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The hum: O zumbido misterioso pode vir de dentro de você

Um estudo da NTNU sugere que o zumbido misterioso The Hum, ouvido por até 4% das pessoas, muitas vezes não vem de fonte externa, mas do próprio sistema auditivo, como uma forma de tinnitus.

Ilustração de pessoa com a mão no ouvido ouvindo um zumbido misterioso de baixa frequência, representando o fenômeno The Hum.
Ilustração de pessoa com a mão no ouvido ouvindo um zumbido misterioso de baixa frequência, representando o fenômeno The Hum.

Se você já se pegou perguntando de onde vem aquele zumbido grave e pulsante que insiste em aparecer no silêncio da noite, saiba que não está sozinho. A resposta que explica esse fato pode ser bem diferente do que se imagina. Entre 2% e 4% da população mundial ouve o fenômeno conhecido como The Hum, um som de baixa frequência sem fonte aparente. Agora, um novo estudo norueguês sugere que, para a maioria dessas pessoas, o barulho não vem de lugares externos, como ondas do mar ou motores, mas de dentro do próprio sistema auditivo.

Pesquisadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) investigaram 28 pessoas que convivem com essa percepção sonora. O resultado, publicado na revista PLOS One em março de 2026, aponta que o zumbido misterioso é, em grande parte dos casos, uma forma de tinnitus de baixa frequência — um som “fantasma” gerado pelo ouvido ou pelo cérebro, e não captado do ambiente.

Ficha do estudo: O artigo On the potential sources of a low-frequency sound percept that only a few can perceive foi conduzido pelo professor Markus Drexl, do Departamento de Neuromedicina e Ciências do Movimento da NTNU, com dois pesquisadores de doutorado e um pós-doutorando. Publicado na PLOS One em março de 2026, o estudo está disponível sob o DOI 10.1371/journal.pone.0326818.

O que é o zumbido misterioso e onde ele surgiu?

O fenômeno The Hum é uma percepção sonora de baixa frequência (um zumbido ou uma pulsação grave) ouvida por uma minoria da população. O som não é facilmente percebido ao ar livre, mas se torna incômodo em ambientes fechados, principalmente à noite, quando a pessoa se deita para dormir. O detalhe mais intrigante é que outras pessoas no mesmo local simplesmente não ouvem nada.

Os primeiros relatos organizados surgiram em Bristol, na Inglaterra, em meados dos anos 1970, quando o jornal Bristol Evening Post passou a receber uma série de cartas de moradores que descreviam um som inexplicável. Nos anos 1990, o zumbido misterioso apareceu nos Estados Unidos, primeiro na cidade de Taos, Novo México, e depois em Kokomo, Indiana. De lá para cá, foi registrado em vários países, incluindo Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e diversas cidades europeias, quase sempre em áreas densamente povoadas e costeiras.

A frequência do fenômeno e o perfil de quem ouve

Os participantes do estudo que ouvem o zumbido de baixa frequência relataram percebê-lo em uma frequência mediana de 50 Hz. A gente está falando de um som na fronteira entre o audível e o infra-som, aquela faixa que a audição humana capta com mais dificuldade. Para se ter uma ideia, a nota musical mais grave de um piano está por volta de 27 Hz — ou seja, o zumbido misterioso The Hum está só alguns degraus acima disso.

O canadense Glen MacPherson, que começou a ouvir o som quando vivia na costa oeste do Canadá e percebeu que ele desapareceu ao se mudar de cidade, criou em 2012 o projeto interativo World Hum Map and Database. O banco de dados mapeia os locais e as pessoas que relatam o fenômeno, ajudando a traçar um perfil global dessas percepções.

Teorias que tentaram explicar a origem do som

As hipóteses para o zumbido misterioso se acumulam há décadas e vão do prosaico ao extraordinário. No campo das fontes humanas, ventiladores industriais, bombas de calor, turbinas eólicas e tráfego pesado são suspeitos frequentes. Entre as causas naturais, ondas batendo contra plataformas continentais, ventos varrendo paisagens e até chamados de acasalamento de cardumes de peixes-porco (Porichthys notatus) já foram aventados.

Há também teorias militares: aeronaves dos Estados Unidos usariam frequências de rádio extremamente baixas para se comunicar com submarinos durante a noite, o que explicaria a localização costeira de muitos relatos. E, claro, não faltam versões conspiratórias envolvendo a CIA ou até alienígenas.

