Ter um bebê que acorda de hora em hora é uma das experiências mais desgastantes da vida. Qualquer pai ou mãe que já passou por isso faria de tudo por algumas horas a mais de sono, para o bebê e para si. Mas e se a chave para um sono mais longo no primeiro ano de vida estiver em algo que começa logo nos primeiros dias?
Um estudo japonês recém-publicado mostra que a amamentação nos primeiros seis meses está ligada a um risco menor de sono curto quando o bebê completa 1 ano. E o mais curioso: o efeito aparece mesmo quando a criança também toma fórmula como suplemento.
Os números vêm do Japan Environment and Children’s Study, ou JECS, um dos maiores estudos de coorte de nascimentos do mundo. Os pesquisadores analisaram dados de 82.918 pares de mães e bebês — um tamanho que permite enxergar padrões com precisão. A pergunta central era simples: a forma como o bebê é alimentado nos primeiros seis meses de vida influencia quantas horas ele dorme nos 12 primeiros meses? A resposta, publicada no European Journal of Clinical Nutrition em março de 2026, é um “sim” com força estatística.
Ficha do estudo:
A pesquisa foi liderada por Yuri Nakagawa e colegas da Universidade de Toyama, no Japão, com participação do grupo JECS. O artigo “Breastfeeding and children’s sleep duration at 1 year of age: A nationwide birth cohort” saiu no European Journal of Clinical Nutrition, volume 80, páginas 476–482, em 2026. O DOI é 10.1038/s41430-026-01718-1.
O que é “sono curto” para um bebê de 1 ano?
Antes de falar dos resultados, vale esclarecer do que o estudo está tratando. A National Sleep Foundation, dos Estados Unidos, recomenda que crianças de 1 ano durmam entre 11 e 14 horas por dia, considerando um período completo de 24 horas, ou seja, somando as sonecas do dia e a noite.
Dormir menos de 11 horas diárias é o que os pesquisadores classificam como “sono curto”. Não é só cansaço no dia seguinte: estudos anteriores já associaram sono curto na infância a obesidade, hiperatividade e dificuldades de aprendizado mais tarde. Por isso, entender o que favorece ou prejudica o sono já no primeiro ano de vida importa para muito além da rotina noturna.
O que o estudo encontrou?
Os cientistas dividiram os bebês em quatro grupos, de acordo com o padrão de alimentação nos primeiros seis meses: os que só receberam fórmula; os que foram amamentados por menos de seis meses; os que receberam leite materno e fórmula durante os seis meses; e os que foram exclusivamente amamentados no peito por seis meses inteiros.
A prevalência de sono curto, ou seja, a proporção de bebês dormindo menos de 11 horas por dia, caiu conforme aumentava a presença do leite materno. No grupo que só tomou fórmula, 12,2% dos bebês tinham sono curto. No grupo amamentado por menos de seis meses, esse número baixou para 10,2%. Nos que receberam leite materno e fórmula pelos seis meses, a taxa foi de 9,7%. Já entre os bebês exclusivamente amamentados no peito, apenas 8,8% dormiam pouco.
Os pesquisadores então calcularam o odds ratio ajustado, uma medida que leva em conta variáveis como idade da mãe, renda familiar, escolaridade, peso ao nascer e dezenas de outros fatores que poderiam embaralhar os resultados.
Em comparação com os bebês que só receberam fórmula, o risco de sono curto foi 16% menor para os amamentados por menos de seis meses, 21% menor para os que receberam leite materno e fórmula pelos seis meses, e 23% menor para os que foram exclusivamente amamentados por seis meses. É uma escadinha: quanto mais leite materno, menor o risco de dormir pouco.
Por que o leite materno pode ajudar o bebê a dormir?
O estudo não testou diretamente os mecanismos biológicos — essa é uma limitação assumida pelos próprios autores —, mas o artigo discute três hipóteses que ajudam a gente a entender o que pode estar por trás dessa relação.
A primeira envolve a melatonina, aquele hormônio que regula o relógio biológico e avisa ao corpo que é hora de dormir. Um recém-nascido quase não produz melatonina sozinho, porque a glândula pineal ainda está em desenvolvimento. Durante os primeiros meses de vida, a principal fonte desse hormônio para o bebê é o leite materno. A fórmula infantil não contém melatonina. Como a produção autônoma de melatonina só atinge níveis e ritmos parecidos com os de um adulto por volta dos seis meses, o bebê que mama no peito está recebendo um “empurrãozinho” noturno que a fórmula simplesmente não oferece.
A segunda hipótese está no triptofano, um aminoácido essencial que o corpo transforma em serotonina e depois em melatonina. O curioso é que a concentração de triptofano no leite materno sobe à noite, é como se o próprio leite carregasse um sinal químico de “agora é hora de descansar”. A fórmula, por sua vez, mantém a mesma composição em qualquer horário do dia. Os autores sugerem que essa variação circadiana do triptofano no leite materno pode ajudar o bebê a ajustar seu relógio interno mais cedo.
