e este é um dos primeiros trabalhos a olhar para a cognição da espécie por um ângulo ecológico, isto é, ligado ao que o bicho faz na natureza.

Tem motivo de sobra para tanto interesse. O axolote é um símbolo do México; está criticamente ameaçado de extinção e chama a atenção por uma capacidade rara: regenerar partes do corpo, incluindo o cérebro. Isso o transformou em modelo de pesquisa em desenvolvimento e biomedicina. Entender como ele pensa ajuda a fechar uma lacuna, saber como os processos do sistema nervoso viram decisões práticas, como atravessar um buraco.

E por que ele preferiria o buraco maior se caberia no menor? Os autores levantam duas explicações que podem se somar. Uma é que encostar em algo ao se mover pode denunciar a posição do animal a predadores. A outra é que o contato com objetos estranhos na água pode machucar as camadas protetoras da pele, abrindo porta para infecções e parasitas.

O que o estudo ainda não explica?

O ponto mais em aberto é como o axolote percebe os buracos. A visão dele é fraca: em água clara, captura presas a no máximo 7 cm de distância, e no habitat natural a água turva atrapalha ainda mais. No escuro do experimento, com apenas uma luz infravermelha de 850 nm ligada, os animais ainda acertavam. Só que a literatura sobre anfíbios indica que eles provavelmente não enxergam nesse comprimento de onda, e a própria água absorve muito o infravermelho.

Uma hipótese é que os axolotes tenham memorizado a posição do buraco grande e usado essa lembrança à noite. Outra, que os autores consideram plausível, é que eles não dependam só da visão. Os axolotes têm um sistema de linha lateral, um órgão mecanossensorial que capta movimentos da água, vibrações e mudanças de pressão ao redor. Como o bicho se desloca mais à noite na natureza, talvez esse órgão ajude a navegar quase no breu. Testar a ideia fica para o futuro.

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Há ainda uma sugestão mais ousada, que os próprios autores pedem para tratar com cautela: a de que os axolotes tenham alguma noção do próprio tamanho corporal. Escolher buracos compatíveis com o corpo seria um sinal disso, mas confirmar essa capacidade exigiria experimentos específicos, que ainda não foram feitos.

Existe também um limite conhecido dos testes de comportamento espontâneo. Eles medem o que o animal se dispõe a fazer, não o teto do que ele é capaz. Por isso, os resultados dizem mais sobre respostas a informações relevantes do ambiente do que sobre os limites cognitivos da espécie.

Por que isso importa na natureza?

Saber que um axolote distingue buracos e escolhe o maior parece um detalhe pequeno. Mas esse tipo de informação ajuda a entender como uma espécie criticamente ameaçada usa o espaço em que vive, e os autores apontam possíveis implicações para o estudo de traços cognitivos que podem influenciar o uso do habitat, os padrões de deslocamento e as interações entre espécies.

O trabalho também reforça uma ideia maior: lidar com quantidades não é privilégio de bichos de cérebro grande ou de visão apurada. A habilidade aparece em peixes testados com o mesmo método dos buracos e agora em um anfíbio de hábitos noturnos e olhos fracos. Quanto mais os cientistas olham, mais a conta muda.

Da próxima vez que você vir um axolote parado no fundo do aquário, parecendo só uma criatura pacífica, lembre-se: por trás daquela placidez há um animal que mede o mundo ao redor antes de se mexer. E que talvez faça isso com sensores que nós nem temos.

Perguntas frequentes

Axolote é inteligente?

O estudo mostra que os axolotes distinguem o tamanho de aberturas e preferem a maior, o que indica uma habilidade cognitiva básica ligada à sobrevivência. Os próprios autores, no entanto, são cautelosos: eles falam em capacidades quantitativas básicas e pedem mais pesquisas antes de qualquer conclusão mais ampla.

O axolote consegue diferenciar tamanhos de aberturas diferentes?

Sim. Dos 22 axolotes analisados, todos escolheram a abertura maior significativamente mais vezes do que a menor. Eles perceberam diferenças pequenas, com a menor delas equivalendo a 2,9 cm² de área e a uma proporção de 0,75 entre os dois buracos.

Axolotes têm boa visão?

Não. Os autores descrevem a visão do axolote como fraca: em água clara, ele só captura presas a até 7 cm de distância, e no habitat natural a água turva piora a situação. Por isso o estudo levanta a hipótese de que outros sentidos ajudem na hora de decidir.

Como os axolotes se orientam na água?

O estudo levanta a hipótese de que os axolotes usem a linha lateral, um órgão mecanossensorial que detecta movimentos da água, vibrações e mudanças de pressão. É uma das explicações possíveis para o fato de eles escolherem o buraco maior até no escuro total. Os autores não descartam ainda que tenham memorizado a posição da abertura.

Por que o axolote é importante para a ciência?

O axolote é um símbolo do México, está criticamente ameaçado de extinção e é muito usado em pesquisa de desenvolvimento e biomedicina por causa da capacidade de regenerar partes do corpo, incluindo o cérebro. Ainda assim, segundo os autores, suas capacidades cognitivas seguem pouco estudadas.

Fontes

  • Bánszegi, O., Rosetti, M., Trujillo Carreño, S., Serrano Torres, N., Marín-Llera, J. C., Chimal-Monroy, J., & Szenczi, P. Size discrimination in the Mexican axolotl: evidence for quantitative abilities in an understudied amphibian. Animal Behaviour. DOI 10.1016/j.anbehav.2026.123618
  • Santacà et al. (2020; 2022), estudos citados no artigo que criaram e aplicaram o método dos buracos em peixes como o zebrafish (Danio rerio) e a guppy (Poecilia reticulata).
  • Krusche et al. (2010) e Uller et al. (2003), estudos citados no artigo sobre discriminação de quantidade em outras salamandras, com limite de proporção de 0,67.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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