Em 2015, pesquisadores franceses propuseram que ondas se movendo no fundo do mar, ao colidirem com cristas nas plataformas continentais, gerariam vibrações audíveis para alguns. Outra linha de investigação aponta para descargas elétricas atmosféricas: os raios que atingem a Terra todos os dias acumulam uma carga eletromagnética massiva que cria ressonância entre a superfície e a ionosfera.

Quando o ouvido vira o culpado: emissões otoacústicas espontâneas

A cóclea, aquela estrutura em forma de caracol que fica no ouvido interno, tem uma característica curiosa: ela produz sons sozinhos. São as chamadas emissões otoacústicas espontâneas, normalmente em frequências entre 500 e 5.000 Hz. Esses ruídos fracos não têm função própria — são um subproduto do processo natural de amplificação sonora que o ouvido realiza.

“A maioria de nós não ouve esses sons”, explica o professor Markus Drexl. “No entanto, algumas pessoas conseguem ouvir os sons que o próprio ouvido produz.” Em certos casos, essas emissões otoacústicas espontâneas são percebidas como um tinnitus incômodo. Um dos palpites iniciais dos pesquisadores era que os participantes do estudo ouviam emissões otoacústicas em baixa frequência. A equipe testou essa hipótese colocando um microfone sensível no canal auditivo. O resultado foi um sonoro “não”: nenhuma emissão otoacústica na faixa grave foi detectada.

O que o estudo da NTNU realmente descobriu?

Os pesquisadores testaram duas hipóteses principais com os 28 voluntários alemães. A primeira era de que os participantes teriam uma audição excepcional para sons graves, o que os tornaria capazes de captar ruídos de infraestrutura e da natureza que passam despercebidos para a maioria da população. Afinal, sons de baixa frequência têm comprimentos de onda longos que viajam grandes distâncias — localizar a fonte dessas ondas é notoriamente difícil.

A segunda hipótese, como já mencionado, era a das emissões otoacústicas espontâneas. Nenhuma das duas se sustentou. A maioria dos participantes não apresentou audição especialmente sensível para baixas frequências — apenas duas pessoas mostraram limiares auditivos melhores que a média em determinadas frequências graves. “Mesmo que o grupo testado tenha sido pequeno, isso significa que a hipótese de ter uma audição especialmente boa para sons graves não se aplica à maioria das pessoas”, afirmou Drexl.

O professor faz uma ressalva importante: existem diferenças sutis nos limiares auditivos, as chamadas microestruturas, que permitem que alguém ouça com sensibilidade numa faixa muito estreita, por exemplo entre 50 e 51 Hz. Essas nuances não são captadas pelos testes auditivos convencionais.

O papel do estresse e do cérebro sensível

Enquanto o ouvido interno não explicava o zumbido misterioso, outra peça do quebra-cabeça ganhava força: o sistema nervoso central. O Dr. David Baguley, chefe do departamento de audiologia do Hospital Addenbrooke, na Inglaterra, dedicou anos ao estudo do fenômeno The Hum e acredita que a chave está em cérebros especialmente sensíveis.

Segundo Baguley, nosso sistema auditivo é profundamente afetado pelo estresse: quando a gente vive sob tensão constante, o cérebro literalmente “aumenta o volume” na tentativa de detectar sons que possam representar ameaça. Essa hipervigilância pode fazer com que ruídos internos ou estímulos muito tênues do ambiente ganhem uma dimensão que não teriam em outras circunstâncias. Não por acaso, muitos relatos do zumbido de baixa frequência coincidiram com períodos de alto estresse — a própria autora da reportagem norueguesa notou o som pela primeira vez durante a pandemia de COVID-19, época em que balsas elétricas e uma grande estação de carga foram instaladas a 100 metros de sua casa.

Zumbido misterioso ou tinnitus? A conclusão do estudo

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Com as duas hipóteses iniciais descartadas para a maioria dos casos, os pesquisadores da NTNU chegaram a uma explicação dupla. Uma fração minoritária de quem ouve The Hum pode, de fato, ter uma sensibilidade auditiva acima da média para sons graves — e nesses casos existe a possibilidade de o som vir de uma fonte externa real, ainda que difícil de localizar. Para a grande maioria, no entanto, a melhor explicação é outra.

“Com base em nossos resultados, embora não tenhamos descartado casos de fontes sonoras externas físicas, sugerimos que o tinnitus subjetivo na faixa de baixa frequência é frequentemente a causa por trás da percepção de pulsações de baixa frequência”, afirma Drexl. Em outras palavras: o zumbido misterioso The Hum é, para a maior parte das pessoas que o ouvem, um som que nasce dentro do sistema auditivo. Não é captado de fora — é gerado de dentro para fora.

