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Por que 90% das pessoas são destras? O que a ciência sabe

Cerca de 90% das pessoas são destras. Um estudo com 41 espécies de primatas liga isso à postura ereta e ao cérebro grande. Veja o que explica os canhotos.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

8 min de leitura ·

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Muitas pesquisas falam sobre o motivo de algumas pessoas serem destras e outras canhotas.
Muitas pesquisas falam sobre o motivo de algumas pessoas serem destras e outras canhotas.
Resumo em 15 segundos
  • Cerca de 10,6% das pessoas no mundo são canhotas, segundo a maior meta-análise sobre preferência manual.
  • Um estudo com 41 espécies de primatas liga a forte preferência humana pela direita à postura ereta e ao cérebro grande.
  • Os genes explicam cerca de um quarto da preferência manual, e o resto vem de fatores do desenvolvimento.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Em qualquer lugar do mundo, cerca de nove em cada dez pessoas preferem a mão direita para escrever, comer e usar ferramentas. Nenhum outro primata tem uma preferência tão forte e tão uniforme em toda a população. Um estudo publicado em 2026 na revista PLOS Biology comparou dezenas de espécies e propõe uma explicação em duas etapas: primeiro, nossos ancestrais passaram a andar sobre duas pernas; depois, o cérebro cresceu.

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Entre os canhotos convictos, em que porcentagem a linguagem fica no hemisfério direito do cérebro?

Seu palpite50%

Dados do estudo: o artigo “Bipedalism and brain expansion explain human handedness” foi assinado por Dr. Thomas Püschel, da Universidade de Oxford, com Rachel Hurwitz e Chris Venditti, este da Universidade de Reading, no Reino Unido. Saiu na PLOS Biology em 2026, com o DOI 10.1371/journal.pbio.3003771.

Quantas pessoas são canhotas?

A estimativa mais sólida vem de uma meta-análise publicada em 2020 na Psychological Bulletin, que reuniu dados de centenas de estudos. O melhor número geral para canhotos ficou em 10,6% da população. Pelo critério mais rigoroso, o de quem é claramente canhoto, são 9,3%. Pelo mais amplo, que soma canhotos e ambidestros, chega a 18,1%.

A proporção varia um pouco entre sexos, origens e épocas, e os autores apontam um motivo para isso: a pressão cultural. Em muitos lugares, crianças canhotas foram por muito tempo obrigadas a escrever com a direita, o que reduz o número de pessoas que se declaram canhotas. Mesmo assim, a proporção de cerca de um canhoto para cada dez pessoas se repete pelo mundo.

O que o estudo com primatas encontrou?

Os pesquisadores juntaram dados de 2.025 indivíduos de 41 espécies de primatas antropoides, o grupo que inclui macacos, grandes símios e humanos, e analisaram duas coisas: para que lado cada espécie tende, e quão forte é a preferência por uma das mãos.

Os humanos apareceram como um ponto fora da curva, com uma preferência pela direita muito mais forte do que a esperada para um primata. Mas essa diferença sumia quando o modelo levava em conta dois fatores: o tamanho do cérebro e o índice intermembral, que compara o comprimento dos braços com o das pernas e indica como o animal se locomove. Em outras palavras, um primata com o nosso cérebro e o nosso corpo de andar ereto deixa de ser uma exceção.

As estimativas para os nossos ancestrais sugerem que a força da preferência por uma das mãos surgiu cedo na linhagem humana, e que a tendência para a direita cresceu com o aparecimento do gênero Homo.

Por que andar sobre duas pernas fez diferença?

Segundo os autores, a postura ereta liberou as mãos da locomoção. Sem precisar delas para andar ou se pendurar em galhos, nossos ancestrais puderam especializá-las em tarefas finas, como fabricar e usar ferramentas, e isso favorece ter uma mão dominante e treinada.

O cérebro maior entraria na segunda etapa. Com mais tecido, os dois hemisférios passaram a dividir tarefas, e o esquerdo, que controla o lado direito do corpo, concentrou funções como a linguagem e o controle motor fino. Essa divisão de trabalho ajudaria a explicar por que a direita venceu em quase toda a população.

Desde quando somos destros?

Há pistas antigas. Em 2016, pesquisadores analisaram riscos microscópicos nos dentes da frente de um fóssil da Tanzânia, chamado OH-65, com cerca de 1,8 milhão de anos. A direção dos riscos indica que o indivíduo segurava objetos com a mão direita enquanto os processava perto da boca, possivelmente cortando com uma ferramenta de pedra. É a evidência mais antiga de destreza no registro fóssil.

A preferência começa antes do nascimento

Em 1991, um estudo com ultrassom acompanhou fetos a partir da 15ª semana de gestação e observou que a grande maioria chupava o polegar direito, preferência que se mantinha até o fim da gravidez.

Um trabalho publicado na eLife em 2017 sugere que essa assimetria começa ainda mais longe do cérebro do que se pensava. Os fetos já mexem mais um braço do que o outro antes de o córtex motor estar conectado à medula espinhal. Ao analisar a medula de fetos humanos, os pesquisadores encontraram genes mais ativos de um lado do que do outro, com diferenças reguladas por mecanismos epigenéticos, ou seja, que ligam e desligam genes sem mudar o DNA.

