Você já reparou que alguns sonhos são filmes surreais cheios de cor, movimento e personagens sem nome, enquanto outros parecem conversas internas, quase pensamentos? Um estudo de grande escala acompanhou mais de 200 pessoas por quatro anos e chegou a uma conclusão que bagunça a ideia de que sonhar é só um replay do dia: o conteúdo dos seus sonhos não depende só do que você viveu, mas também de quem você é.
A pesquisa, publicada na revista Communications Psychology, combinou análises de linguagem com inteligência artificial para esquadrinhar 3.366 relatos de sonhos e experiências de vigília. Os resultados mostram que traços individuais estáveis – sua atitude em relação aos sonhos, a tendência a divagar a mente e a qualidade do sono que você percebe – deixam uma assinatura consistente nas narrativas noturnas. E mais: os efeitos da pandemia de COVID-19 nos sonhos não sumiram quando o lockdown acabou. Eles se estenderam por anos, em um processo lento de normalização.
Ficha do estudo: “Individual traits and experiences predict the content of dreams”, de Valentina Elce, Giulio Bernardi, Giacomo Handjaras e outros, afiliados a instituições como a Scuola IMT Alti Studi Lucca e a Universidade de Roma “La Sapienza”. A matéria foi publicada em 28 de abril de 2026 no volume 4 da Communications Psychology.
Como se mede o conteúdo de um sonho?
Para dar conta da imprevisibilidade dos sonhos, a equipe não se contentou em contar temas. Eles usaram modelos de linguagem de última geração para avaliar cada relato em 16 dimensões semânticas propostas pelos cientistas. Isso inclui, por exemplo, a quantidade de pensamento abstrato, a carga de imagens visuais, o nível de bizarrice, a presença de outras pessoas, a intensidade emocional e até referências a limitações de liberdade.
Ao mesmo tempo, uma técnica complementar, chamada de análise de domínios lexicais, garimpou os textos em busca de agrupamentos naturais de palavras – uma espécie de mapa das categorias que emergem dos relatos sem que ninguém as defina antes. O resultado são 32 domínios, como alimentação, objetos, lugares, emoções e referências à pandemia. É como se os pesquisadores tivessem lido cada sonho com dois óculos: um que procurava traços esperados (as dimensões) e outro que só registrava o que saltava do texto (os domínios).
O que o estudo encontrou?
A primeira descoberta é quase um decálogo do mundo onírico. Em relação aos relatos de vigília, os sonhos se afastaram do pensamento abstrato e autorreferente e mergulharam em um universo dominado por imagens visuais e espaciais, múltiplos personagens e acontecimentos bizarros. A tal bizarrice, medida pelo grau de falta de lógica, estranheza ou descontinuidade, é mesmo uma marca registrada dos sonhos.
Na ponta dos traços individuais, três se destacaram após o controle estatístico rigoroso que separou efeitos gerais de linguagem de influências reais sobre o conteúdo. A atitude em relação aos sonhos – ou seja, se você acha que sonhar revela sentimentos genuínos ou se encara os sonhos como lixo aleatório do cérebro – foi o fator que mais se associou a diferenças nos relatos. Quem dá mais valor aos sonhos tende a produzir narrativas com mais referências a processos sociais e a detalhes do ambiente.
Outro protagonista foi a propensão à divagação mental (mind-wandering). Pessoas com a mente mais propensa a vagar durante o dia também apresentaram sonhos com um desenho diferente – uma assinatura que reforça a hipótese, já antiga entre teóricos, de que o devaneio acordado e o sonho compartilham mecanismos. Por fim, a qualidade subjetiva do sono apareceu como modulador seletivo de certos domínios lexicais, mostrando que a sensação de dormir bem ou mal não afeta só o cansaço diurno, mas também a tapeçaria dos sonhos.
Sexo, idade e escolaridade, depois de corrigidos os efeitos de todas as outras variáveis, não tiveram impacto significativo no conteúdo onírico. Ou seja, o que realmente deixa marca no sonho não é uma característica demográfica, mas um conjunto de traços cognitivos e atitudinais.
Como a pandemia mudou o que sonhamos? Por que demorou a passar?
Usando um segundo conjunto de dados, coletado durante o lockdown de abril e maio de 2020 na Itália, os autores compararam os sonhos da fase mais restritiva com os relatos dos anos seguintes. O contraste foi nítido: nos sonhos da quarentena, aumentaram as referências a limitações de liberdade – ruas bloqueadas, a sensação de querer se mover e ser contido por uma força invisível. Ao mesmo tempo, a intensidade emocional (o que os cientistas chamam de “arousal”) deu um salto.
O que surpreendeu foi a duração desse efeito. Em vez de sumir assim que as restrições terminaram, essas marcas persistiram e foram diminuindo gradualmente ao longo dos quatro anos seguintes, numa curva lenta de normalização. Isso sugere que grandes estressores compartilhados não apenas invadem o conteúdo onírico – eles se instalam ali por um bom tempo.
