Resumo em 15 segundos
- Duas espécies gigantes de aranha-do-mar, coletadas a até 4.977 metros na Austrália, brilham em azul profundo.
- A luz sai só das pernas, mais forte nas pontas, e dura de 5 a 10 minutos após o estímulo.
- A química lembra a fotoproteína ativada por cálcio de águas-vivas, e não o sistema do vaga-lume.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
As aranhas-do-mar vivem nas profundezas do oceano, onde a luz do sol nunca chega, com pernas que podem passar de meio metro. Agora, pesquisadores da Bélgica e da Austrália mostraram que pelo menos duas dessas espécies gigantes brilham em azul. O estudo, publicado em outubro de 2026 na revista Deep Sea Research Part I, traz as primeiras fotografias de aranhas-do-mar luminosas e a primeira investigação sobre como esse brilho é produzido.
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O azul sai só das pernas, é mais forte nas pontas e vai se apagando em direção ao corpo. E a química por trás dele lembra a de águas-vivas, e não a dos vaga-lumes.
O que é uma aranha-do-mar?
Apesar do nome, a aranha-do-mar não é uma aranha. Ela pertence a um grupo chamado picnogônidos, parente distante de aranhas, escorpiões e caranguejos-ferradura. Os fósseis mais antigos têm cerca de 425 milhões de anos, e há um possível exemplar de uns 450 milhões de anos. Existem cerca de 1.400 espécies descritas, do litoral até o fundo do oceano.
O corpo é tão fino que o intestino se ramifica e entra em cada uma das pernas, e a respiração acontece por difusão de oxigênio através da própria casca. A maioria tem oito pernas, mas algumas espécies do mar profundo e dos polos têm dez ou doze. Nas espécies costeiras, as pernas costumam medir de 3 a 60 milímetros de envergadura. No mar profundo, exemplares de 20 a 50 centímetros são comuns, e um espécime do Museu Nacional de História Natural dos Estados Unidos chega a cerca de 76 centímetros.
Outra curiosidade: em muitas espécies é o macho que carrega os ovos, presos a um par de patas especiais.
Como os cientistas descobriram o brilho?
Os animais foram coletados em maio e junho de 2017, numa expedição de um mês ao longo da costa leste da Austrália, a bordo do navio de pesquisa Investigator. As redes desceram a profundidades de 1.006 a 4.977 metros. Da coleção de picnogônidos, os pesquisadores separaram sete exemplares de Colossendeis tasmanica e dois de Colossendeis minor, as duas espécies gigantes do estudo.
Ainda no navio, os animais foram mantidos em água gelada e no escuro. Um leve beliscão nas pernas provocou só um brilho fraco e localizado. Já o banho numa solução de cloreto de potássio, que excita as células, fez as pernas acenderem em azul por um bom tempo, e a adição de água oxigenada aumentou a intensidade. O brilho durou de 5 a 10 minutos.
Medida com um aparelho próprio, a luz da C. tasmanica tem pico em 449 nanômetros, um azul profundo. A outra espécie, C. minor, também brilhou, por mais de três minutos após o estímulo.
Por que só as pernas brilham?
Nas duas espécies, nenhuma luz saiu do corpo, só das pernas. E havia um gradiente claro: o brilho começava na ponta, onde era mais forte, e ia diminuindo ao longo da perna até sumir perto da base. Ao cortar uma perna em cinco pedaços, os pesquisadores confirmaram que o segmento da ponta produzia muito mais luz que os outros.
Para entender de onde vinha a luz, a equipe procurou nos cortes das pernas, ao microscópio, uma enzima ligada à reação de brilho, a peroxidase. Ela apareceu em células dentro das extensões do intestino que entram nas pernas, o que combina com o padrão da luz. Isso levanta uma hipótese curiosa: a aranha-do-mar pode obter da alimentação parte do material que usa para brilhar. É o que acontece com a água-viva Aequorea victoria. Os autores lembram que outras espécies do mesmo gênero comem animais como águas-vivas e ctenóforos, alguns deles luminosos.
O brilho é igual ao do vaga-lume?
Não, e esse é o achado mais interessante do ponto de vista químico. O vaga-lume brilha por um sistema chamado luciferina e luciferase: uma molécula (a luciferina) é queimada por uma enzima (a luciferase). Existe um teste clássico, de 1886, para detectar esse sistema, e ele deu negativo na aranha-do-mar.
