Você já imaginou um animal que consegue sentir o cheiro do ambiente pelas asas? Para a mariposa-do-tabaco, essa não é uma ideia distante, é um sentido extra que pode definir o futuro dos seus filhotes. Cientistas acaba de confirmar que as asas desse inseto funcionam como autênticos narizes auxiliares, capazes de farejar substâncias químicas liberadas por plantas.
A descoberta, publicada em julho de 2026 no Journal of Experimental Biology, vai além da curiosidade biológica: ela mostra que o olfato das asas está diretamente ligado à escolha do local onde a mariposa deposita seus ovos — um comportamento crucial para a sobrevivência da espécie.
Dados do estudo: O trabalho é assinado por Ahmed Reda Ismaieel, Regina Stieber, Bill S. Hansson e Sonja Bisch-Knaden. O artigo completo está no periódico Journal of Experimental Biology, com o DOI 10.1242/jeb.252047.
Asas que vão além do voo
Quando a gente pensa em asas de inseto, a primeira imagem que vem à mente é movimento, sustentação no ar. Mas esses apêndices têm funções sensoriais que passam despercebidas a olho nu. No caso da Manduca Sexta — nome científico da mariposa-do-tabaco, uma espécie de mariposa-falcão — as asas abrigam estruturas minúsculas que misturam tato e olfato.
Essas estruturas se chamam sensilas e, na prática, são como pelos microscópicos que cobrem as margens das asas. Usando microscopia eletrônica de varredura, os pesquisadores contaram entre 21 e 32 dessas cerdas sensoriais em cada asa. O detalhe revelador: além de uma base protuberante típica de sensores mecânicos, que detectam toque e movimento do ar, essas sensilas exibem um poro na ponta e numerosos poros ao longo da parede. Esse é o sinal clássico de quimiorrecepção, ou seja, capacidade de detectar substâncias químicas no ambiente, seja por contato direto, seja captando moléculas que flutuam no ar.

Mariposa sente cheiro pelas asas: o que o estudo encontrou?
Ao analisar quais genes estavam ativos nas asas, a equipe encontrou uma sopa molecular ligada ao olfato. Havia genes de receptores gustativos (GRs) e de receptores ionotrópicos (IRs) — esses últimos, peças-chave no reconhecimento de odores como aminas e ácidos. Dois cor receptores importantes apareceram: o IR76b, parceiro obrigatório dos receptores de aminas, e o IR8a, co-receptor dos sensores de odores ácidos.
Curiosamente, as asas também expressavam genes de vários receptores odoríferos (ORs), mas não o gene do ORCo — o co-receptor indispensável para que os ORs funcionem. Sem ele, a via clássica de detecção de odor fica silenciosa. Isso sugere que as asas montaram um sistema olfativo alternativo, apoiado nos receptores ionotrópicos.
Para saber quais odores realmente acionam esse sistema, os cientistas fizeram registros eletrofisiológicos diretamente das asas. Testaram vários compostos, e apenas duas aminas voláteis dispararam uma resposta: a pirrolidina e a piperidina. Essas substâncias não são aleatórias — são alcaloides característicos de plantas da família das solanáceas (como o tabaco e o tomate), as preferidas da mariposa-do-tabaco para colocar seus ovos.
As sensilas que unem toque e olfato
As tais cerdas sensoriais — as sensilas — estão posicionadas estrategicamente nas bordas das asas. Com seus 21 a 32 representantes por asa, elas combinam duas funções num mesmo espaço: a base móvel indica que percebem vibração e toque; os poros na parede e na ponta revelam que capturam moléculas químicas. Essa arquitetura dupla é como um sensor de estacionamento que também sente o cheiro do escapamento — uma economia de espaço e material que a evolução esculpiu ao longo do tempo.
Genes do olfato que as asas carregam
Além dos IR76b e IR8a, os pesquisadores identificaram genes da família IR7d, específica de mariposas. Por meio de modelagem computacional e simulações de encaixe molecular, propuseram que os receptores codificados por genes IR7d são os candidatos mais prováveis para reconhecer justamente a pirrolidina e a piperidina. É como se a fechadura molecular dessas sensilas tivesse o formato exato dessas duas chaves odoríferas.
Vale destacar que essa etapa do estudo é uma predição computacional. Os autores não mediram diretamente a ligação entre os receptores IR7d e os alcaloides dentro de um neurônio vivo. É uma hipótese forte, apoiada por simulações, mas ainda não confirmada em bancada.
Por que isso importa para você (e para a humanidade)?
