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Maconha na adolescência dobra o risco de psicose e transtorno bipolar

Estudo com 463 mil adolescentes mostra que o uso de maconha no último ano já eleva em 119% o risco de psicose e em 101% o de transtorno bipolar — e o efeito não se explica só por automedicação.

Ilustração de cérebro adolescente com fumaça de maconha, destacando os riscos de maconha transtornos mentais adolescentes como psicose e depressão.
Ilustração de cérebro adolescente com fumaça de maconha, destacando os riscos de maconha transtornos mentais adolescentes como psicose e depressão.

Você tem 13, 14, 15 anos. Um colega oferece maconha. Você experimenta. Nada de mais? Um novo estudo que acompanhou quase meio milhão de jovens americanos sugere que aquela fumaça não é tão inofensiva quanto parece: o uso, mesmo que relatado no último ano, foi associado a um risco duas vezes maior de desenvolver transtornos psicóticos e bipolar até os 25 anos.

Não se trata de uso pesado, dependência ou produtos de altíssima concentração. A pergunta era simples: “você usou maconha no último ano?” e o “sim” já apareceu ligado a diagnósticos psiquiátricos relevantes.

A pesquisa, publicada no periódico JAMA Health Forum, usou os dados do sistema de saúde Kaiser Permanent do Norte da Califórnia, onde o rastreamento de uso de substâncias é rotina nas consultas pediátricas. A amostra final reuniu 463.396 adolescentes de 13 a 17 anos, acompanhados até no máximo 25 anos de idade.

Os cientistas queriam uma resposta que faltava na literatura: existe associação entre o uso de maconha nessa faixa etária e o primeiro diagnóstico médico de quatro grandes categorias psiquiátricas — transtornos psicóticos, transtorno bipolar, depressão e ansiedade — antes da vida adulta se firmar?

Ficha do estudo: O artigo Adolescent Cannabis Use and Risk of Psychotic, Bipolar, Depressive, and Anxiety Disorders, liderado pela pesquisadora Kelly C. Young-Wolff, PhD, MPH, do Kaiser Permanente Northern California, foi publicado em 20 de fevereiro de 2026 no JAMA Health Forum (doi:10.1001/jamahealthforum.2025.6839).

O que você chama de “risco duas vezes maior”?

A gente precisa explicar um termo que vai aparecer várias vezes aqui: hazard ratio ajustado, ou AHR. Traduzindo: é uma medida que compara o risco de ter um desfecho (o diagnóstico psiquiátrico) entre dois grupos ao longo do tempo, no caso, quem usou maconha no último ano versus quem não usou.

Um AHR de 2,19 para transtornos psicóticos significa que, descontados outros fatores como uso de álcool, outras drogas, condições socioeconômicas e histórico prévio de outros transtornos, o risco de receber aquele diagnóstico foi 119% maior entre os jovens que relataram uso de cannabis. Não é “causa” em sentido absoluto, mas uma associação forte o suficiente para merecer atenção.

O que o estudo encontrou?

Os números são diretos e não precisam de adjetivo. Entre os 463.396 adolescentes, 26.345 (5,7%) relataram uso de maconha no ano anterior. Durante o acompanhamento, os diagnósticos foram: 4.105 novos casos de transtornos psicóticos (uma taxa de 0,24 para cada 1.000 pessoas por ano), 4.061 de transtorno bipolar (mesma taxa), 62.137 de depressão (4,50 por 100 pessoas por ano) e 73.096 de ansiedade (5,64 por 100 pessoas por ano).

Depois de ajustar o modelo para idade, sexo, raça e etnia, privação do bairro, tipo de plano de saúde e uso de álcool e outras substâncias, os pesquisadores chegaram a estes números: o AHR para transtornos psicóticos foi de 2,19 (intervalo de confiança de 95% entre 1,97 e 2,42); para transtorno bipolar, 2,01 (IC 95% de 1,82 a 2,22); para depressão, 1,34 (IC 95% de 1,30 a 1,39); para ansiedade, 1,24 (IC 95% de 1,21 a 1,28). Em todas as quatro categorias, o uso de maconha apareceu associado a um risco maior. As associações mais fortes bateram justamente nos quadros mais graves: psicose e bipolaridade.

Só dependência importa?

