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Covid e apneia do sono: estudo não vê piora dos mecanismos

Um estudo com 120 pessoas comparou quem teve covid com quem não teve e não achou diferenças nos mecanismos-chave da apneia do sono. Entenda.

Paciente em exame de polissonografia para estudo sobre covid e apneia do sono
Paciente em exame de polissonografia para estudo sobre covid e apneia do sono

Quem teve covid e convive com apneia obstrutiva do sono, a doença em que a respiração para e volta repetidamente durante o sono, pode respirar aliviado: um estudo publicado no Journal of Clinical Medicine não encontrou diferenças importantes nos quatro mecanismos que causam a apneia quando comparou pessoas com histórico de covid a um grupo controle. A única alteração achada foi um aumento na resposta ventilatória ao despertar, que é a “lufada” extra de ar que o corpo dá ao acordar. Na prática, isso significa que, para a maioria dos pacientes, o tratamento da apneia do sono não precisa mudar por causa da covid.

O estudo é o primeiro a olhar diretamente para esses mecanismos em quem teve a infecção. E a conclusão contraria uma suspeita que vinha ganhando força na medicina do sono: a de que a covid poderia agravar a apneia por danos neurológicos, inflamação ou sequelas pulmonares.

Dados do estudo

Pesquisadores das universidades Koç e Lund e das instituições Harvard Medical School e Brigham and Women’s Hospital (EUA) compararam 60 pessoas com histórico de covid-19 com 60 controles pareados por idade (±5 anos), sexo e índice de massa corporal (±5 kg/m²). Todos fizeram polissonografia, o exame que registra o sono durante uma noite inteira, sendo que o grupo covid fez o exame entre maio e outubro de 2021, cerca de um ano após a infecção. O artigo foi publicado em 11 de janeiro de 2026 no J. Clin. Med. 2026, 15(2), 580, com DOI 10.3390/jcm15020580.

O que é apneia obstrutiva do sono?

Apneia obstrutiva do sono é um distúrbio em que a via aérea superior (a garganta, basicamente) colapsa durante o sono, bloqueando a passagem do ar por alguns segundos. O cérebro sente a falta de oxigênio e acorda a pessoa para retomar a respiração, um ciclo que pode se repetir dezenas de vezes por hora, sem que a pessoa tenha consciência disso.

Uma forma simples de entender: é como se a língua e os músculos da garganta relaxassem demais e “fechassem o cano” enquanto você dorme. O corpo então faz força para abrir o cano, desperta por instantes e volta a dormir. O resultado é um sono picado, sem descanso de verdade, e uma sobrecarga para o coração.

Os quatro mecanismos da apneia que o estudo investigou?

A gravidade da apneia não depende só de uma causa. Quatro “engrenagens” diferentes trabalham juntas: a colapsabilidade das vias aéreas (o quanto a garganta fecha facilmente), o loop gain (a sensibilidade do sistema que controla a respiração, que pode “oscilar” e gerar pausas), o limiar de despertar (o quanto o cérebro precisa ser estimulado para acordar) e a compensação muscular (a capacidade dos músculos da faringe de reagir e reabrir a via aérea).

Os pesquisadores estimaram essas quatro características a partir dos sinais da polissonografia, usando um modelo matemático que transforma os dados da respiração noturna em medidas objetivas. É uma forma de “fenotipar” a apneia, ou seja, de identificar qual das engrenagens está mais desregulada em cada pessoa.

O que o estudo encontrou?

Na análise principal, ajustada para idade, sexo, IMC e índice de apneia-hipopneia (IAH), não houve diferença significativa entre quem teve covid e quem não teve em nenhum dos quatro mecanismos-chave:

  • Colapsabilidade da via aérea: diferença de −1 [−4, 2] %eupneia, p = 0,7 — ou seja, praticamente idêntica entre os grupos.
  • Loop gain (controle da respiração): diferença de 0,01 [−0,04, 0,06], p = 0,7.
  • Limiar de despertar: diferença de −1 [−7, 4] %eupneia.
  • Compensação muscular: diferença de 5 [−1, 11], p = 0,12.

A única diferença estatisticamente significativa foi na resposta ventilatória ao despertar (VRA): um aumento de 7 [1, 12] %eupneia associado ao histórico de covid. Isso quer dizer que, ao acordar, essas pessoas tendem a dar uma respirada mais forte do que o normal. Em uma análise exploratória restrita a pacientes com apneia (IAH ≥ 5), o aumento ficou em 6%, persistindo com significância reduzida.

O que é a resposta ventilatória ao despertar?

A resposta ventilatória ao despertar é a quantidade extra de ar que você inspira no instante em que acorda durante uma pausa respiratória. Ela é automática: o cérebro tira o “freio” da respiração e você dá uma respirada maior para repor o oxigênio. Um aumento dessa resposta parece interessante, mas na prática pode ser ruim: essa respirada extra em excesso desestabiliza o controle respiratório e pode até provocar a próxima pausa, numa reação em cadeia. Os autores explicam que uma resposta ventilatória ao despertar elevada já foi associada a menor eficácia de dispositivos orais para apneia e pode influenciar a resposta a CPAP, oxigênio suplementar e tratamentos farmacológicos.

