O que está em jogo quando falamos em “transformar” o sistema alimentar?
Os sistemas alimentares, ou seja, tudo o que envolve produzir, processar, distribuir e consumir comida, respondem por cerca de um terço das emissões de gases de efeito estufa causadas por atividades humanas. Ao mesmo tempo, dietas de má qualidade figuram entre os principais fatores de risco de morte no mundo. Para lidar com essa crise dupla, a ciência vem propondo mudanças profundas na forma como a gente cultiva, transporta, desperdiça e consome alimentos.
O cenário de transformação testado pelo estudo, batizado de EL2, combina três alavancas centrais. A primeira é uma guinada da população mundial para a dieta de referência do relatório EAT-*Lancet* 2.0 — um plano alimentar que prioriza vegetais, frutas, castanhas e leguminosas, e reduz bastante o consumo de carnes vermelhas, açúcar e cereais refinados. A segunda é um salto de produtividade no campo, com crescimento mais acelerado do que o projetado nas tendências atuais. A terceira é cortar pela metade o desperdício e a perda de alimentos ao longo da cadeia. Esses três ingredientes são considerados os grandes “motores de mudança” capazes de redesenhar o sistema alimentar global até 2050.
Um retrato do campo em 2050: menos carne, mais vegetais e preços em queda
Quando os modelos aplicam as três alavancas ao mesmo tempo, o resultado é uma reorganização profunda da produção agropecuária. Em relação a um cenário de continuidade dos negócios (BAU, na sigla em inglês), a produção agrícola global seria 17% menor. O valor dessa produção despencaria: de US$ 6 trilhões ao ano projetados para 2050 no cenário atual, cairia para cerca de US$ 4,5 trilhões, uma redução de 26% (com intervalo de +8% a –58%).
A pecuária concentra a parte mais pesada desse ajuste. O valor da produção de ruminantes (carne bovina, ovina e caprina) despenca 81% em relação ao cenário BAU, uma perda de US$ 473 bilhões anuais. A produção de leite e derivados também encolhe, embora com menos intensidade: –27% em volume e –21% em preço ao produtor. Aves e suínos seguem trajetória parecida com a dos ruminantes em termos percentuais de produção e número de animais.
Enquanto a pecuária retrai, o setor de vegetais, frutas, castanhas e leguminosas (VFN, na sigla usada pelo estudo) avança. Seis dos nove modelos que reportaram esse segmento mostraram aumento de produção, com mediana de +23% sobre o cenário BAU. Já cereais e açúcar teriam quedas expressivas: –23% e –34% na produção, respectivamente. Os preços pagos aos produtores de cereais caem 15%, e os de açúcar, 9%.
Os pesquisadores fazem questão de separar o que é resultado medido do que é especulação. A maior parte da diferença no valor da produção agropecuária entre os cenários se explica pela redução do volume produzido (cerca de dois terços do efeito), enquanto o restante vem da queda de preços. No caso da carne de ruminantes, a retração no volume responde por aproximadamente 80% da perda de valor.
A maior contração de terras agrícolas em dois milênios
A reestruturação da agricultura global aparece com clareza quando se olha para o uso da terra. No cenário de transformação, a área agrícola total do planeta cairia 6% em relação a 2020, o que equivale a 274 milhões de hectares a menos — uma área maior que a soma dos territórios de Argentina e México. Esse recuo não encontra paralelo nos registros históricos que cobrem os últimos dois mil anos.
A pastagem é a grande protagonista dessa retração: todos os modelos mostram queda na área de pastejo, com mediana de –10% sobre os níveis de 2020 (intervalo de –30% a –4%). Já a área de cultivo agrícola teria um leve aumento de 3%, insuficiente para compensar a devolução de pastos. O resultado líquido é um encolhimento da fronteira agropecuária que levaria a terra agrícola global de volta ao patamar do fim dos anos 1970, quando a população mundial não chegava a 5 bilhões de pessoas.
A fotografia dos rebanhos confirma a ruptura. O número de ruminantes destinados à produção de carne seria reduzido em mais de 400 milhões de cabeças em comparação com 2020, ou 800 milhões a menos do que no cenário tendencial — um retorno a níveis de 1996. No caso das aves e suínos, a queda seria de 32% em relação às projeções atuais, o equivalente a 32 bilhões de animais a menos. O planeta voltaria a ter o plantel de não ruminantes de 2014.
Por que isso importa para você (mesmo que nunca tenha ouvido falar em EAT-Lancet)?
A transformação simulada pelo estudo mexe com questões que vão muito além dos portões da fazenda. A primeira é a saúde. Trabalhos anteriores citados pelos autores indicam que alcançar dietas saudáveis para toda a população mundial evitaria cerca de 15 milhões de mortes adultas por ano. A segunda é o clima. No cenário EL2, as emissões diretas de gases de efeito estufa da agropecuária (excluindo a pesca e a aquicultura) caem 20% em relação a 2020 — uma redução de 1,2 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente. As emissões líquidas de CO₂ ligadas à mudança no uso da terra recuam 85% sobre os níveis de 2020, com uma queda de 2,6 bilhões de toneladas de CO₂.
A água e os fertilizantes também sentiriam o alívio. A retirada de água para irrigação seria 3% menor do que no cenário tendencial, e o uso de fertilizantes nitrogenados, 17% menor. A conta ambiental, portanto, não é marginal — é estrutural.
Do ponto de vista econômico, o estudo projeta que o valor total da produção agropecuária no cenário transformado seria parecido com o de 2020, e não com o crescimento previsto para 2050. Mas essa média global esconde contrastes regionais agudos. A África Subsaariana veria o valor da sua produção agrícola crescer 60% até 2050 (em relação a 2020), enquanto a Índia teria um salto de 40%. Já China (–42%) e Brasil (–35%) registrariam quedas expressivas, especialmente nos segmentos de origem vegetal — um reflexo do peso que esses países têm como produtores de ração animal.
