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Estudo revela como o nosso cabelo cresce

Imagens 3D de folículos humanos vivos mostram que o cabelo não é empurrado pela raiz, mas puxado para cima por uma rede de células em movimento — a bainha radicular externa.

Imagem 3D de folículo piloso mostrando células da bainha externa que puxam o cabelo para crescer por tração.
Imagem 3D de folículo piloso mostrando células da bainha externa que puxam o cabelo para crescer por tração.

O cabelo cresce por tração, não por pressão. A ideia que a gente ouviu a vida inteira, de que as células se multiplicam na raiz e empurram o fio para fora, acaba de ser derrubada por um estudo que filmou, em três dimensões e em tempo real, folículos capilares humanos vivos. A equipe flagrou uma coreografia celular escondida: uma camada externa do folículo se move em espiral para baixo e, com isso, move o fio para cima. É como se o cabelo fosse içado por um motor microscópico, e não expelido por um êmbolo.

O trabalho, liderado por pesquisadores da L’Oréal Research & Innovation e da Queen Mary University of London, foi publicado na revista Nature Communications em 21 de novembro de 2025 (DOI: 10.1038/s41467-025-65143-x). Ele coloca a força física, e não apenas os sinais químicos, no centro da conversa sobre crescimento capilar, abrindo um caminho novo para pensar em tratamentos contra a queda de cabelo.

O que a ciência achava que sabia sobre o folículo piloso?

O folículo piloso é essa estrutura em forma de bulbo que fica sob a pele e abriga a raiz do cabelo. Ele passa por fases: a anágena (crescimento ativo, com muita divisão celular), a catágena (regressão) e a telógena (repouso). Até agora, a biologia ensinava que, na fase anágena, as células-tronco na base do folículo se multiplicavam sem parar e empurravam o fio para cima. Um modelo de “push”, ou empurrão.

Essa visão vinha principalmente de estudos com roedores.

“Nosso conhecimento da biologia do folículo capilar é predominantemente baseado em folículos de roedores, enquanto observações sobre o folículo humano são mais escassas”, escrevem os autores.

Acontece que folículos humanos têm diferenças importantes, sobretudo na regulação hormonal e no ciclo de crescimento. Faltava um mapa global da dinâmica celular em folículos humanos vivos. É aí que o novo estudo entra.

Imagens 3D revelam o baile das células dentro do folículo

Para enxergar o que acontece camada por camada, a equipe usou um sistema de imagem 3D ao vivo (microscopia multifóton com lapso de tempo) em segmentos de folículos capilares humanos mantidos em cultura. As amostras vieram de cirurgias faciais estéticas. Com esse método, eles acompanharam a trajetória de centenas de células individuais por até 22 horas, antes que o folículo começasse a dar sinais de transição para a fase de pseudo-catágena.

A descoberta central está na bainha radicular externa (ORS, na sigla em inglês) — a camada que envolve o fio como uma meia tubular. Enquanto as camadas internas (córtex e bainha radicular interna, ou IRS) sobem carregando o fio, as células da ORS fazem um movimento espiral para baixo. Essa descida helicoidal foi observada tanto no sentido horário quanto anti-horário. A velocidade média de migração perpendicular ao eixo do fio chega a 12,0 micrômetros por hora (µm/h) — cerca de 0,3 milímetros por dia.

“Nossos resultados revelam uma coreografia fascinante dentro do folículo”, disse a Dra. Inês Sequeira, Reader em Biologia Oral e Cutânea na Queen Mary e uma das autoras principais. “Por décadas, assumiu-se que o cabelo era empurrado pelas células em divisão no bulbo. Nós descobrimos que, em vez disso, ele é ativamente puxado para cima pelo tecido ao redor, agindo quase como um pequeno motor.”

Esquema didático sobre a formação capilar em visão microscópica.

Como a bainha externa puxa o cabelo – crescimento por tração?

O movimento de descida das células da ORS não é só um detalhe curioso. Ele está acoplado mecanicamente à subida das camadas internas. É como uma esteira rolante inclinada: ao descer, a ORS exerce uma força de cisalhamento sobre a camada companheira (companion layer), que por sua vez arrasta a IRS e o córtex — o fio de cabelo propriamente dito, para cima. O estudo chama isso de “força de tração mediada por actina”.

A actina é uma proteína que forma filamentos dentro das células, permitindo que elas se contraiam e mudem de forma. Ela é abundante na ORS e se organiza de maneira diferente conforme a região do folículo: na parte suprabulbar, os filamentos formam anéis perpendiculares ao eixo do fio — justamente a orientação que favorece o movimento circular descendente. Mais abaixo, na região do bulbo, os filamentos ficam retilíneos, e o movimento de descida também se torna mais reto.

Os pesquisadores bloquearam a actina com um composto chamado latrunculina B. O resultado foi contundente: a velocidade de crescimento do fio despencou mais de 80%. “Isso revela que o crescimento capilar não é impulsionado apenas pela divisão celular — em vez disso, a bainha radicular externa puxa ativamente o cabelo para cima”, afirmou o Dr. Thomas Bornschlögl, outro autor principal, da equipe de Pesquisa Avançada da L’Oréal.

Por que bloquear a divisão celular não interrompe o crescimento?

Se o modelo do “empurrão” estivesse correto, bastaria parar as divisões celulares na base do bulbo para o cabelo parar de crescer. O estudo fez exatamente esse teste. Usaram demecolcina (colcemid) para inibir a mitose — a célula não consegue formar o fuso mitótico e, portanto, não se divide. O que aconteceu? O fluxo das camadas internas continuou subindo. A velocidade de crescimento do fio caiu apenas 24%.

