Você provavelmente já ouviu falar (ou conhece alguém que usa) medicamentos como Ozempic, Wegovy ou Mounjaro. Eles ganharam o mundo pela eficácia no controle do diabetes tipo 2 e na perda de peso.
Mas um estudo recém-publicado investiga uma suspeita que muitos usuários vinham comentando em consultórios e fóruns: será que esses remédios mexem com o olfato e o paladar? Um estudo com quase 900 mil pessoas acaba de colocar números nessa conversa e, diferente do que se imaginava, os dados não apontam para um efeito protetor.
Pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém analisaram prontuários eletrônicos de mais de 170 instituições de saúde ao redor do mundo e encontraram um risco moderadamente maior de distúrbios de olfato e paladar entre quem usa agonistas do receptor de GLP-1. O trabalho foi publicado no periódico JAMA Otolaryngology – Head & Neck Surgery e vem recheado de ressalvas que a gente precisa entender antes de cravar qualquer alarme.
Ficha do estudo: O artigo “Smell and Taste Disturbances Among Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Users” foi conduzido por Nir Zontag e colegas do Hadassah Medical Center e publicado em 25 de junho de 2026 no JAMA Otolaryngology. O DOI é 10.1001/jamaoto.2026.1498.
O que são agonistas do GLP-1 e por que eles entram nessa história?
GLP-1 é a sigla para “peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1”, um hormônio que o corpo produz naturalmente. Os agonistas do receptor de GLP-1 — classe que inclui semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda), dulaglutida e outros — imitam a ação desse hormônio. Eles ajudam a controlar a glicemia, atrasam o esvaziamento do estômago e reduzem o apetite. Por isso se tornaram peça-chave no tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, no manejo da obesidade.
A conexão com olfato e paladar não é aleatória: receptores de GLP-1 existem no bulbo olfatório, a estrutura cerebral que processa os cheiros, e nas papilas gustativas, sugerindo que o sistema sensorial também pode ser influenciado por esses fármacos. Só que até agora a discussão vinha pendendo para o lado oposto: estudos em laboratório sugeriam um efeito protetor sobre os neurônios olfativos. A nova pesquisa coloca um ponto de interrogação nessa ideia.
O que o estudo encontrou?
Os pesquisadores montaram dois grupos. O primeiro reuniu 568.273 pacientes com diabetes tipo 2 que receberam pelo menos duas prescrições de um agonista de GLP-1 a partir de dezembro de 2017. O grupo de controle, bem maior, juntou 2.528.228 pacientes com diabetes tipo 2 que nunca usaram esses fármacos, mas tomaram outros antidiabéticos. Depois, usando pareamento por escore de propensão (uma técnica que tenta igualar as características dos dois lados), cada coorte ficou com 438.474 pessoas — idades, comorbidades e fatores socioeconômicos bem equilibrados.
O que veio a seguir resume a história em números:
- Distúrbios de olfato e paladar no geral: a incidência foi de 0,37% no grupo GLP-1 contra 0,22% no controle. O aumento do risco absoluto foi de apenas 0,15 ponto percentual — pequeno, portanto. O hazard ratio (HR, uma medida de risco relativo ao longo do tempo) foi de 1,48 (IC 95%, 1,37–1,61).
- Para o olfato especificamente: HR de 1,81 (IC 95%, 1,58–2,07), com risco absoluto 0,08% maior. A anosmia (perda total do olfato) teve HR de 1,78 (IC 95%, 1,55–2,05); a parosmia (distorção do olfato) mostrou HR de 2,18 (IC 95%, 1,71–2,77), o maior salto relativo do estudo — mas em termos absolutos o excesso foi de míseros 0,03 ponto percentual.
- Para o paladar: HR de 1,52 (IC 95%, 1,35–1,71), com aumento absoluto de 0,07%. O distúrbio registrado foi a parageusia — a percepção alterada do gosto.
Traduzindo os números para o chão do consultório: o “número necessário para causar dano” (NNH, na sigla em inglês) geral foi de 670 — ou seja, seria preciso tratar 670 pessoas com um agonista de GLP-1 para observar um caso adicional de distúrbio de olfato ou paladar que não teria acontecido no grupo controle. Quando se olha só para parosmia, o NNH sobe para 3.272. Isso mostra que o problema, embora real, não é frequente.
O acompanhamento durou de 3 meses a 2 anos após a primeira receita. Os pesquisadores escolheram essa janela porque quase metade dos usuários de GLP-1 interrompe o uso em até dois anos. Aplicaram um atraso de 90 dias justamente para evitar que eventos ocorridos no período de maior abandono precoce bagunçassem a análise.
Por que isso importa para você (e para qualquer pessoa que toma esses remédios)?
As alterações de olfato e paladar vão muito além do incômodo de não sentir o cheiro do café ou o gosto da comida. Em pessoas com diabetes tipo 2, elas já vêm sendo estudadas como possíveis marcadores precoces de lesão neurovascular e neuropatia, ou seja, podem sinalizar algo mais profundo no sistema nervoso. O estudo não prova que o remédio causa o dano, mas acende um alerta para que médicos e pacientes não descartem a queixa como algo trivial.
