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Acordar de madrugada é herança evolutiva? O que dizem os Hadza

insonia
Resumo em 15 segundos
  • Durante 20 dias de monitoramento com 33 adultos do povo Hadza, houve apenas 18 minutos no total em que todos estavam dormindo ao mesmo tempo.
  • Dormir todos juntos e ao mesmo tempo, no chão, sem paredes nem porta, deixaria o grupo inteiro exposto.
  • A janela analisada para o comportamento de sentinela foi de 20 dias.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Acordar de madrugada e ter dificuldade para voltar a dormir costuma ser tratado como defeito da vida moderna — culpa do celular, da luz elétrica, do sedentarismo. Um estudo com caçadores-coletores da Tanzânia sugere outra leitura: esse padrão pode ser uma herança evolutiva, um sistema de vigilância coletiva.

Durante 20 dias de monitoramento com 33 adultos do povo Hadza, houve apenas 18 minutos no total em que todos estavam dormindo ao mesmo tempo. Em 99,8% dos momentos medidos, pelo menos uma pessoa do grupo estava acordada ou em sono leve.

A pesquisa foi publicada em 12 de julho de 2017 na Proceedings of the Royal Society B, assinada por David R. Samson, Alyssa N. Crittenden, Ibrahim A. Mabulla, Audax Z. P. Mabulla e Charles L. Nunn, com DOI 10.1098/rspb.2017.0967.

Homem Hadza dormindo sobre uma pele de antilope no norte da Tanzania
Um homem Hadza dorme sobre uma pele de antílope no norte da Tanzânia. Foto: David Samson / PA

O que é a hipótese da sentinela

A ideia vem da observação de animais que vivem em grupo: enquanto parte do bando dorme, alguns indivíduos permanecem alertas, revezando-se na vigilância. É um sistema distribuído de proteção contra predadores.

A hipótese da sentinela propõe que o mesmo valeria para os humanos ancestrais. Dormir todos juntos e ao mesmo tempo, no chão, sem paredes nem porta, deixaria o grupo inteiro exposto. A variação natural nos horários de sono resolveria o problema sem que ninguém precisasse ficar de guarda de propósito.

O estudo com os Hadza foi a primeira tentativa de testar essa hipótese em uma população humana com medição objetiva.

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores usaram actigrafia — sensores de pulso que registram movimento e permitem estimar períodos de sono e vigília sem depender do relato da pessoa.

Participaram 33 voluntários adultos, e o conjunto somou 393 dias de registro. A janela analisada para o comportamento de sentinela foi de 20 dias.

A medição objetiva importa: perguntar às pessoas quando elas dormiram produz respostas imprecisas, sobretudo sobre despertares curtos de madrugada, que costumam ser esquecidos.

Os números que sustentam a conclusão

Três resultados dão o tamanho do efeito:

  • 18 minutos — o tempo total, somado ao longo de 20 dias, em que todos os 33 participantes estavam simultaneamente dormindo;
  • 8 pessoas — a mediana de indivíduos acordados a qualquer momento durante a noite;
  • 99,8% — a proporção dos momentos medidos em que ao menos uma pessoa estava acordada ou em sono leve, entre o instante em que o primeiro adormeceu e aquele em que o último despertou.

Por que jovens e idosos dormem em horários diferentes

O mecanismo por trás disso é o cronotipo — a preferência individual por dormir e acordar mais cedo ou mais tarde. É o que separa quem rende de manhã de quem rende à noite.

O cronotipo muda ao longo da vida. Adolescentes e adultos jovens tendem a deitar e acordar mais tarde; pessoas mais velhas tendem ao oposto, adormecendo e despertando cedo, com sono mais fragmentado.

Num grupo com pessoas de várias idades, essa variação natural cobre a noite inteira sem coordenação. O título do artigo diz exatamente isso: a variação de cronotipo dirige o comportamento de sentinela.

É uma inversão interessante: o sono fragmentado do idoso, tratado como declínio, pode ter sido uma função valiosa para o grupo ao longo da evolução.

Quem são os Hadza

Os Hadza vivem no norte da Tanzânia, na savana em torno do Lago Eyasi, e mantêm um modo de vida caçador-coletor. Organizam-se em acampamentos de 20 a 30 pessoas.

Durante o dia, homens e mulheres se separam para coletar tubérculos, frutos, mel e caça. À noite se reúnem, dormindo próximos à fogueira ou em abrigos feitos de galhos e capim.

Eles dormem no chão, sem iluminação artificial e sem controle de temperatura — condições que se aproximam mais do ambiente em que a espécie humana evoluiu do que qualquer quarto moderno. É por isso que interessam tanto a quem estuda a evolução do sono.

Dormir pouco não era um problema para eles

Um achado secundário chama atenção: o tempo total de sono dos Hadza é baixo — em média, menor do que o de populações ocidentais. Segundo Samson, na sociedade ocidental as pessoas dormem mais e em condições melhores do que os caçadores-coletores.

Apesar disso, os participantes não relatavam a angústia com o sono que é comum nos países desenvolvidos, especialmente entre idosos. Acordar de madrugada não era vivido como um distúrbio a ser corrigido — era simplesmente parte da noite.

A antropóloga Alyssa Crittenden, da Universidade de Nevada, Las Vegas, coautora do trabalho, resume o valor desse tipo de população para a ciência: eles ajudam a contar uma parte da história evolutiva humana justamente por viverem de um modo mais próximo do nosso passado.

O que o estudo não diz

Aqui é preciso cuidado com a conclusão. O trabalho mostra um padrão de grupo em uma população específica e sugere uma explicação evolutiva para a variação de cronotipos. Ele não afirma que insônia seja inofensiva, nem que noites mal dormidas não tenham consequência.

Também não é um estudo clínico: não testou tratamento, não acompanhou desfechos de saúde e não compara insones com não insones.

O que ele oferece é contexto. Acordar uma ou duas vezes durante a noite e voltar a dormir é compatível com o funcionamento normal do sono humano. Isso é diferente de insônia persistente, com dificuldade recorrente para dormir e prejuízo no dia seguinte — quadro que merece avaliação de um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

O que é a hipótese da sentinela do sono?

É a ideia de que, em grupos que dormem juntos, a variação natural nos horários de sono faz com que sempre haja alguém acordado, garantindo vigilância contra ameaças noturnas sem que ninguém precise ficar de guarda deliberadamente.

Quanto tempo os Hadza ficaram todos dormindo ao mesmo tempo?

Apenas 18 minutos no total ao longo de 20 dias de monitoramento com 33 adultos. Em 99,8% dos momentos medidos, pelo menos uma pessoa estava acordada ou em sono leve.

Por que os idosos acordam mais cedo?

Por causa do cronotipo, a preferência individual de horário de sono, que muda com a idade. Jovens tendem a dormir e acordar mais tarde; pessoas mais velhas, mais cedo e com sono mais fragmentado. Essa variação cobre a noite inteira num grupo com idades diferentes.

Acordar de madrugada é normal?

Despertares breves durante a noite fazem parte do funcionamento normal do sono humano. Isso é diferente de insônia persistente, com dificuldade recorrente para dormir e prejuízo no dia seguinte, que deve ser avaliada por um profissional de saúde.

Os caçadores-coletores dormem mais do que nós?

Não. O estudo encontrou tempo total de sono baixo entre os Hadza — menor que o de populações ocidentais. A diferença é que eles não relatavam a angústia com o sono comum nos países desenvolvidos.

Fontes

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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