Esse achado responde com clareza a uma dúvida comum: sonhos refletem o estresse coletivo. Sim, e com uma inércia que desafia a ideia de que o cérebro resolve os eventos emocionais em algumas noites de sono.
Personalidade e sonhos: por que isso importa para você?
A ligação entre traços individuais e sonhos não é uma curiosidade de psicólogo. Ela oferece um ângulo concreto para entender por que duas pessoas que viveram o mesmo dia ruim podem ter sonhos completamente diferentes na noite seguinte. Também ajuda a explicar por que você se lembra mais de alguns sonhos ou por que certas fases da vida vêm acompanhadas de sonhos mais vívidos e perturbadores – sem que seja necessário apelar a interpretações únicas ou esotéricas.
Do ponto de vista da saúde, os resultados sugerem que mudanças no conteúdo dos sonhos podem funcionar como um sinal indireto de que algo está pesando – mesmo que a pessoa não verbalize o estresse durante o dia. Não é um exame nem um diagnóstico, mas um indício de que fenômenos como a pandemia deixam assinaturas mensuráveis na mente adormecida.
O que o estudo ainda não consegue explicar?
Os próprios autores listam limites importantes. A amostra é composta exclusivamente por falantes nativos de italiano recrutados no centro-norte da Itália, o que restringe a generalização cultural. Embora o tamanho total seja robusto, comunidades com outras línguas e contextos podem apresentar padrões diferentes. Além disso, a análise se baseia em relatos verbais ao acordar – e é sabido que a memória do sonho está sujeita a distorções. O relato não é o sonho, mas a versão que o consciente conseguiu resgatar.
Outro ponto é que todas as relações encontradas são associativas. O estudo não prova que a atitude em relação aos sonhos causa alterações no conteúdo onírico, nem que melhorar a qualidade do sono vai necessariamente mudar o que você sonha. São peças de um quebra-cabeça que ainda demanda experimentos com manipulação controlada.
Por que isso importa?
Sonhar é uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais íntimas que temos. Saber que traços estáveis – e não só os acontecimentos do dia – esculpem essa experiência joga luz sobre a natureza do cérebro que sonha: ele não é uma tela passiva onde os eventos são projetados, mas um artesão que usa seus próprios vieses, atitudes e tendências cognitivas para construir narrativas.
E quando o mundo exterior sacode com a força de uma pandemia, os sonhos registram esse abalo em cores mais intensas e com temas de aprisionamento que levam anos para se dissolver. Uma lembrança de que a mente, mesmo dormindo, segue tentando dar sentido ao que a gente vive.
Perguntas frequentes
Por que sonhamos coisas estranhas?
Segundo o estudo, os sonhos naturalmente se afastam das narrativas lógicas e autorreferenciais da vigília. Eles são dominados por imagens visuais, múltiplos personagens e eventos sem continuidade lógica. Essa é a bizarrice típica do sonho, que parece ser uma característica fundamental da forma como o cérebro monta experiências durante o sono.
Como a pandemia afetou os sonhos das pessoas?
Os sonhos durante o lockdown mostraram mais referências a limitações de liberdade e maior intensidade emocional (excitação), em comparação com os sonhos dos anos seguintes. Esses efeitos não desapareceram de imediato; foram diminuindo lentamente ao longo de quatro anos.
Traços de personalidade influenciam o conteúdo dos sonhos?
Sim. O estudo identificou que a atitude em relação aos sonhos, a propensão à divagação mental (mind-wandering) e a qualidade subjetiva do sono estiveram associadas de forma seletiva ao conteúdo onírico. Sexo, idade e escolaridade não tiveram efeitos significativos após o controle estatístico.
O que os sonhos dizem sobre nossa saúde mental?
O trabalho não avalia diagnósticos clínicos, mas mostra que grandes estressores compartilhados – como a pandemia – alteram o conteúdo dos sonhos (mais limitações, mais intensidade emocional) por longos períodos. Isso reforça a ideia de que os sonhos podem refletir o estado emocional da pessoa, ainda que de forma indireta e sem funcionar como ferramenta de avaliação isolada.
Qual a relação entre sonhos e qualidade do sono?
Os dados indicam que a qualidade do sono percebida pelo participante (medida pelo questionário PSQI) modulou alguns domínios do conteúdo dos sonhos. Ou seja, a sensação de dormir bem ou mal não afeta apenas o descanso, mas também aparece associada a diferenças no que se sonha.
Fontes
- Elce, V. et al. Individual traits and experiences predict the content of dreams. Communications Psychology 4, 69 (2026).
- Scarpelli, S. et al. Dreams share phenomenological similarities with task-unrelated thoughts and relate to variation in trait rumination and COVID-19 concern. Communications Psychology (2023).
- Giorgia Bontempi, Valentina Elce et al. Data and code repository for the study, disponível junto ao artigo principal.
Foto: Feito com IA – Chatgpt
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





