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Seria o cérebro humano composto por dois órgãos?

Rastreamento genético em camundongos e células-tronco humanas sugere que a formação do cérebro parte de dois progenitores paralelos, não de um só.

Ilustração da formação do cérebro a partir de dois progenitores neurais paralelos no embrião
Ilustração da formação do cérebro a partir de dois progenitores neurais paralelos no embrião
Resumo em 15 segundos
  • Rastreamento de linhagem em camundongos revelou duas populações paralelas de células nervosas embrionárias.
  • Os dois progenitores surgem ao mesmo tempo, na gastrulação, e cada um se limita a uma região do cérebro.
  • A população anterior origina cérebro anterior e mesencéfalo; a posterior, o rombencéfalo.
  • Os autores propõem que os dois progenitores existem há 550 milhões de anos, de hemichordados a mamíferos.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

A pergunta acima abre o artigo publicado na Nature Neuroscience em 18 de setembro de 2026, e a resposta defendida pelos autores é: sim. Para eles, a formação do cérebro começa com dois progenitores paralelos, que surgem ao mesmo tempo durante a gastrulação. Um é o progenitor do cérebro anterior e do mesencéfalo. O outro, do rombencéfalo.

As evidências vêm de duas frentes. Em embriões de camundongo, a equipe usou rastreamento de linhagem: marcou células específicas com etiquetas fluorescentes e acompanhou onde seus descendentes foram parar. Em paralelo, células-tronco humanas pluripotentes foram conduzidas em laboratório até virar versões desses dois progenitores. Elas se mostraram comprometidas com destinos diferentes, ou seja, já tinham uma direção definida, e não uma vocação genérica de virar neurônio.

Dados do estudo: O estudo tem Dr. Rayyan T. Jokhai e Carolyn E. Dundes como coautores principais, e Kyle M. Loh como autor correspondente. A pesquisa foi feita na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, com participação de equipes do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), da Universidade da Califórnia em São Francisco e da Hopkins Marine Station. Os dados brutos de sequenciamento estão depositados no repositório Gene Expression Omnibus, sob os números GSE286146, GSE286147 e GSE286148, reunidos na SuperSeries GSE286214. O DOI https://doi.org/10.1038/s41593-026-02433-7

O que é um progenitor neural? Onde ele entra na formação do cérebro?

Progenitor é a célula que ainda não tem função pronta, mas já tem endereço. Vale uma imagem do cotidiano: pense na turma que acabou de entrar na universidade. Ninguém se formou ainda, mas uma parte já está matriculada no curso de exatas e a outra, no de humanas. Elas não fazem as mesmas disciplinas. É só uma comparação para ilustrar a ideia, não um mecanismo descrito no artigo.

No estudo, esses progenitores vêm do ectoderma neural, o tecido do embrião que, segundo os autores, dá origem às regiões do cérebro. São dois: o ectoderma neural anterior, progenitor do cérebro anterior e do mesencéfalo, e o ectoderma neural posterior, progenitor do rombencéfalo, a porção traseira. Os rombômeros citados no artigo são segmentos numerados dentro do rombencéfalo, como andares de um mesmo prédio.

O que o estudo encontrou?

Os achados reforçam a ideia de que a formação do cérebro segue duas trilhas paralelas, com fronteiras que as células não atravessam.

  • No rastreamento com embriões de camundongo, as células progenitoras marcadas foram acompanhadas até a fase em que o cérebro já tem regiões reconhecíveis. A análise reuniu 494 aglomerados de células, quase cinco centenas, vindos de 16 embriões, em 7 experimentos.
  • Um segundo experimento marcou células que expressam o gene Gbx2, um marcador do progenitor posterior. Foram 18 embriões ao longo de 4 experimentos.
  • Células-tronco humanas pluripotentes foram conduzidas a virar progenitores anterior e posterior. Os dois grupos mostraram destinos já comprometidos e traziam “paisagens de cromatina” divergentes. Cromatina é o modo como o DNA fica enrolado dentro da célula; a paisagem seria o mapa de quais trechos estão mais acessíveis. No estudo, essas paisagens já apontavam para a identidade futura antes de ela se manifestar.
  • De lá, os pesquisadores chegaram a neurônios motores específicos do rombômero 5/6 do rombencéfalo, um tipo que, segundo o artigo, era difícil de gerar em laboratório até agora.