E o tratamento da apneia após a covid?

Segundo os autores, os resultados “não sugerem a necessidade de modificar as abordagens atuais de tratamento da apneia obstrutiva do sono em pacientes com infecção prévia por covid-19”. Em outras palavras: se você já trata a apneia, não há evidência neste estudo de que a história de covid exija mudar o tratamento.

Os pesquisadores também fizeram uma análise adicional pareando os grupos pelo IAH (índice de apneia-hipopneia), a medida que quantifica quantas vezes a respiração para por hora de sono. Nessa análise, a única diferença encontrada foi uma maior compensação muscular em quem teve covid — o que, na prática, sugere até uma leve vantagem neuromuscular, não uma piora.

O que o estudo ainda não explica?

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Os próprios autores listam limitações importantes. Primeiro, o grupo controle veio de um banco de pacientes de uma clínica de sono e tinha apneia mais grave do que o grupo covid — o que pode ter introduzido viés de seleção, mesmo com o pareamento por idade, sexo e IMC. Segundo, não havia exames de sono prévios à infecção no grupo covid, então não é possível saber se a apneia veio antes ou depois da covid. Terceiro, a polissonografia foi feita cerca de um ano após a infecção, e a obstrução de vias aéreas costuma ser mais proeminente na fase aguda — ou seja, o estudo pode estar captando um momento de recuperação parcial. Quarto, as medidas fisiológicas foram estimadas por modelos, e não por técnicas invasivas (consideradas padrão ouro, porém menos toleráveis). E quinto, a amostra era 78% masculina, o que limita a generalização para mulheres, já que a apneia tem características diferentes entre os sexos.

O que isso significa para você?

Uma das grandes perguntas que ficou da pandemia foi se a covid deixaria um rastro duradouro na respiração durante o sono. Este estudo diz que, pelo menos nos mecanismos que importam para a apneia, o rastro não apareceu. A história da doença é cheia de mecanismos biológicos plausíveis, inflamação, dano neurossensorial, sequelas pulmonares, mas quando os pesquisadores foram medir, o corpo estava mais resiliente do que se temia.

Isso não contradiz o fato de que muitas pessoas relatam sono ruim e cansaço após a covid. O que o estudo mostra é que, se esses sintomas aparecem, podem vir de outras vias, como inflamação persistente, alterações autonômicas ou fatores psicológicos, incluindo estresse pós-traumático, e não de uma piora estrutural dos mecanismos da apneia. Para quem trata a apneia e teve covid, fica o recado: mantenha o tratamento como está. E, se tiver dúvidas, converse com seu médico.

Perguntas frequentes

Covid pode causar apneia do sono?

O estudo não encontrou evidência de que a covid altere os mecanismos que causam a apneia obstrutiva do sono (colapsabilidade das vias aéreas, loop gain, limiar de despertar e compensação muscular). A única diferença achada foi um aumento na resposta ventilatória ao despertar, cujo significado clínico ainda precisa de mais estudos.

A covid piora a apneia do sono?

Na análise principal, não. Os quatro mecanismos-chave da apneia ficaram estatisticamente iguais entre quem teve covid e quem não teve. Houve apenas um aumento na resposta ventilatória ao despertar, que pode influenciar a estabilidade respiratória, mas os autores consideram a descoberta exploratória.

Quem teve covid precisa mudar o tratamento da apneia do sono?

Segundo os autores, não há indicação de mudar as abordagens atuais de tratamento da apneia em quem teve covid, já que os mecanismos fisiológicos centrais não diferiram entre os grupos.

O que é apneia obstrutiva do sono?

É um distúrbio em que a via aérea superior colapsa durante o sono, bloqueando a respiração por segundos e fazendo o cérebro despertar para retomar o ar. Isso se repete várias vezes por hora e resulta em sono fragmentado e sobrecarga cardiovascular.

Como é feito o exame de apneia do sono?

O exame é a polissonografia, realizada em laboratório de sono com registro de eletroencefalograma, movimentos dos olhos, tônus muscular, fluxo nasal, esforço respiratório, oxigenação do sangue, batimentos cardíacos e ronco durante uma noite inteira de sono.

O que é resposta ventilatória ao despertar?

É a quantidade extra de ar que a pessoa inspira ao acordar durante uma pausa respiratória. No estudo, quem tinha histórico de covid apresentou uma resposta ventilatória ao despertar maior (7 [1, 12] %eupneia), o que pode ter implicações para a estabilidade da respiração e para a resposta a alguns tratamentos, como dispositivos orais.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Se você trata apneia do sono e teve covid, converse com seu médico antes de qualquer mudança no tratamento.

Foto: Ron Lach no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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