Ser canhoto é genético?

Só em parte. Um estudo com mais de 54 mil gêmeos e irmãos da Austrália e da Holanda, publicado na Neuropsychologia em 2009, estimou que os genes respondem por cerca de um quarto (23,6%) da variação na preferência manual. O resto vem de fatores do ambiente que cada pessoa experimenta de forma única, inclusive variações ao acaso durante o desenvolvimento.

Em 2020, uma análise genética de 1,7 milhão de pessoas, publicada na Nature Human Behaviour, encontrou 48 variantes no DNA associadas à preferência manual: 41 ligadas a ser canhoto e 7 a ser ambidestro. Cada uma tem efeito pequeno. Não existe um “gene do canhoto”, mas muitos genes com influência discreta, vários deles ativos no sistema nervoso.

Por que os canhotos não desapareceram?

Se a direita trouxe vantagens, por que um em cada dez continua canhoto? Uma das hipóteses mais estudadas é a da luta. Num confronto, quem é canhoto teria a vantagem da surpresa, justamente por ser raro, e essa vantagem diminui quanto mais canhotos existem. Um estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B em 2005 encontrou, em sociedades tradicionais, uma relação entre a taxa de homicídios e a proporção de canhotos, que ia de 3% nas sociedades mais pacíficas a 27% nas mais violentas.

A ideia é debatida, e a interpretação de alguns desses dados foi contestada por outros antropólogos. O padrão aparece também nos esportes de confronto direto, como esgrima, boxe e tênis, em que atletas canhotos costumam estar mais representados do que na população em geral.

O cérebro dos canhotos funciona diferente?

Em parte. Na maioria das pessoas, a linguagem fica concentrada no hemisfério esquerdo do cérebro. Um estudo publicado na revista Brain em 2000 mediu isso em 326 voluntários saudáveis e mostrou que a chance de a linguagem ficar no hemisfério direito cresce conforme a pessoa é mais canhota: 4% entre os destros convictos, 15% entre os ambidestros e 27% entre os canhotos convictos. Ou seja, mesmo entre os canhotos, a maioria processa a linguagem do lado esquerdo, como os destros.

Perguntas frequentes

Por que a maioria das pessoas é destra?

Um estudo com 41 espécies de primatas, publicado na PLOS Biology em 2026, liga a forte preferência humana pela mão direita a dois fatores: a postura ereta, que liberou as mãos para tarefas finas, e o crescimento do cérebro, que levou os hemisférios a dividir funções.

Qual a porcentagem de canhotos no mundo?

Cerca de 10,6%, segundo a maior meta-análise sobre o tema, publicada em 2020. Dependendo do critério, a estimativa vai de 9,3% a 18,1%.

Ser canhoto é hereditário?

Em parte. Estudos com gêmeos atribuem aos genes cerca de um quarto da variação na preferência manual, e uma análise genética de 2020 encontrou dezenas de variantes de efeito pequeno. O restante vem de fatores do desenvolvimento.

O bebê já nasce destro ou canhoto?

A preferência aparece antes do nascimento: estudos com ultrassom mostram que, a partir da 15ª semana de gestação, a maioria dos fetos chupa o polegar direito.

Canhotos usam o outro lado do cérebro para falar?

Alguns. A linguagem fica no hemisfério direito em cerca de 27% dos canhotos convictos, contra 4% dos destros convictos. A maioria dos canhotos processa a linguagem do lado esquerdo.

Fontes

Püschel, T. A.; Hurwitz, R. M.; Venditti, C. "Bipedalism and brain expansion explain human handedness". PLOS Biology, 2026. DOI: 10.1371/journal.pbio.3003771

Papadatou-Pastou, M. et al. "Human handedness: a meta-analysis". Psychological Bulletin, 2020. DOI: 10.1037/bul0000229

Cuellar-Partida, G. et al. "Genome-wide association study identifies 48 common genetic variants associated with handedness". Nature Human Behaviour, 2020. DOI: 10.1038/s41562-020-00956-y

Medland, S. E. et al. "Genetic influences on handedness: data from 25,732 Australian and Dutch twin families". Neuropsychologia, 2009. DOI: 10.1016/j.neuropsychologia.2008.09.005

Knecht, S. et al. "Handedness and hemispheric language dominance in healthy humans". Brain, 2000. DOI: 10.1093/brain/123.12.2512

Faurie, C.; Raymond, M. "Handedness, homicide and negative frequency-dependent selection". Proceedings of the Royal Society B, 2005. DOI: 10.1098/rspb.2004.2926

Frayer, D. W. et al. "OH-65: the earliest evidence for right-handedness in the fossil record". Journal of Human Evolution, 2016. DOI: 10.1016/j.jhevol.2016.07.002

Ocklenburg, S. et al. "Epigenetic regulation of lateralized fetal spinal gene expression underlies hemispheric asymmetries". eLife, 2017. DOI: 10.7554/eLife.22784

Hepper, P. G.; Shahidullah, S.; White, R. "Handedness in the human fetus". Neuropsychologia, 1991. DOI: 10.1016/0028-3932(91)90080-R

Matéria escrita e revisada por Dr. Paulo Budri. Atualizada em outubro de 2026.

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