Resumo em 15 segundos
- Uma pena fossilizada de 66 milhões de anos foi achada dentro de fezes fossilizadas de um terópode.
- A pena pertencia a uma hesperornitiforme, ave aquática que não voava, e traz raque quadrada com medula.
- Escamas de peixe gar no coprólito indicam que a ave tinha comido um peixinho de cerca de 25 centímetros.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Em 2016, uma equipe que escavava a Formação Hell Creek, em Montana, nos Estados Unidos, recolheu um nódulo fosfático rachado. Só no laboratório o conteúdo apareceu: uma pena fossilizada tridimensional, com 9,3 milímetros de haste e base somadas (pouco menos de um centímetro), guardada dentro de fezes fossilizadas de um dinossauro terópode de médio porte. Os autores a descrevem como possivelmente a pena mais bem preservada já recuperada de rochas do Mesozoico.
A pena não era do predador. Ossos e escamas no mesmo bloco indicam que ela pertenceu a uma ave aquática que não voava, devorada por esse dinossauro pouco antes de ele defecar. E o achado diz duas coisas. A primeira: a pena leve e rígida que você vê hoje em qualquer pássaro, com o eixo central preenchido por um tecido celular, já existia antes da extinção em massa que encerrou o Cretáceo. A segunda: diferenças de plumagem podem ter ajudado a definir quem sobreviveu àquela catástrofe.
Dados do estudo
O trabalho foi liderado por Jingmai K. O’Connor, do Field Museum of Natural History, e saiu online em 10 de setembro de 2026, em periódico da Elsevier. O fóssil, catalogado como UWBM 103150, está depositado no Burke Museum of Natural History and Culture, da Universidade de Washington. DOI: 10.1016/j.cub.2026.08.054.
Antes de tudo: o que é um coprólito?
Coprólito é o nome técnico das fezes fossilizadas. Parece um detalhe sem graça, mas é um dos registros mais diretos de quem comeu quem. Neste caso, virou o cofre onde uma pena inteira sobreviveu por cerca de 66 milhões de anos.
A conservação veio da química. O núcleo do nódulo é fluorapatita pura, e a rocha ao redor não tem fosfato algum, segundo as análises de difração de raios X. O fósforo veio, portanto, da própria massa fecal: microrganismos teriam elevado a concentração de fosfato ali dentro e feito o mineral precipitar sobre os tecidos moles, como um molde que se forma no lugar exato do material original. Em vez de uma mancha achatada, uma pena em três dimensões.
Penas são banais em fezes de animais atuais e quase ausentes em coprólitos do Cretáceo. Parte do mistério é método: este espécime só foi coletado por causa de uma pena visível a olho nu numa fratura, e as técnicas tradicionais de estudo de coprólitos dificilmente achariam o que havia lá dentro.
O que apareceu dentro das fezes fossilizadas?
A pena exposta tem 9,3 milímetros de haste mais a base tubular, o cálamo, pouco menos de um centímetro. A medula, o tecido leve que preenche o interior do eixo, está preservada e visível na fratura, com células cheias de vacúolos de 3,4 a 22,7 micrômetros, ou milionésimos de metro.
E a pena visível era só o começo. A microtomografia computadorizada, que enxerga dentro da rocha sem quebrá-la, revelou uma segunda pena de cerca de 7,1 milímetros, duas estruturas filamentares e doze fragmentos alongados identificados com reserva como pedaços de raque.
Junto a elas vieram dois ossos. O menor mede 12,2 × 2,9 × 2,7 milímetros, é oco e tem compactação de 0,504, dentro da faixa de aves atuais de ambientes aquáticos. O maior, de 17,7 × 7,1 × 3 milímetros, tem compactação de 0,798 — perto da de seções do fêmur e do tibiotarso de Hesperornis (0,725 e 0,794) e da de um fêmur de hesperornitiforme do próprio Hell Creek guardado no Burke Museum (0,71 a 0,86). Ossos tão compactos são típicos de aves mergulhadoras.
De qual ave era a pena, e por que ela parece feita para a água?
A identificação aponta para uma hesperornitiforme, linhagem de aves aquáticas que perderam o voo e mergulhavam com os pés. Elas ficam dentro de Ornithurae, o grupo que reúne as aves modernas e seus parentes próximos, mas fora de Neornithes, o das aves atuais.
Essas aves do fim do Cretáceo são conhecidas quase só por pernas e pés. Os braços sofreram redução extrema — em linhagens derivadas, como Hesperornis, os autores citam a hipótese de que antebraço e mão tenham desaparecido. Uma pena de asa ou de cauda de um animal pequeno entrega, então, informação que o esqueleto não estava dando.
E a pena mexe com a linha do tempo. A haste passa de um cálamo oco e circular, na base, para uma raque de seção quadrada preenchida por medula, na parte de cima — o desenho que deixa a pena leve e ainda assim rígida, padrão nas aves de hoje. Antes deste trabalho, a evidência mais antiga de medula em pena vinha da Formação Fur, na Dinamarca, com 56 a 54 milhões de anos. O fóssil de Montana empurra a característica para antes da fronteira entre Cretáceo e Paleógeno, há cerca de 66 milhões de anos.
