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Sauna e imunidade: Veja o que 30 minutos pode fazer

Sessão de 30 minutos a 73 °C elevou glóbulos brancos no sangue de 51 adultos; neutrófilos e linfócitos voltaram ao normal em meia hora.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

7 min de leitura ·

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Interior rústico de sauna de madeira com uma pessoa sob luz ambiente quente e aconchegante
Interior rústico de sauna de madeira com uma pessoa sob luz ambiente quente e aconchegante
Resumo em 15 segundos
  • Uma sessão de 30 minutos de sauna a 73 °C elevou todos os tipos de glóbulos brancos medidos.
  • Neutrófilos e linfócitos voltaram ao normal meia hora depois; os autores não falam em imunidade duradoura.
  • A temperatura corporal subiu para 38,4 °C e 18 associações ligaram citocinas a essa variação.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Trinta minutos sentado a 73 °C, com uma ducha fria no meio do caminho, bastaram para aumentar os glóbulos brancos na corrente sanguínea de 51 adultos. O experimento está no centro de um estudo sobre sauna e imunidade publicado na revista Temperature. E o detalhe mais curioso não é a alta das células de defesa: é a queda. Meia hora depois da sessão, neutrófilos e linfócitos já estavam de volta aos níveis de antes.

Esse vaivém rápido é o grande achado do estudo. As células não foram fabricadas às pressas nem se multiplicaram. Saíram de onde costumam ficar “guardadas”, os tecidos, e entraram no sangue para circular. Depois, voltaram. É uma movimentação que funciona como patrulha, não um reforço permanente, e a diferença entre as duas coisas é o que separa o dado do que se costuma prometer por aí.

Dados do estudo: a pesquisa foi liderada por Jari Laukkanen, da Universidade da Finlândia Oriental, com Ilkka Heinonen, da Universidade de Turku e do Instituto UKK para Pesquisa em Promoção da Saúde. Participaram 51 adultos, 27 mulheres e 24 homens, com média de idade de 50 anos. Cada voluntário passou por uma única sessão de 30 minutos de sauna finlandesa a 73 °C, com uma breve ducha fria no meio. O sangue venoso foi coletado em três momentos antes, logo depois e 30 minutos após a sauna, e analisado para células imunes e 37 citocinas. O artigo “Acute Finnish sauna heat exposure induces stronger immune cell than cytokine responses” saiu na Temperature, com o DOI 10.1080/23328940.2026.2645467.

Sauna e imunidade: o que muda em 30 minutos a 73 °C?

A sauna do experimento estava a 73 °C, o dobro dos 36,4 °C  (± 0,5 °C) do corpo dos voluntários. Em média, a temperatura corporal deles chegou a 38,4 °C (± 0,7 °C), praticamente dois graus a mais. O volume de plasma, a parte líquida do sangue, não mudou durante a sessão.

No sangue, os pesquisadores viram aumento em todos os tipos de glóbulos brancos que mediram. Dois grupos merecem atenção. Os neutrófilos são a linha de frente: costumam ser dos primeiros a responder a uma infecção. Os linfócitos incluem células que reconhecem ameaças específicas, produzem anticorpos e ajudam a coordenar a resposta imune.

Por que os glóbulos brancos saem dos tecidos?

Glóbulos brancos, ou leucócitos, são as células de defesa do organismo. Muitos deles não passam o dia circulando: esperam em reservatórios nos tecidos, como um corpo de bombeiros que só sai da garagem quando é chamado. A hipótese dos autores é que o calor da sauna funciona como um chamado temporário.

“Isso pode indicar que a sauna mobiliza glóbulos brancos adicionais dos tecidos para a corrente sanguínea, e eles são redistribuídos depois da sessão. Esse tipo de liberação periódica é benéfico, porque, uma vez que saem de seus locais de armazenamento, as células conseguem patrulhar melhor o corpo e responder a patógenos”, diz Dr. Ilkka Heinonen, pesquisador da Universidade de Turku.

O nome técnico disso é vigilância imunológica: em vez de ficarem paradas, as células viajam pelo sangue e pelos tecidos procurando sinais de infecção ou de algo fora do lugar.

O exercício físico provoca algo parecido; também empurra células de defesa para o sangue por um tempo. A comparação ajuda a entender o mecanismo, mas os autores avisam que ela não significa que sauna e academia entreguem os mesmos benefícios imunológicos.

Quanto tempo dura o efeito?

Pouco. Neutrófilos e linfócitos voltaram ao valor inicial cerca de 30 minutos após a sauna. Há um detalhe interessante no estudo: ele mostra que a contagem total de glóbulos brancos seguiu levemente elevada meia hora depois nas mulheres, e as células MXD (monócitos, eosinófilos e basófilos) também continuavam acima do basal.