Um detalhe mexe com a ideia de que “só dependência importa”. A definição de exposição foi qualquer uso no último ano. Não era necessário ter diagnóstico de transtorno por uso de cannabis, nem usar todo dia. Ainda assim, a associação se manteve robusta mesmo quando os pesquisadores jogaram pesado nas análises de sensibilidade: tiraram jovens com qualquer histórico psiquiátrico prévio e ajustaram para transtornos de comportamento disruptivo. Uma forma de tentar isolar quem poderia estar se automedicando de sintomas que ainda não tinham nome. Os AHRs continuaram significativos: 1,99 para psicose, 2,00 para bipolar, 1,37 para depressão e 1,22 para ansiedade.

Para depressão e ansiedade, os cientistas notaram um fenômeno interessante: a força da associação diminuiu com a idade. Entre os 13 e 15 anos, o risco de depressão associado ao uso de maconha foi de AHR 1,78 — quase 80% maior. Já entre 21 e 25 anos, essa associação perdeu significância estatística (AHR de 0,97, com intervalo de confiança cruzando o 1). O mesmo padrão apareceu na ansiedade: AHR de 1,47 no início da adolescência, caindo para 0,95 na faixa dos 21 a 25 anos, também não significativo. O achado bate com a ideia — já defendida em outras pesquisas — de que a adolescência é uma janela de vulnerabilidade cerebral especialmente sensível ao THC.

Os pesquisadores também calcularam o chamado E-value, uma ferramenta estatística que mede o quão forte teria que ser um fator de confusão não medido para derrubar a associação encontrada. Para transtornos psicóticos, o E-value foi 3,79. Na prática: um eventual fator oculto (como genética ou trauma infantil não registrado) precisaria estar associado tanto ao uso de maconha quanto ao risco de psicose com uma força de pelo menos 3,79 vezes para explicar completamente o resultado — o que é bastante alto, sugerindo que a associação não é trivial.

Por que isso importa para você, em qualquer país?

A Califórnia legalizou o uso adulto de cannabis em 2016, e o mercado de produtos com alto teor de THC se expandiu desde então. Os autores lembram que a concentração média de THC na flor de maconha na região já passa de 20%, muito acima do que circulava décadas atrás. Não é um retrato da Califórnia que fica restrito aos Estados Unidos: o debate sobre legalização, regulação e saúde mental juvenil atravessa fronteiras e chega a qualquer país que discuta políticas de drogas. Mesmo onde a maconha é ilegal, o acesso existe, e o recado do estudo é universal: a janela da adolescência merece proteção redobrada.

Os dados mostram ainda que os adolescentes que relataram uso eram desproporcionalmente hispânicos, negros não hispânicos, de bairros com mais privação socioeconômica e cobertos pelo Medicaid — o plano de saúde público americano para população de baixa renda. Esse perfil joga luz sobre desigualdades que podem amplificar o risco. Não é a droga sozinha; é o contexto de vulnerabilidade que, combinado ao uso, pode acelerar desfechos que já seriam mais prováveis.

A conexão com políticas de saúde pública é direta. O estudo reforça a importância de rastrear o uso de maconha nas consultas de rotina do adolescente e de levar a sério o que parece “só um baseado experimental”. Se até o uso eventual aparece associado a um salto no risco, campanhas genéricas do tipo “droga faz mal” perdem força diante de mensagens mais precisas: “seu cérebro em formação não lida com THC como o de um adulto”.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores são os primeiros a listar o que ficou de fora. O autorrelato de uso de maconha tende a subestimar a prevalência real — tem adolescente que não vai contar nem numa ficha confidencial. Como a definição de exposição foi “qualquer uso no último ano”, não dá para separar quem usou uma vez de quem usava toda semana, nem capturar a potência exata do THC consumido. Ninguém fez exame toxicológico para confirmar.

Os diagnósticos psiquiátricos vieram do prontuário eletrônico, o que significa que casos não relatados aos médicos não entraram na conta. Cerca de dois terços dos diagnósticos de transtornos psicóticos foram classificados como “psicose não especificada não devida a substância ou condição fisiológica conhecida”, o que pode refletir a cautela dos pediatras em cravar um rótulo definitivo na adolescência e limita a análise de subtipos específicos, como esquizofrenia.

A maior ressalva

A maior ressalva é a direção da seta causal. Embora o uso de maconha tenha precedido o diagnóstico por uma média de 1,7 a 2,3 anos, não dá para descartar a causalidade reversa: jovens com sintomas prodrômicos — aquela sensação difusa de que algo não vai bem, antes de qualquer diagnóstico — podem buscar a droga como alívio. Os autores insistem que a associação permaneceu mesmo depois de excluir quem já tinha qualquer transtorno psiquiátrico na linha de base e de controlar para uso de outras substâncias, mas o fantasma da automedicação de sintomas silenciosos ainda assombra qualquer estudo observacional.