O tinnitus, ou zumbido no ouvido, é exatamente isso: a percepção de um som no ouvido ou na cabeça sem que exista uma fonte sonora externa correspondente. Muita gente experimenta tinnitus de forma passageira, mas para alguns ele se torna permanente. A diferença crucial é que, ao se mudarem de lugar, essas pessoas percebem que o som persiste — e aí fica claro que a origem não está no ambiente.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores fazem questão de listar as limitações do trabalho. O grupo testado foi pequeno — apenas 28 pessoas —, o que impede generalizações peremptórias. Além disso, os testes auditivos convencionais não captam as microestruturas dos limiares auditivos, aquelas variações finíssimas que poderiam explicar por que alguém ouve exatamente 50 Hz e não 52 Hz, por exemplo.

Outro ponto importante: o estudo não descarta a existência de fontes externas reais. Em alguns casos, o zumbido de baixa frequência pode sim vir de ventilação, tráfego, indústria ou fenômenos naturais. O que a pesquisa indica é que, quando nenhuma fonte externa é encontrada, a explicação mais plausível está na fisiologia do sistema auditivo, e não em conspirações ou tecnologias secretas.

Drexl também destaca que a ciência ainda sabe relativamente pouco sobre como o sistema auditivo processa sons graves e infra-sons — a faixa abaixo de 20 Hz. A maior parte do conhecimento atual sobre audição foi construída estudando frequências mais altas. Para avaliar adequadamente os efeitos do ruído de baixa frequência no bem-estar humano, será preciso primeiro entender melhor como o lida com esses estímulos.

Por que isso importa?

O zumbido misterioso The Hum não é só uma curiosidade de fórum de internet. Ele afeta a qualidade de vida de pessoas reais, algumas das quais relatam desde incômodo leve até quadros de adoecimento. Saber que o som pode ter origem interna, e não externa, muda a forma como a medicina e a audiologia podem abordar a queixa — deslocando o foco de caças infrutíferas a fontes no bairro para o cuidado com a saúde auditiva e o manejo do estresse.

Em um mundo cada vez mais ruidoso, com crescente exposição a sons de baixa frequência vindos de turbinas, bombas de calor e tráfego, entender a fronteira entre o que é real e o que é percepto fantasma deixa de ser só um exercício científico. É um passo para dar respostas honestas a quem convive com um som que ninguém mais escuta.

Fontes

  • HAUGAN, Idun. A strange humming phenomenon. Norwegian SciTech News, 2 jun. 2026.
  • DREXL, Markus et al. On the potential sources of a low-frequency sound percept that only a few can perceive. PLOS One, mar. 2026. DOI 10.1371/journal.pone.0326818
  • The World Hum Map and Database Project, coordenado por Glen MacPherson, 2012.

Perguntas frequentes

O que é o fenômeno The Hum?

É um zumbido ou pulsação grave e constante, ouvido por uma minoria da população (2% a 4%), sem fonte externa aparente. O som é mais percebido em ambientes fechados e à noite, e não é ouvido por outras pessoas no mesmo local.

Por que algumas pessoas ouvem um zumbido e outras não?

Na maioria dos casos, o zumbido misterioso The Hum parece ser uma forma de tinnitus de baixa frequência — um som gerado pelo próprio sistema auditivo. Em uma minoria, pode haver sensibilidade auditiva excepcional para sons graves, permitindo captar ruídos reais que os outros não ouvem.

O zumbido misterioso pode ser tinnitus?

Sim. O estudo da NTNU sugere que, para a maioria das pessoas que ouvem The Hum, o fenômeno é um tinnitus subjetivo na faixa de baixa frequência, ou seja, um som “fantasma” produzido dentro do ouvido ou do cérebro.

Qual a frequência do zumbido The Hum?

Os participantes do estudo relataram ouvir o zumbido em uma frequência mediana de 50 Hz, uma faixa muito grave, na fronteira do infra-som.

O ouvido humano produz som sozinho?

Sim. A cóclea, no ouvido interno, gera emissões otoacústicas espontâneas — sons fracos que são um subproduto do processo de amplificação sonora. Na maioria das pessoas esses sons são inaudíveis, mas em alguns casos podem ser percebidos como um zumbido incômodo.

Foto: Francesco Ungaro no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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