Outro ponto: o contraste com os achados de laboratório é um bom exemplo de por que a gente não pode tomar resultados pré-clínicos como verdade clínica. Camundongos e culturas celulares sugeriam neuroproteção; os prontuários de quase 900 mil pacientes sugerem o contrário. Os próprios autores especulam que, num sistema já alterado pelo diabetes, o efeito pode ser invertido — mas isso ainda é hipótese.
O que o estudo ainda não explica?
Os autores são cuidadosos ao listar as limitações, e essa parte merece tanto destaque quanto os números. Primeiro, trata-se de um estudo observacional retrospectivo — ele encontra associação, não causalidade. Não dá para afirmar que o remédio causou as alterações sensoriais; pode haver fatores de confusão que o pareamento não capturou por completo.
Segundo: a identificação dos distúrbios veio exclusivamente de códigos da CID-10 (Classificação Internacional de Doenças) nos prontuários eletrônicos. Não houve teste olfatório padronizado, exame de paladar nem questionário validado aplicado de forma uniforme a todos. Os diagnósticos dependem do que o paciente relatou e do que o profissional registrou — e queixas subjetivas são, por natureza, imprecisas.
Terceiro: o estudo não tinha informações sobre dose, duração exata da terapia nem adesão ao tratamento. Também não foi possível separar os diferentes agonistas de GLP-1 — todos foram agrupados, apesar das diferenças moleculares entre semaglutida, liraglutida, dulaglutida e outros. Além disso, a base de dados capta apenas atendimentos dentro da rede de instituições participantes; se alguém tratou um problema de olfato em outro lugar, esse dado não entrou na conta.
Por fim, o desenho do estudo excluiu pacientes que já tinham registro de distúrbio olfativo ou gustativo antes da primeira receita — o que é uma vantagem para aferir casos novos, mas pode ter deixado de fora um grupo interessante de pacientes mais suscetíveis.
Por que isso importa?
Num momento em que milhões de pessoas no mundo tomam agonistas de GLP-1, saber que o risco absoluto de alteração sensorial é pequeno é um alívio. Mas saber que o risco relativo existe — e que, para alguns subtipos como parosmia, ele pode ser mais pronunciado — é uma informação valiosa para a decisão compartilhada entre médico e paciente. Os autores são taxativos: a descontinuação do tratamento não deve ser automática. Os benefícios cardiometabólicos desses fármacos são bem documentados. A recomendação é avaliar cada caso, com critério e sem precipitação.
Se você usa um desses medicamentos e nota que o cheiro do perfume, da comida ou do ambiente mudou, ou que os sabores parecem estranhos, vale levar a observação ao médico — não para sair correndo e largar a caneta de aplicação, mas para incluir essa peça no quebra-cabeça clínico. Às vezes, um sintoma vago é a ponta de um fio que leva a algo maior. Outras vezes, é só um efeito passageiro. A ciência ainda está montando esse mapa, e este estudo é uma das primeiras cartografias sérias do território.
Fontes
- Zontag N, et al. Smell and Taste Disturbances Among Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Users. JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery. Publicado online em 25 de junho de 2026. DOI: 10.1001/jamaoto.2026.1498
- Lu J, et al. Estudo retrospectivo prévio com dados do FAERS citado no artigo como referência 5.
- Khan M, et al. Estudo retrospectivo prévio com dados do FAERS citado no artigo como referência 9.
- TriNetX LLC — plataforma de registros eletrônicos de saúde utilizada como base de dados da pesquisa, com mais de 170 instituições participantes.
Perguntas frequentes
Ozempic causa perda de olfato?
O estudo observacional com 876 mil pacientes encontrou uma associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e um risco maior de distúrbios do olfato, incluindo anosmia (perda total). O risco absoluto, porém, foi pequeno: 0,07 ponto percentual a mais no grupo tratado.
Ozempic altera o paladar?
Sim, os dados sugerem associação. A incidência de parageusia (percepção alterada do gosto) foi maior entre usuários de GLP-1: 0,18% contra 0,10% no grupo controle, com um hazard ratio de 1,52. Mas o estudo não prova causalidade, apenas mostra uma ligação estatística.
Quais os efeitos colaterais do Ozempic no olfato?
Os efeitos registrados incluem anosmia (incapacidade de sentir cheiros), parosmia (cheiros distorcidos) e distúrbios não especificados do olfato. No estudo, a parosmia teve o maior aumento relativo de risco, mas na prática representa um excedente de apenas 3 casos a cada 10 mil pessoas tratadas.
Por que usuários de Ozempic relatam alterações no paladar?
Receptores de GLP-1 existem nas papilas gustativas e no bulbo olfatório, o que sugere uma influência direta na percepção sensorial. Estudos experimentais indicam que o GLP-1 participa da sensibilidade a certos estímulos gustativos, mas os mecanismos exatos em humanos ainda estão sendo investigados.
Foto: Charmaine Pang no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





