Uma cena improvável no deserto do Arizona chamou a atenção do biólogo Mark Moffett: formigas colheitadeiras, conhecidas por sua agressividade, estavam completamente imóveis enquanto formigas muito menores percorriam seus corpos. As pequenas pareciam lamber e mordiscar as gigantes. Moffett, colaborador da Nautilus, acabava de documentar o primeiro caso de comportamento de limpeza interespecífica em formigas.
O comportamento, descrito num artigo publicado na revista Ecology and Evolution, é o equivalente terrestre ao que peixes-limpadores fazem nos oceanos. As formigas colheitadeiras (Pogonomyrmex barbatus) congelavam perto da entrada dos ninhos das formigas-cone, flexionavam as pernas para assumir uma postura elevada e permitiam que as visitantes escalassem seu corpo inteiro. Até mesmo entre as mandíbulas abertas as pequenas faxineiras circulavam livremente.
Como funciona essa parceria inesperada?
As sessões de limpeza duravam de 15 segundos a 5 minutos e eram sempre iniciadas pelas formigas colheitadeiras. Elas solicitavam o serviço ativamente, aproximando-se dos ninhos das formigas-cone e assumindo a postura de convite. O fim da faxina era igualmente claro: as colheitadeiras sacudiam violentamente o corpo até derrubar as limpadoras.
Moffett observou o comportamento durante dias. A tolerância das colheitadeiras surpreende porque essas formigas são predadoras ferozes, capazes de travar guerras contra colônias rivais e até escravizar outras espécies. Deixar formigas estranhas caminharem sobre seu corpo é o oposto do que se esperaria delas.
O que as formigas ganham com isso?
A hipótese principal de Moffett envolve uma troca mutuamente benéfica, semelhante à dos peixes-limpadores e seus clientes marinhos. As formigas colheitadeiras se alimentam de sementes ricas em gordura, e as formigas-cone podem estar consumindo restos de alimento e detritos grudados no exoesqueleto das colheitadeiras.
Embora as colheitadeiras já façam limpeza entre si, as formigas-cone são mais ágeis e alcançam pontos difíceis do corpo. É possível também que as duas espécies estejam trocando microrganismos benéficos durante o processo. Se confirmada, essa troca de micróbios resultaria num microbioma mais saudável para ambas as colônias.
Por que essa descoberta importa?
Comportamentos de cooperação entre espécies diferentes são raros no mundo dos insetos. O mutualismo de limpeza era conhecido em peixes, aves e alguns mamíferos, mas nunca tinha sido observado em formigas. A descoberta amplia o que se sabe sobre a complexidade das interações sociais desses insetos.
O estudo também levanta perguntas sobre como essa relação surgiu evolutivamente. As colheitadeiras são muito maiores e poderiam facilmente matar as formigas-cone. O fato de não o fazerem sugere um mecanismo de reconhecimento ou um benefício concreto que supera o impulso agressivo.
Limitações e próximos passos
Moffett ainda não sabe exatamente o que as formigas-cone estão consumindo durante a limpeza. A dieta baseada em detritos gordurosos é uma hipótese, não uma confirmação. Também não está claro se a troca de microrganismos realmente acontece ou qual seria seu impacto mensurável na saúde das colônias.
Estudos futuros precisarão analisar o conteúdo do que as formigas-cone ingerem durante as sessões e comparar o microbioma de colheitadeiras que recebem limpeza com o daquelas que não recebem. Só assim será possível confirmar se a relação é de fato mutualista.
A descoberta de Moffett prova que mesmo entre espécies com histórico de violência extrema, a cooperação encontra seu espaço. No mundo das formigas, a paz não é apenas possível: ela tem seis patas e sabe pedir uma boa faxina.
Foto: Jimmy Chan no Pexels
Matéria original: https://nautil.us/these-small-ants-act-like-cleaner-fish-1280653/






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