A reestruturação também redesenha o comércio internacional. A Europa e os Estados Unidos, que hoje consomem carne vermelha muito acima do recomendado pela dieta de referência, tenderiam a exportar uma fatia maior da sua produção de ruminantes (de 21% para 34% no caso europeu). Já a América do Sul veria sua fatia de exportação de carne bovina encolher de 19% para cerca de 10%. No caso de vegetais, frutas e leguminosas, o Sudeste Asiático e outras regiões da Ásia passariam a depender mais de importações para suprir o consumo interno.
O que o estudo ainda não consegue explicar — e por que isso é um sinal de honestidade científica?
Os próprios autores tratam as limitações como parte central da discussão. O cenário de transformação é exatamente isso: um cenário. Ele assume, por exemplo, que a população adotaria a dieta saudável sem custos adicionais de comportamento — uma hipótese forte, já que preferências alimentares envolvem cultura, acesso físico e econômico aos alimentos e hábitos arraigados. A simulação tampouco incorpora políticas de mitigação climática além das já implementadas, e os impactos de eventos extremos e outras variáveis que podem alterar a produtividade agrícola de forma imprevisível.
Outro ponto delicado é o destino das terras de pastagem que deixariam de ser usadas. Cerca de 65% das áreas de pastejo não são aptas para cultivos agrícolas. Se a pecuária recua e essas terras não encontram outro uso econômico, o risco é de abandono — como já ocorreu em larga escala após o colapso da União Soviética, quando entre 30 milhões e 60 milhões de hectares foram deixados para trás, gerando sumidouros de carbono que depois se reverteram quando a terra voltou a ser cultivada.
O estudo também não calcula o custo total da transição, nem como ele se distribuiria entre países e grupos sociais. Os pesquisadores alertam que a concentração de perdas em setores específicos — especialmente a pecuária — pode acelerar a consolidação de grandes players e expulsar pequenos e médios produtores do mercado, com consequências sérias para economias rurais.
Um desafio que começa na política e termina no prato de cada um
A mensagem mais incômoda do artigo talvez não esteja nos números, mas na política. Os autores lembram que muitas das políticas e subsídios atuais empurram o sistema alimentar na direção oposta à transformação desejada. Instrumentos como impostos sobre bebidas açucaradas, rotulagem nutricional e restrições à publicidade de ultraprocessados são importantes, mas, sozinhos, não entregam a magnitude de mudança que o cenário EL2 projeta, seria preciso ambição proporcional ao tamanho do problema.
A força de setores organizados da indústria de commodities, que historicamente resistem, bloqueiam ou cooptam tentativas de reforma, aparece como um dos principais entraves. Ao mesmo tempo, os pesquisadores não descartam a possibilidade de mudanças rápidas impulsionadas por inovações de saúde (como o avanço de agonistas de GLP-1 no tratamento da obesidade) ou por “pontos de virada” sociais, em que novas normas de consumo se espalham rapidamente.
No fim das contas, o que o estudo entrega não é uma previsão, mas um mapa dos impactos de uma escolha coletiva. A reestruturação da agricultura global até 2050 seria profunda o bastante para reescrever a história do uso da terra, do rebanho mundial e da economia do campo. Os benefícios seriam difusos — vidas salvas, clima mais estável, ecossistemas poupados. Os custos, concentrados. O tamanho da transformação, portanto, é também uma medida do tamanho do desafio político que a sociedade terá de enfrentar se quiser, de fato, levar a saúde planetária a sério.
Fontes
– Gibson, M. et al. “Food systems transformation would reshape global agriculture.” *Nature* (2026). DOI do estudo disponível no repositório Zenodo: https://doi.org/10.5281/zenodo.17570720
– EAT-*Lancet* 2.0 Commission. Relatório sobre dietas saudáveis, sustentáveis e justas. *Lancet* (2025).
– Springmann, M. et al. “Options for keeping the food system within environmental limits.” *Nature* 562, 519–525 (2018).
– HYDE 3.3 — History Database of the Global Environment (dados históricos de uso da terra). Disponível em https://landuse.sites.uu.nl/datasets/
Perguntas frequentes
O que é a transformação do sistema alimentar global?
É um conjunto de mudanças profundas na forma como o mundo produz, distribui e consome alimentos. O estudo da *Nature* simula uma transformação que combina três medidas: adoção de uma dieta saudável baseada no relatório EAT-*Lancet*, aumento da produtividade agrícola e redução de 50% no desperdício de alimentos.
Como uma dieta saudável impacta a agricultura?
Uma guinada para dietas com menos carne vermelha e açúcar e mais vegetais, frutas e leguminosas reduziria a produção de ruminantes em 53% e a de cereais em 23% até 2050, enquanto a de vegetais e frutas cresceria 23%. A área agrícola total encolheria 6% em relação a 2020, com forte redução das pastagens.
Quanto a pecuária global pode encolher com dietas sustentáveis?
O valor da produção pecuária (carne, leite e ovos) cairia 60% em relação às projeções atuais para 2050, uma perda de US$ 1,3 trilhão por ano. O rebanho de ruminantes para carne teria 400 milhões de animais a menos do que em 2020, voltando a níveis de 1996.
Quais os benefícios ambientais da mudança na alimentação?
As emissões diretas da agropecuária cairiam 20% em relação a 2020 (1,2 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente a menos), e as emissões líquidas de CO₂ por mudança no uso da terra recuariam 85%. O uso de fertilizantes nitrogenados seria 17% menor, e a retirada de água para irrigação cairia 3%.
Foto: Wolfgang Weiser no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