Também fica em aberto o papel de fatores não medidos, como experiências adversas na infância, genética familiar e saúde mental dos pais. O E-value alto acalma, mas não elimina essa incerteza. E, por fim, a amostra vem de um sistema de saúde integrado da Califórnia, com jovens que fazem consultas regulares — difícil cravar que os números valem para adolescentes sem acesso a plano de saúde ou que vivem em países com políticas de drogas completamente diferentes.

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Por que isso importa?

O trabalho da equipe de Young-Wolff desloca o debate da dependência para o uso tout court. Você não precisa ser um “viciado” para que o cérebro em formação reaja de modo imprevisível ao THC. O sistema endocanabinoide — que a maconha bagunça — é um maestro do desenvolvimento neural na adolescência, e desafiná-lo pode custar caro. Se a associação mais forte aparece para quadros como psicose e transtorno bipolar, não se trata de exagero: é o tipo de condição que, uma vez instalada, acompanha a pessoa pela vida.

Os autores sugerem que mensagens de saúde pública mais enfáticas, restrições mais duras à venda para menores, limites de embalagem, sabor e publicidade, e encaminhamento precoce para saúde mental podem mudar essa trajetória. No fundo, o recado é simples: o cérebro adolescente não é um cérebro adulto em miniatura. Tratá-lo como tal é uma aposta com riscos que a ciência está começando a medir com mais clareza.

Perguntas frequentes

Maconha na adolescência pode causar psicose?

O estudo encontrou que o uso de maconha no último ano entre adolescentes de 13 a 17 anos foi associado a um risco 119% maior de receber um diagnóstico de transtorno psicótico até os 25 anos. A associação se manteve mesmo após excluir jovens com outros transtornos psiquiátricos prévios, mas o desenho observacional não permite afirmar causalidade definitiva.

Quais são os riscos do uso de cannabis para a saúde mental dos jovens?

Na coorte de 463 mil adolescentes, o uso de maconha foi associado a maior incidência de quatro categorias diagnósticas: transtornos psicóticos (risco 2,19 vezes maior), transtorno bipolar (2,01), depressão (1,34) e ansiedade (1,24), após ajustes para fatores sociodemográficos e uso de outras substâncias.

Adolescentes que usam maconha têm mais depressão?

Sim: o risco de desenvolver depressão foi 34% maior entre os que usaram maconha, com a associação mais forte na faixa de 13 a 15 anos (78% maior) e sem significância estatística após os 21 anos.

Cannabis e transtorno bipolar: qual a relação?

O uso de cannabis na adolescência foi associado a um risco duas vezes maior de transtorno bipolar incidente, mesmo depois de controlar para outros transtornos psiquiátricos e uso de álcool e outras drogas.

Como o THC afeta o cérebro adolescente?

Os autores explicam que o THC atua nos receptores canabinoides tipo 1, abundantemente expressos no cérebro em desenvolvimento. Isso pode desregular o sistema endocanabinoide, interferindo na maturação de áreas ligadas a motivação, emoções e processamento afetivo — algo especialmente sensível quando o uso começa cedo.

Uso de maconha na juventude aumenta risco de ansiedade?

O estudo observou um risco 24% maior de transtornos de ansiedade, mas com diminuição da força da associação conforme a idade avança; após os 21 anos, a associação deixou de ser estatisticamente significativa.

Fontes

  • Young-Wolff KC, et al. Adolescent Cannabis Use and Risk of Psychotic, Bipolar, Depressive, and Anxiety Disorders. JAMA Health Forum. Publicado em 20 de fevereiro de 2026. doi:10.1001/jamahealthforum.2025.6839
  • Substance Abuse and Mental Health Services Administration. Key substance use and mental health indicators in the United States: results from the 2023 National Survey on Drug Use and Health (citado como referência 1 no estudo original).
  • Gobbi G, et al. Association of cannabis use in adolescence and risk of depression, anxiety, and suicidality in young adulthood: a systematic review and meta-analysis. JAMA Psychiatry. 2019 (citado como referência 2 no estudo original).
  • Di Forti M, et al. The contribution of cannabis use to variation in the incidence of psychotic disorder across Europe (EU-GEI): a multicentre case-control study. Lancet Psychiatry. 2019 (citado como referência 4 no estudo original).

Foto: RDNE Stock project no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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