Quanto mais um adolescente é exposto à publicidade de bebidas alcoólicas, maior a chance de ele começar a beber. A conclusão vem da primeira meta-análise de estudos longitudinais já feita sobre álcool e adolescentes: 19 coortes, com 82.498 jovens de 10 países. Na comparação entre quem vê muita e quem vê pouca propaganda, o risco relativo de beber foi 50% maior no grupo mais exposto, um efeito classificado como pequeno, mas consistente e difícil de atribuir ao acaso.
O recado mais importante talvez esteja fora dos números: a propaganda de álcool está em todo lugar, da TV aos filmes, das camisetas às redes sociais. E, entre todas as formas de marketing analisadas, a que apareceu com a associação mais forte com o consumo não foi a digital. Foi a televisão.
Ficha do estudo: o artigo “Alcohol Marketing Exposure and Youth Drinking: A Systematic Review and Meta-Analysis” saiu em 24 de agosto de 2026 na revista JAMA Pediatrics. Assinam Samantha Cukier (Health Canada), Mike Stoolmiller, Jamie Hartmann-Boyce e colegas, com coordenação de James D. Sargent, da Dartmouth Geisel School of Medicine (EUA). A revisão seguiu o protocolo PRISMA e teve apoio do National Institutes of Health (NIH). DOI: 10.1001/jamapediatrics.2026.3706.
O que é uma meta-análise (e o que ela diz sobre álcool e adolescentes)?
Meta-análise é uma pesquisa sobre pesquisas. Em vez de confiar em um estudo isolado, os cientistas reuniram 23 publicações, juntaram os dados de 19 coortes, grupos de jovens acompanhados ao longo do tempo, e analisaram tudo como um conjunto só. Funciona como uma assembleia de testemunhas: se 19 relatos independentes apontam na mesma direção, a conclusão fica mais firme do que se viesse de um único depoimento.
O estudo responde, com números, a uma pergunta antiga de pais e educadores: o que diz a ciência sobre álcool e adolescentes? Resposta direta: a exposição ao marketing está associada a um aumento do risco de os jovens beberem, com uma relação dose-resposta – quanto maior a exposição, maior o risco.
Para chegar a esse resultado, os pesquisadores usaram o risco relativo (RR), uma medida que compara a chance de um evento entre dois grupos. Um RR de 1,50 indica que, no grupo mais exposto à propaganda, a chance de começar a beber foi 1,5 vez a chance do grupo menos exposto. Um detalhe importante: é um risco relativo. O estudo não informa a taxa absoluta, ou seja, quantos jovens em cada 100 beberam em cada grupo. O número expressa a comparação entre eles.
50% a mais de risco: os números do estudo
O achado central da meta-análise foi um RR de 1,50 (intervalo de confiança de 95%, 1,37 a 1,63) para a associação entre alta exposição ao marketing de álcool e consumo de álcool entre jovens. A certeza da evidência foi considerada moderada, os revisores elevaram a nota por causa da relação dose-resposta consistente.
Os números em volta reforçam a direção. Das 94 estimativas de risco incluídas, 86% apontaram para mais consumo: 78 foram maiores que 1,0, e 51 delas, estatisticamente significativas. Apenas 13 ficaram iguais ou abaixo de 1,0, e só uma foi significativamente menor. A heterogeneidade estatística é grande, mas diz respeito à intensidade do efeito, não ao sentido.
Entre os tipos de marketing, a propaganda na televisão teve a associação mais forte: RR de 1,71 (intervalo de confiança de 95%, 1,45 a 2,02). As demais ficaram abaixo, mas ainda positivas: outras propagandas (rádio, revistas, internet), com RR de 1,23; incentivos promocionais, com 1,20; e receptividade ao marketing, como gostar de uma marca ou de um anúncio, com 1,21. A análise narrativa ainda sugeriu que a propaganda muda atitudes e cognições dos jovens, e que essas mudanças funcionam como ponte entre o anúncio e o consumo.
Por que isso importa para você (mesmo fora do estudo)?
Você já pensou que adolescente bebe por pressão do grupo? O estudo mostra que o empurrão também vem da tela. E lembra que, apesar da autorregulamentação da indústria, a exposição de menores ao marketing de álcool continua comum, principalmente entre quem assiste a esportes na TV, um público que vive cercado de anúncios de cerveja.