“Quando interferimos na actina, a velocidade de crescimento caiu mais de 80%. Quando bloqueamos a mitose, a queda foi muito menor. Isso mostra que a mitose não é a força principal que move as camadas para cima”, explicam os autores. As simulações matemáticas de dinâmica de fluidos, que integraram os dados experimentais de velocidade e orientação das divisões celulares, confirmaram o achado: o modelo só conseguia reproduzir os perfis de velocidade observados quando uma força ativa de tração era incluída na fronteira entre a ORS e as camadas internas.

A equipe foi além e removeu cirurgicamente a região do bulbo de alguns folículos. Mesmo sem a “fábrica” de células novas na base, o movimento ascendente das camadas internas continuou por pelo menos 24 horas — um indício forte de que a força de tração está em ação muito acima da ponta da papila dérmica.

O que a descoberta muda para quem enfrenta a queda de cabelo?

A calvície e outros tipos de alopecia costumam ser abordados pelo lado bioquímico: hormônios, fatores de crescimento, inflamação. O que este estudo coloca na mesa é uma peça mecânica. Se o cabelo cresce puxado por forças geradas na bainha externa, entender como essas forças enfraquecem com a idade, com a genética ou com doenças abre uma avenida nova de investigação.

A equipe acredita que tratamentos futuros possam mirar o ambiente físico do folículo, e não apenas o químico. “Compreender essas forças mecânicas pode ajudar a projetar tratamentos que tenham como alvo o ambiente físico e bioquímico do folículo”, escrevem. A técnica de imagem 3D desenvolvida também permite testar drogas e observar em tempo real como elas afetam a mecânica interna do folículo — um salto em relação aos modelos estáticos tradicionais.

Segundo o estudo, a bainha radicular interna se move mais rápido do que o córtex logo acima da papila dérmica — a diferença média foi de 1,8 micrômetros por hora. Essa diferença de velocidade já havia sido registrada em humanos décadas atrás, mas agora ganha uma explicação mecânica coerente: a força de tração age de fora para dentro, com mais intensidade nas camadas externas.

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O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores listam as limitações com transparência. O principal ponto é que os experimentos foram feitos em folículos mantidos em cultura ex vivo, ou seja, fora do . Embora esse modelo permita uma resolução de imagem impossível de obter in vivo, ele tem restrições. Após cerca de 20 horas de imageamento contínuo, os folículos começam a dar sinais de transição para um estado de pseudo-catágena, o que limita o tempo de observação na fase anágena — exatamente a fase de crescimento ativo.

Outra limitação importante: a latrunculina B, usada para inibir a actina, afeta todas as células do folículo, não apenas as da ORS. Portanto, os resultados mostram que a actina está envolvida na força de tração, mas não provam que o mecanismo exato é exclusivamente a migração descendente da ORS. “Mais pesquisas são necessárias para identificar o processo exato impulsionado pela actina que contribui para a extrusão da fibra capilar”, ressalvam.

Além disso, o rastreamento de células individuais da ORS que entram na região mais profunda do bulbo ainda é preliminar. Os autores conseguiram estimar fluxos e sugerir destinos celulares — parte das células da ORS parece se incorporar às camadas internas, como já foi observado em folículos de camundongos —, mas são necessários tempos de filmagem mais longos e rastreamento 3D completo para cravar as proporções exatas.

Por que isso importa?

Este estudo rearruma uma peça fundamental da biologia capilar que parecia assentada. Ao mostrar que o motor do crescimento é uma força de tração gerada por células em movimento, ele desloca a atenção da simples multiplicação celular para a coreografia coletiva do tecido. É uma visão mais dinâmica, mais física e — para quem pesquisa regeneração de tecidos — mais fértil em possibilidades de intervenção.

A ideia de que estruturas do corpo humano crescem puxadas, e não empurradas, não é de todo inédita (já se viu algo parecido no alongamento de órgãos em moscas-da-fruta), mas é a primeira vez que ela se confirma com esse nível de detalhe em folículos capilares humanos vivos. Para qualquer pessoa que um dia se perguntou por que o cabelo insiste em cair, a resposta pode estar menos nos hormônios e mais na física do que se imaginava.

Perguntas frequentes

O cabelo cresce empurrado ou puxado?

Puxado. Um estudo com folículos humanos vivos mostrou que o cabelo é puxado para cima por uma força de tração gerada pela bainha radicular externa (ORS), e não empurrado pela divisão celular na raiz.

Como o cabelo cresce dentro do folículo?

As células da camada externa do folículo (ORS) descem em espiral, enquanto as camadas internas sobem. Esse movimento de descida gera uma força de tração que iça o fio para fora do couro cabeludo.

Qual o papel da bainha radicular externa no crescimento do cabelo?

A bainha radicular externa funciona como um motor microscópico: suas células migram para baixo e, ao fazer isso, puxam ativamente as camadas internas — e o fio de cabelo — para cima, num mecanismo que depende da proteína actina.

Por que essa descoberta pode ajudar no tratamento da queda de cabelo?

Ela mostra que forças físicas são essenciais no crescimento capilar, abrindo a possibilidade de tratamentos que atuem sobre a mecânica do folículo — por exemplo, fortalecendo a força de tração da ORS — e não apenas sobre hormônios ou fatores bioquímicos.

É verdade que a divisão celular não empurra o cabelo?

Sim. Quando os pesquisadores bloquearam a divisão celular no bulbo capilar, o fio continuou crescendo. Já quando inibiram a actina, proteína que permite a tração, o crescimento caiu mais de 80%.

Fontes

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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