Ou seja: a maré sobe e desce rápido, mas não exatamente no mesmo ritmo para todo mundo.

Citocinas: os recados que acompanham a temperatura

Citocinas são pequenas proteínas que funcionam como mensagens entre células de defesa, ajustando a inflamação e coordenando a resposta do corpo. Os pesquisadores mediram 37 delas. No conjunto, a sauna mexeu pouco: apenas duas mudaram de forma significativa na comparação geral.

O ponto interessante apareceu no cruzamento com a temperatura. Dezoito associações significativas ligaram a variação de temperatura corporal à variação de citocinas, especialmente logo após a sauna. Com os glóbulos brancos, nada parecido: a contagem não acompanhou o quanto o corpo esquentou.

“Curiosamente, os níveis de várias citocinas mudaram conforme a temperatura corporal subiu durante a sauna. Não observamos associação semelhante entre a contagem de glóbulos brancos e as mudanças de temperatura”, diz Jari Laukkanen, que liderou o estudo na Universidade da Finlândia Oriental.

A leitura dos autores é que a sauna pode mexer em partes diferentes do sistema imunológico por caminhos fisiológicos distintos: um para as células que circulam, outro para os sinais que elas trocam entre si.

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Banho frio no meio da sauna: ajuda ou atrapalha?

Não dá para dizer com este estudo. O protocolo incluía uma breve ducha fria no meio dos 30 minutos, então o que foi medido é o efeito do conjunto (calor mais resfriamento) e não o do calor sozinho. Como o desenho não comparou sessões com e sem banho frio, não há como separar a contribuição de cada parte.

O que o estudo não prova sobre a prevenção de doenças?

Ainda não se sabe se a sauna aumenta a imunidade de forma duradoura ou se reduz o risco de infecções. Os próprios autores são explícitos: o trabalho mediu apenas os efeitos imediatos de uma única sessão, e as mudanças observadas nas células foram passageiras.

A literatura anterior associa a prática regular de sauna finlandesa a menor morbidade e mortalidade, ou seja, a um risco menor de adoecer e de morrer. Mas associação não é causa: esse tipo de dado não mostra que a sauna tenha produzido o efeito, e outros hábitos e condições de saúde podem estar por trás. O novo estudo entra como uma peça de mecanismo, uma pista de como o corpo reage durante a sessão, não uma prova de benefício futuro.

Um ensaio de patrulha, não um escudo

Existe algo reconfortante na imagem de um exército que dorme nos tecidos e acorda com o calor. Só que a tropa que faz uma ronda não fica mais forte por isso. O que o trabalho entrega é uma fotografia de 30 minutos e uma pergunta melhor do que a que costuma circular por aí.

Em vez de “sauna cura alguma coisa?”, vale perguntar como esse sobe e desce de células se repete ao longo de meses e o que ele muda de fato na saúde de quem tem o hábito. Entender como as células de defesa se movem interessa muito além da sauna: é o mesmo tipo de pergunta que guia trabalhos sobre células imunológicas de supercentenários.

Para quem faz sauna, o recado prático é modesto: o corpo reage à sessão, e reage rápido. Nada disso, porém, substitui a avaliação de um profissional de saúde quando o assunto é prevenção ou tratamento.

Perguntas frequentes

Qual foi a temperatura da sauna no estudo?

A sauna estava a 73 °C, e a sessão durou 30 minutos, com uma breve ducha fria no meio. O sangue foi coletado antes, logo depois e 30 minutos após a sauna, e os voluntários podiam beber água à vontade.

Quantas pessoas participaram da pesquisa?

Participaram 51 adultos, 27 mulheres e 24 homens, com média de idade de 50 anos. Cada voluntário passou por uma única sessão de sauna finlandesa.

O que são as células MXD?

MXD é a sigla usada no estudo para o grupo formado por monócitos, eosinófilos e basófilos. Diferentemente dos neutrófilos e linfócitos, essas células continuavam elevadas 30 minutos após a sauna.

Fontes

  • Heinonen, I. H. A., Koivula, T., Hollmén, M., Immonen, J., Kunutsor, S. K., Jalkanen, S., & Laukkanen, J. A. (2026). Acute Finnish sauna heat exposure induces stronger immune cell than cytokine responses. Temperature, 1–14. DOI: 10.1080/23328940.2026.2645467
  • Universidade da Finlândia Oriental (UEF), “Sauna bathing may boost immune responses”, 2 de abril de 2026. DOI do artigo: 10.1080/23328940.2026.2645467
  • ScienceDaily, “A single sauna session sends immune cells surging through your body”, 2026. DOI do artigo: 10.1080/23328940.2026.2645467

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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