A pesquisa incluiu jovens de 10 a 20 anos (a maioria entre 10 e 15), com dados coletados entre 1998 e 2015 em países como Estados Unidos, Alemanha, Escócia, Taiwan, Argentina e México. A América Latina aparece com apenas duas coortes, e nenhum país de baixa renda entrou na amostra. Os autores pedem estudos nesses lugares, onde o marketing de álcool está em expansão. Ou seja: o que se sabe hoje vem, em grande parte, de países ricos, mas o problema não respeita fronteira.
O que o estudo ainda não explica?
Os autores são transparentes sobre as limitações. A principal é geográfica: a literatura é dominada por países de alta renda, o que limita a generalização. Além disso, todos os estudos incluídos tiveram alto risco de viés no desfecho, porque o consumo de álcool foi medido por autorrelato, o próprio jovem informa se bebeu.
Há ainda uma dificuldade de método. Quando um estudo mede várias formas de marketing ao mesmo tempo, como variáveis concorrentes, os resultados tendem a ficar nulos, provavelmente porque os fatores se confundem. Quando mede apenas uma forma, o estudo pode subestimar a associação. A recomendação é que as próximas pesquisas combinem as exposições em um índice único.
E estudo observacional, sozinho, não prova causa. Os autores consideram que os achados reforçam a noção de associação causal e apoiariam políticas de restrição à publicidade de álcool, inclusive a eliminação total, como fizeram Noruega e, mais recentemente, Lituânia.
O que a ciência recomenda, na prática?
O contexto ajuda a dimensionar o achado. O artigo lembra que o consumo de álcool é uma das principais causas de morte por lesões entre jovens e está associado a suicídio, violência, pior desempenho escolar e comportamentos sexuais de risco. Em 2019, o álcool esteve associado a 2,6 milhões de mortes e a 116 milhões de anos de vida perdidos ou vividos com incapacidade no mundo. E a substância prejudica o desenvolvimento neurobiológico na adolescência, quando o cérebro ainda está em formação.
Diferentemente da genética ou do ambiente familiar, o marketing pode ser regulado. Por isso, medir a associação entre propaganda e consumo tem valor prático: orienta decisões de saúde pública sobre como reduzir a exposição de crianças e adolescentes.
Nenhum anúncio, sozinho, faz um adolescente beber. Mas a soma deles, ano após ano, cria um terreno favorável ao primeiro gole. Na história de álcool e adolescentes, a propaganda não é detalhe de cenário — é parte ativa do enredo.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Fontes
- Cukier S, Stoolmiller M, Hartmann-Boyce J, et al. Alcohol Marketing Exposure and Youth Drinking: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Pediatrics, publicado online em 24 de agosto de 2026. DOI: 10.1001/jamapediatrics.2026.3706
- Material suplementar do estudo (eAppendixes e eTables), incluindo análises de subgrupos, avaliação de risco de viés e classificação GRADE.
- Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) — definição de marketing de álcool adotada na pesquisa.
Perguntas frequentes
O que diz a ciência sobre álcool e adolescentes?
A ciência mostra que a exposição ao marketing de álcool está associada a maior risco de início do consumo e de bebedeira entre jovens, com relação dose-resposta. O álcool também afeta o desenvolvimento neurobiológico na adolescência e, em 2019, esteve associado a 2,6 milhões de mortes no mundo.
Publicidade de bebida alcoólica aumenta o consumo entre adolescentes?
Sim. Segundo a meta-análise de 19 coortes com 82.498 jovens, quem tem alta exposição à publicidade apresenta risco relativo 1,5 vez maior de beber do que quem tem baixa exposição.
Quanto a exposição à publicidade de álcool aumenta o risco de beber?
O aumento no risco relativo é de 50% (RR 1,50). O estudo não informa o risco absoluto, ou seja, quantos jovens em cada grupo começaram a beber, o número expressa a comparação entre alta e baixa exposição.
Qual tipo de propaganda de álcool mais influencia os jovens?
A propaganda na televisão, com RR de 1,71. Outras formas de marketing também mostraram associação positiva, mas com valores menores.
Álcool na adolescência faz mal para o cérebro?
Segundo o estudo, sim: o álcool afeta negativamente o desenvolvimento neurobiológico durante a adolescência, período em que o cérebro ainda está em formação.
Por que os adolescentes são atraídos pela publicidade de álcool?
As campanhas são dirigidas a adultos jovens, mas os temas atraem menores pela proximidade de idade. Além disso, os jovens relatam consumir mais as marcas mais anunciadas, e ter marca favorita está associado a episódios de bebedeira.
Foto: Lawrence Lam no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





