Resumo em 15 segundos
- A temperatura medida foi de 36,3 °C, com margem de incerteza de 2,5 °C.
- A resposta está numa técnica chamada termometria de isótopos agrupados.
- O que estudos assim fazem é trocar a dedução indireta por uma medida.
- Os crocodilianos da mesma Formação Hell Creek, do Cretáceo Tardio, apresentaram temperaturas significativamente mais baixas do que as do T. rex, segundo o estudo.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
O Tiranossauro Rex tinha sangue quente. Não no sentido figurado de “bicho agitado”, mas no sentido fisiológico: o animal produzia o próprio calor e mantinha o corpo numa faixa de temperatura estável. A pista não veio de ossos nem de pegadas. Veio de três dentes fósseis, que guardaram dentro do esmalte um registro químico do calor daquele corpo.
A temperatura medida foi de 36,3 °C, com margem de incerteza de 2,5 °C. É um valor parecido com o de animais endotérmicos que existem hoje, aqueles que geram calor por dentro em vez de depender do sol. E é bem mais alto do que o dos crocodilos que viviam na mesma formação geológica, na mesma época. A conclusão de que o Tiranossauro Rex tinha sangue quente foi publicada na revista Science Advances.
Dados do estudo: o trabalho “The body temperature of Tyrannosaurus rex” foi assinado por Randon J. Flores, Robert A. Eagle, Robin B. Trayler, Gabriele Larocca Conte e Sora L. Kim, e saiu na Science Advances em 18 de setembro de 2026. O DOI é 10.1126/sciadv.aeb7653.
Isótopos agrupados: o termômetro que ficou guardado no esmalte
A pergunta central é fácil de fazer e difícil de responder: como se mede a temperatura do corpo de um animal que viveu no Cretáceo Tardio? A resposta está numa técnica chamada termometria de isótopos agrupados.
Isótopos são versões de um mesmo elemento químico que têm massas diferentes. Em alguns minerais, e o esmalte dos dentes é um deles, certos isótopos costumam se emparelhar, formando grupos. A quantidade desses pares depende da temperatura em que o mineral se formou. O dente, portanto, não guarda só a forma do bicho: guarda também um número.
Uma analogia ajuda a visualizar. É como um termômetro que, em vez de mostrar a temperatura na hora, grava a leitura dentro do próprio material e a deixa ali. Vale deixar claro que a comparação é só uma imagem. O que existe de concreto é a relação entre os pares de isótopos e a temperatura de formação do mineral.
O que o estudo descobriu sobre o Tiranossauro Rex ser de sangue quente?
Os três dentes de T. rex analisados renderam uma temperatura corporal de 36,3 °C, com 2,5 °C de incerteza. Os autores descrevem o valor como comparável ao de endotérmicos modernos, ou seja, animais que produzem calor internamente e sustentam a temperatura do corpo acima da do ambiente.
O trabalho não para na medida pontual. Ao comparar o resultado com paleotemperaturas obtidas por outros métodos e com simulações de modelo, os pesquisadores concluem que o T. rex mantinha o corpo mais quente do que o ambiente em que vivia. Traduzindo: não era um réptil que precisava se deitar ao sol para esquentar antes de caçar.
Há ainda o contraste com os crocodilianos da mesma Formação Hell Creek, também do Cretáceo Tardio. Os dentes desses animais indicaram temperaturas significativamente mais baixas do que as do T. rex. O material do estudo não traz um número específico para essa diferença, mas a classifica como significativa.
E vem uma consequência ecológica. A partir dos resultados, os autores projetaram a adequação de habitat para a espécie e concluíram que a maior parte do paleocontinente norte-americano, incluindo regiões mais frias e de latitudes mais altas, era potencialmente acessível ao T. rex.
Corpo mais quente que o ambiente: o que isso muda?
Por que essa diferença importa tanto? Porque um corpo que se mantém quente por conta própria não fica amarrado ao clima da região onde vive. Ele pode caçar em horários variados, atravessar áreas mais frias e ocupar territórios que seriam hostis a um animal dependente de calor externo.
Não existe conexão brasileira neste estudo. O material analisado vem da Formação Hell Creek, na América do Norte, e nenhum pesquisador ou instituição do Brasil aparece entre os autores. O que existe é uma pergunta que interessa a qualquer pessoa que já parou diante de um esqueleto de dinossauro num museu: afinal, como aquele bicho vivia o dia a dia?