As medidas de estrutura reforçam a leitura aquática. O índice de molhabilidade da pena ficou em cerca de 5, parecido com o de pelicanos que nadam (4,9 a 5,4); aves que mergulham de verdade ficam entre 2,4 e 4, e aves terrestres, em torno de 6 a 10. A densidade de barbas, de 3,5 a 4,5 por milímetro, contrasta com 1,9 a 2,7 em aves não aquáticas.
O que o dinossauro comeu antes de defecar?
Duas escaminhas de gar, peixe de água doce da família Lepisosteidae, apareceram junto à pena, com 3,2 e 3,6 milímetros. Pelo tamanho, os autores estimam que o peixe inteiro tinha cerca de 25 centímetros.
O coprólito registra, assim, duas refeições encaixadas: um terópode de médio porte comeu uma ave aquática pequena, que pouco antes havia comido um peixinho. Quem produziu as fezes? Os autores descartam os crocodilianos do Hell Creek pelo tamanho e pela forma globular das massas e apontam um terópode de porte médio, possivelmente Nanotyrannus ou o oviraptorossauro Anzu — mas dizem que a atribuição precisa de mais análise.
O que isso significa para quem olha as aves hoje?
O fóssil é de Montana e não tem relação com o Brasil. A relevância é outra, e é ampla. Toda ave na sua janela descende de linhagens que atravessaram a extinção do fim do Cretáceo. As hesperornitiformes, não. Eram aves, tinham penas sofisticadas, comiam peixe, mergulhavam — e desapareceram.
Os autores propõem uma explicação possível. As penas de contorno, que cobrem o corpo e isolam o calor, podem ter sido o ponto fraco. O coprólito preservou, além da pena principal, morfotipos primitivos parecidos com os de enantiornitíneos. Se esses formatos antigos retinham menos ar, a ave teria sofrido mais no inverno global provocado pelo impacto do asteroide. É hipótese, e os autores dizem isso com todas as letras.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores listam as fragilidades. Os ossos são incompletos demais para uma identificação precisa. A compactação óssea costuma ser medida na metade da diáfise do fêmur, e não se sabe o quanto ela varia ao longo do esqueleto; a presença de uma crista infla o valor medido. Não existe escaneamento do esqueleto completo de uma hesperornitiforme para comparação, e não dá para descartar que o fragmento maior venha de um úmero.
Sobre o predador, o freio é parecido: a atribuição a um tiranossauroide é questionável, porque a forma globular, as inclusões e a textura do coprólito diferem bastante de coprólitos de tiranossaurídeos já descritos. E o elo entre plumagem primitiva e extinção é apresentado como hipótese, não como resultado medido.
Por que isso importa?
Talvez o detalhe mais eloquente seja este: em mais de um século de trabalho de campo na Formação Hell Creek, a primeira pena encontrada apareceu dentro de um coprólito, num nódulo que quase passou batido. Exames de rotina teriam destruído ou ignorado justamente o que havia para ser achado.
Cada coprólito bem estudado funciona como o retrato de uma refeição com milhões de anos, com predador, presa e o conteúdo do estômago da presa empilhados no mesmo lugar. Você acabou de espiar o interior de uma ave que viveu antes de existir qualquer ser humano, com penas muito parecidas com as das aves do seu bairro. E que, ainda assim, não deixou descendentes.
Perguntas frequentes
O que foi encontrado em fezes fossilizadas de dinossauro?
Uma pena tridimensional com 9,3 milímetros de haste e base, além de uma segunda pena menor, estruturas filamentares, fragmentos de raque, dois ossos de ave e duas escamas de peixe. Boa parte só apareceu com microtomografia computadorizada.
De qual ave era a pena fossilizada achada no coprólito?
Provavelmente de uma hesperornitiforme, ave aquática que não voava, dentro de Ornithurae mas fora do grupo das aves modernas. A identificação se apoia nos ossos do mesmo coprólito, cuja alta compactação é típica desse grupo.
Quando surgiram as penas com raque quadrada e medula?
Antes da extinção do fim do Cretáceo, há cerca de 66 milhões de anos, segundo este estudo. Até agora, o registro mais antigo de medula vinha da Formação Fur, na Dinamarca, do Eoceno inferior (56 a 54 milhões de anos).
Penas primitivas podem ter relação com a extinção dos dinossauros?
É uma hipótese dos autores, não um resultado medido. Eles sugerem que diferenças de plumagem, sobretudo nas penas de corpo responsáveis por isolar o calor, podem ter pesado na extinção de todos os pennaraptoranos não neornitinos durante o inverno causado pelo impacto do asteroide.
Fontes
- Jingmai K. O’Connor e colaboradores, “Bird feathers from a Late Cretaceous coprolite”, publicado por Elsevier em 10 de setembro de 2026. DOI: 10.1016/j.cub.2026.08.054
- Espécime UWBM 103150, University of Washington Burke Museum of Natural History and Culture (Seattle, Estados Unidos).
- Dados de microtomografia do espécime, depositados no MorphoSource (mídias 000878164 e 000882603).
- Comparação com o fêmur de hesperornitiforme UWBM 123342, do acervo do Burke Museum, e com o crânio parcial de Hesperornis KUVP 71012.
- Dados comparativos de molhabilidade e densidade de barbas reunidos pelos autores para 15 espécies de aves aquáticas (9 famílias, 7 ordens), incluindo três táxons que não voam.
Foto: Nicolas Foster no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