Um plano que talvez atravesse 550 milhões de anos

Aqui convém separar o que foi medido do que é proposta. A parte experimental está nos embriões de camundongo e nas células humanas em cultura. Já a ideia de que essa divisão em dois progenitores existe desde muito antes dos vertebrados é uma hipótese levantada pelos autores: eles propõem que o arranjo se conservou por cerca de 550 milhões de anos, de hemichordados até os mamíferos.

Para investigar essa história evolutiva, o grupo também corou embriões de acorn worm, o verme-de-bolota, animal marinho citado na discussão evolutiva do trabalho. É um indício de que a pergunta sobre a origem do cérebro interessa para além dos laboratórios de embriologia.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores são cuidadosos com o alcance do resultado. Eles escrevem que os experimentos de rastreamento de linhagem apoiam o modelo dos dois progenitores. Apoiar não é o mesmo que provar, e a pergunta sobre como e quando as regiões do cérebro se diversificam continua em aberto, como o próprio artigo a apresenta.

Também é preciso olhar as camadas do trabalho uma por uma. A parte com embriões foi feita em camundongos, não em pessoas. As células humanas do estudo são células-tronco pluripotentes diferenciadas em laboratório, um modelo útil, mas que não reconstrói um cérebro humano em desenvolvimento. E a história dos 550 milhões de anos é uma proposta dos autores, não uma medida.

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Ficam de fora, ainda, perguntas que o artigo não responde: o que faz cada progenitor seguir seu caminho e como as diferenças de cromatina se formam. São questões para os próximos estudos.

Por que isso importa?

Se o modelo se confirmar, a maneira de olhar para o cérebro muda um pouco. Em vez de um órgão montado por um exército único que se especializa aos poucos, você teria um órgão composto, feito por duas linhagens que já começam separadas. É a diferença entre uma empresa em que todos entram como estagiários e vão sendo alocados e outra em que os times já são contratados com funções definidas desde o primeiro dia.

Isso ajuda a entender por que partes do sistema nervoso podem ter origens distintas, pergunta que interessa a quem estuda desenvolvimento e evolução. E a possibilidade de fabricar em laboratório neurônios motores do rombômero 5/6, antes difíceis de obter, dá aos pesquisadores uma peça concreta a mais para trabalhar. Nada disso é tratamento, nem promessa de tratamento: é matéria-prima para pesquisa.

Perguntas frequentes

O que o estudo descobriu sobre a formação do cérebro?

O estudo propõe que o cérebro se forma a partir de dois órgãos progenitores paralelos, e não de um único. O progenitor anterior dá origem ao cérebro anterior e ao mesencéfalo; o posterior, ao rombencéfalo. Os dois surgem ao mesmo tempo, durante a gastrulação.

A pesquisa foi feita em humanos ou em camundongos?

Nas duas coisas. O rastreamento de linhagem foi feito em embriões de camundongo. As células humanas usadas no estudo são células-tronco pluripotentes diferenciadas em laboratório, não embriões humanos.

Que tipo de neurônio os pesquisadores conseguiram produzir em laboratório?

Neurônios motores específicos do rombômero 5/6, uma região segmentada do rombencéfalo. Segundo o artigo, esse tipo de célula era difícil de gerar em laboratório até agora.

Fontes

  • Jokhai, R. T., Dundes, C. E. et al. “Two parallel neural ectoderm progenitors contribute to the developing brain”. Nature Neuroscience, 18 de setembro de 2026.
  • Pani, A. M. et al. “Ancient deuterostome origins of vertebrate brain signalling centres”. Nature 483, 289–294 (2012). DOI 10.1038/nature10838
  • Krumlauf, R. & Wilkinson, D. G. “Segmentation and patterning of the vertebrate hindbrain”. Development 148, dev186460 (2021). DOI 10.1242/dev.186460
  • Moens, C. B. & Prince, V. E. “Constructing the hindbrain: insights from the zebrafish”. Dev. Dyn. 224, 1–17 (2002). DOI 10.1002/dvdy.10086

Foto: AI

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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