O próprio resumo do trabalho reconhece que, apesar de uma longa história de pesquisa, as restrições quantitativas sobre a termofisiologia do T. rex ainda eram limitadas. O que estudos assim fazem é trocar a dedução indireta por uma medida.
O que o estudo ainda não explica?
Comece pelo tamanho da amostra: três dentes. É pouco, e os próprios autores trabalham com uma margem de incerteza de 2,5 °C em cima do valor de 36,3 °C. Ou seja, o número não é uma etiqueta colada no animal, e sim uma estimativa com intervalo. Novos dentes, de outros indivíduos e outras regiões, podem mexer nessa conta.
Depois, olhe com atenção para as conclusões sobre habitat. A projeção de que o T. rex podia ocupar boa parte do paleocontinente, inclusive latitudes mais frias, vem de modelagem baseada nos resultados, não de observação direta. Modelo é cenário possível, não registro de campo.
Por fim, vale separar o que foi medido do que foi interpretado. Medido: a temperatura registrada nos dentes e a diferença em relação aos crocodilianos. Interpretado: o que isso significa em termos de metabolismo. Os autores falam em temperatura comparável à de endotérmicos modernos, e essa escolha de palavras é deliberada. Comparável não é o mesmo que idêntico.
Por que isso importa?
Toda vez que alguém tenta reconstruir a vida de um animal que não existe mais, esbarra num limite óbvio: ninguém estava lá para medir nada. O que sobrou foram ossos, dentes e rochas. A graça deste estudo é mostrar que um desses restos guarda uma informação que ninguém tinha conseguido ler antes com essa precisão.
Dentes são a parte mais dura do corpo de um vertebrado. Resistem ao tempo melhor que quase tudo. E, ao que parece, também resistem como arquivo: guardam a temperatura de um corpo que se aqueceu sozinho, em um mundo sem termômetros, sem laboratórios e sem gente para anotar. Três dentes bastaram para puxar o Tiranossauro Rex um pouco mais para perto dos animais que conhecemos hoje.
Fontes
- Estudo: Flores, R. J.; Eagle, R. A.; Trayler, R. B.; Larocca Conte, G.; Kim, S. L. “The body temperature of Tyrannosaurus rex“. Science Advances, 18 de setembro de 2026. DOI: 10.1126/sciadv.aeb7653
- Revista Science Advances, onde o trabalho foi publicado.
- Autores da pesquisa: Randon J. Flores, Robert A. Eagle, Robin B. Trayler, Gabriele Larocca Conte e Sora L. Kim.
- Formação Hell Creek (Cretáceo Tardio), origem do material fóssil analisado.
Perguntas frequentes
Qual era a temperatura corporal do Tiranossauro Rex?
Segundo o estudo, 36,3 °C, com margem de incerteza de 2,5 °C. O valor foi obtido a partir de isótopos agrupados no esmalte de três dentes de T. rex da Formação Hell Creek.
O Tiranossauro Rex era de sangue quente ou de sangue frio?
Os autores descrevem a temperatura encontrada como comparável à de endotérmicos modernos, os animais que produzem o próprio calor. Isso aponta para um animal de sangue quente, e não para um réptil dependente do calor do sol.
Como os cientistas descobriram a temperatura corporal de um dinossauro?
Pela termometria de isótopos agrupados aplicada ao esmalte dentário. A quantidade de pares de isótopos que se formam no mineral depende da temperatura em que ele se formou, o que transforma o dente num registro dessa temperatura.
Qual a diferença de temperatura entre o T. rex e os crocodilos da mesma época?
Os crocodilianos da mesma Formação Hell Creek, do Cretáceo Tardio, apresentaram temperaturas significativamente mais baixas do que as do T. rex, segundo o estudo. O material não traz um valor numérico específico para essa diferença.
O Tiranossauro Rex conseguia manter o corpo mais quente que o ambiente?
Sim, de acordo com a comparação feita pelos autores com paleotemperaturas obtidas por outros métodos e com simulações de modelo. O estudo indica que o T. rex sustentava uma temperatura corporal acima da do ambiente.
O Tiranossauro Rex vivia em regiões mais frias da América do Norte?
A projeção de adequação de habitat feita a partir dos resultados indica que a maior parte do paleocontinente norte-americano, incluindo regiões mais frias e de latitudes mais altas, era potencialmente acessível à espécie.
Foto: Jaqor Q.I. no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