Os outros testes apontaram para um mecanismo diferente, baseado numa fotoproteína, uma proteína que já carrega tudo o que precisa e acende quando recebe um gatilho. Na aranha-do-mar, a luz respondeu à água oxigenada e a uma enzima que a decompõe, e foi mais forte quanto mais cálcio havia na mistura: a emissão aumentou 23 vezes entre a ausência de cálcio e a concentração mais alta testada. Esse comportamento lembra a aequorina, a fotoproteína ativada por cálcio da água-viva Aequorea.
A adrenalina, que controla o brilho em alguns animais, não teve efeito. Como o cloreto de potássio acendeu as pernas, os autores sugerem que o brilho pode estar sob algum controle nervoso, e propõem testar outras substâncias, como a serotonina.
Para que uma aranha-do-mar brilharia?
Ninguém sabe ainda. No fundo do mar, o brilho é comum: estima-se que de 50% a 60% das espécies que vivem junto ao leito oceânico profundo produzam luz. Os autores levantam duas possibilidades para a aranha-do-mar. Uma é sinalizar a presença para um parceiro na escuridão total. A outra é atordoar uma presa, acendendo as pernas ao redor dela.
O brilho também não era totalmente desconhecido. Em 1891, naturalistas descreveram uma aranha-do-mar do Oceano Índico com um “brilho metálico azul esverdeado”, e em 1902 um deles escreveu que o animal, de costas, “brilhava como uma estrela”. Até agora, porém, ninguém tinha fotografado o fenômeno nem estudado como ele funciona. Com as duas espécies deste estudo, sobem para quatro as aranhas-do-mar conhecidas que produzem luz. Outras duas espécies testadas na expedição não brilharam.
O que o estudo ainda não explica?
Os pesquisadores não identificaram a molécula que de fato emite a luz, nem confirmaram a fotoproteína em nível molecular. Isso exige novos estudos bioquímicos. Os testes com as substâncias que provocam o brilho tiveram poucas repetições, o que, segundo os próprios autores, limita a força das conclusões estatísticas.
Há também uma limitação importante sobre o comportamento. Os animais foram trazidos de milhares de metros por redes de arrasto, e passaram por descompressão, aquecimento, luz e manuseio. Por isso, o padrão de brilho observado no navio pode não ser o mesmo da vida natural. Os autores defendem filmar esses animais no próprio fundo do mar, com robôs submarinos e câmeras muito sensíveis, para entender quando e por que eles acendem.
Fontes
Mallefet, J.; Staples, D. A.; O’Hara, T. D.; Duchatelet, L. “Abyssal glowing sea spider, first insight into pycnogonid luminescence”. Deep Sea Research Part I: Oceanographic Research Papers, volume 231, 2026. DOI: 10.1016/j.dsr.2026.104735
Perguntas frequentes
A aranha-do-mar é uma aranha?
Não. Apesar do nome, ela pertence aos picnogônidos, um grupo de animais marinhos aparentado com aranhas, escorpiões e caranguejos-ferradura.
Qual o tamanho da aranha-do-mar gigante?
No mar profundo, são comuns exemplares com 20 a 50 centímetros de envergadura de pernas. Um espécime guardado no Museu Nacional de História Natural dos Estados Unidos chega a cerca de 76 centímetros.
Por que a aranha-do-mar brilha?
A função ainda é desconhecida. Os autores do estudo sugerem que o brilho pode servir para atrair parceiros na escuridão do fundo do mar ou para atordoar presas, mas isso ainda precisa ser confirmado com observações dos animais em seu ambiente natural.
De que cor é o brilho da aranha-do-mar?
Azul profundo. Na espécie Colossendeis tasmanica, a luz tem pico em 449 nanômetros e sai apenas das pernas, mais forte nas pontas.
O brilho da aranha-do-mar funciona como o do vaga-lume?
Ao que tudo indica, não. O vaga-lume usa o sistema luciferina e luciferase, que deu negativo nos testes. Na aranha-do-mar, a luz parece vir de uma fotoproteína ativada por cálcio, parecida com a de algumas águas-vivas.
Imagem: aranha-do-mar da família Colossendeidae a 1.495 metros de profundidade, no Pacífico, por NOAA Ocean Exploration.jpg) (CC BY-SA 2.0). A foto mostra um parente das espécies do estudo, sob iluminação do robô submarino, e não o brilho.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.