A mariposa-do-tabaco não é um inseto qualquer. Ela é um modelo clássico em neurociência e ecologia química — já rendeu descobertas sobre como o cérebro processa odores e como os insetos interagem com as plantas. Agora, ao revelar que as asas participam ativamente do olfato, o estudo amplia o que a gente entende sobre percepção sensorial.
Do ponto de vista evolutivo, a descoberta sugere que diferentes partes do podem assumir papéis olfativos quando a necessidade ecológica aperta. Para uma mariposa que precisa decidir onde depositar ovos e garantir alimento para as futuras lagartas, ter um nariz extra nas asas — bem na superfície que toca ou roça as folhas — faz todo o sentido. A natureza reaproveitou estruturas que já existiam, adicionando uma camada química à função mecânica original.
Essa lógica de sensores distribuídos pelo corpo não é exclusiva da mariposa: outros insetos farejam com as pernas, com as antenas e até com os órgãos genitais. Compreender esses arranjos ajuda a decifrar os circuitos da evolução sensorial e pode inspirar, no longo prazo, tecnologias de detecção química descentralizada.
O que o estudo ainda não explica
Os próprios autores listam as fronteiras do conhecimento que o trabalho não ultrapassou. A identificação dos receptores IR7d veio de modelagem molecular — ou seja, é uma estimativa computacional, não uma medição direta da interação entre proteína e odorante. Confirmar essa predição exigirá experimentos com proteínas isoladas ou neurônios em cultura.
Outro ponto: a ligação entre o olfato das asas e a escolha de oviposição é uma inferência ecológica, baseada no fato de que as aminas detectadas vêm das plantas hospedeiras preferidas. Mas o estudo não testou se mariposas com as asas bloqueadas realmente mudam seu comportamento de postura. Seria preciso um experimento comportamental controlado para fechar essa corrente causal. Por enquanto, a conclusão é: as asas sentem esses odores e, muito provavelmente, isso influencia a decisão de onde pôr os ovos.
Também não se sabe se outras espécies de mariposa-falcão compartilham essa capacidade ou se é uma especialização da Manduca sexta. E a ausência de ORCo nas asas, embora intrigante, não descarta que os ORs encontrados funcionem por alguma via ainda não identificada — um mistério para futuros estudos.
O significado mais amplo
A ideia de que um animal pode sentir o cheiro do mundo com as asas bagunça uma fronteira que a gente achava bem estabelecida: cada órgão sensorial tem seu lugar fixo no corpo. As antenas sempre foram as donas do olfato; o resto, coadjuvante. O que este estudo mostra é que a natureza não segue manuais — ela testa soluções onde a pressão seletiva aperta.
A mariposa-do-tabaco precisava decidir, no escuro, sobre qual planta botar seus ovos. A evolução transformou as margens das asas em antenas extras, sintonizadas com os odores que denunciam a planta certa. Uma história de reaproveitamento elegante, que nos lembra que o corpo animal ainda guarda surpresas — às vezes, literalmente, nas pontas das asas.
Fontes
- Ismaieel, A.R., Stieber, R., Hansson, B.S. & Bisch-Knaden, S. “Noses on the wing: the olfactory capacity of hawkmoth wings”. Journal of Experimental Biology, julho de 2026. DOI: 10.1242/jeb.252047
Perguntas frequentes
As mariposas sentem cheiro pelas asas?
Sim. O estudo com a mariposa-do-tabaco (Manduca sexta) mostrou que as bordas das asas têm sensilas que detectam aminas voláteis, funcionando como órgãos olfativos auxiliares.
Como as asas da mariposa detectam substâncias voláteis?
Pequenas cerdas sensoriais chamadas sensilas têm poros por onde as moléculas entram e se ligam a receptores ionotrópicos, gerando sinais elétricos que o sistema nervoso interpreta como odor.
Quais compostos químicos as asas da mariposa-do-tabaco detectam?
Os registros eletrofisiológicos mostraram resposta apenas a duas aminas voláteis: pirrolidina e piperidina, alcaloides encontrados em plantas da família das solanáceas.
Qual a importância do olfato nas asas para a oviposição?
A detecção dessas aminas provavelmente indica a presença de uma planta hospedeira adequada, influenciando a escolha da mariposa sobre onde depositar os ovos. A conexão é inferida, não testada diretamente em comportamento.
O que são sensilas e onde elas estão nas asas da mariposa?
São estruturas sensoriais em forma de pelo que ficam nas margens das asas. Na mariposa-do-tabaco, há de 21 a 32 dessas sensilas por asa, combinando funções de tato (pela base móvel) e de olfato (pelos poros na parede e na ponta).
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