A terceira hipótese vai pelo caminho do intestino. A amamentação molda a microbiota intestinal do bebê de forma diferente da fórmula, favorecendo bactérias benéficas. E existe uma via de mão dupla entre o intestino e o cérebro, o chamado eixo intestino-cérebro, que influencia desde o humor até o sono. É possível que a microbiota construída nos primeiros meses de amamentação participe da regulação do sono lá na frente, mas, de novo, isso é especulação baseada em estudos anteriores, não algo medido neste trabalho.
Por que isso importa para você e para a humanidade?
A amamentação já é recomendada pela Organização Mundial da Saúde por uma lista de razões: protege contra infecções, melhora o desenvolvimento da arcada dentária, está associada a melhores indicadores de inteligência e reduz o risco de obesidade e diabetes na vida adulta. O que este estudo acrescenta é um benefício menos óbvio e que bate direto na qualidade de vida da família inteira, o sono.
Dormir mal não afeta só o bebê. A privação de sono dos pais é um fator de risco para depressão pós-parto, dificuldades conjugais e até para maus-tratos infantis. Se a amamentação contribui para alongar o sono do bebê em algumas horas — e os dados sugerem que contribui —, o ganho reverbera em toda a casa. E o fato de o efeito aparecer mesmo quando a criança mistura leite materno com fórmula é um alento: não precisa ser “tudo ou nada”. Cada dose de leite materno parece somar.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores são cuidadosos ao listar as limitações. Primeiro, não mediram hormônios nem analisaram as bactérias intestinais dos bebês — as três hipóteses sobre melatonina, triptofano e microbiota são só isso, hipóteses. Segundo, as informações de sono e amamentação vieram de questionários preenchidos pelas mães, e isso pode introduzir o chamado viés de memória: uma mãe cansada pode superestimar ou subestimar as horas dormidas.
Um terceiro ponto importante é que o efeito, embora real, é modesto. A diferença máxima entre os grupos foi de 3,4 pontos percentuais (12,2% de sono curto no grupo fórmula versus 8,8% no grupo amamentação exclusiva). Isso significa que amamentar está longe de ser uma garantia de noites tranquilas — é apenas um fator entre muitos. Os autores também não conseguiram medir detalhes do ambiente de sono, como a luminosidade do quarto ou o uso de canções de ninar, que podem influenciar o resultado.
Por fim, o grupo que só usou fórmula é pequeno no Japão, e isso pode gerar um viés estatístico. As mães que não amamentam tendem a ter características socioeconômicas diferentes, e embora o estudo tenha ajustado as análises para esses fatores, sempre existe a possibilidade de variáveis não medidas terem escapado ao controle.
Fontes
- Nakagawa Y, Matsumura K, Tsuchida A, Inadera H, et al. Breastfeeding and children’s sleep duration at 1 year of age: A nationwide birth cohort – The Japan Environment and Children’s Study. European Journal of Clinical Nutrition 80, 476–482 (2026). DOI: 10.1038/s41430-026-01718-1
- National Sleep Foundation – recomendações de duração de sono para crianças (citadas no estudo como referência para o ponto de corte de 11 horas diárias)
- Organização Mundial da Saúde – diretrizes sobre amamentação e benefícios de longo prazo (mencionadas na introdução do artigo)
- Japan Environment and Children’s Study (JECS) – protocolo do estudo de coorte nacional japonês (descrito por Kawamoto T et al., 2014, e Michikawa T et al., 2018, ambos referenciados no material)
Perguntas frequentes
Amamentação ajuda o bebê a dormir mais?
Sim. O estudo mostrou que bebês amamentados nos primeiros seis meses de vida têm um risco menor de apresentar sono curto — menos de 11 horas por dia — aos 1 ano de idade, em comparação com bebês que receberam apenas fórmula.
Por que o leite materno melhora o sono do bebê?
Os autores sugerem três mecanismos possíveis: o leite materno contém melatonina e triptofano com variação noturna, que ajudam a regular o relógio biológico do bebê, e a amamentação molda uma microbiota intestinal que, via eixo intestino-cérebro, pode influenciar o sono. Nenhum desses mecanismos foi medido diretamente no estudo — são hipóteses baseadas na literatura.
Bebê que toma fórmula dorme menos?
A prevalência de sono curto foi maior no grupo que recebeu apenas fórmula (12,2%) do que nos grupos que receberam algum grau de amamentação (entre 8,8% e 10,2%). Mas o efeito é modesto: muitos bebês alimentados com fórmula dormem as horas recomendadas, e a diferença não significa que a fórmula cause sono curto.
O leite materno contém melatonina?
Sim. O leite materno contém melatonina, enquanto a fórmula infantil não. A melatonina do leite materno tem variação ao longo do dia, com concentração maior à noite, e é uma fonte importante desse hormônio para o bebê nos primeiros meses de vida, quando a produção própria dele ainda é insuficiente.
Quais os benefícios da amamentação para o sono infantil?
A amamentação nos primeiros seis meses foi associada a uma redução de até 23% no risco de sono curto aos 1 ano de idade. O efeito foi observado mesmo quando o bebê combinava leite materno com fórmula, sugerindo um benefício gradual conforme a quantidade de leite materno recebida.
Foto: Jonathan Borba no Pexels
Matéria original: https://www.nature.com/articles/s41430-026-01718-1
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





